Arquivo para Setembro 29, 2008

O que eu tenho a dizer sobre Hy-Brazil

Postado em Artigo, Cenários, Listas, Sistemas, pensamentos em Setembro 29, 2008 por valberto

Quando Marcelo Del Debbio me disse que ia fazer o tal livro fiquei com um pé atrás. Fantasia Medieval no Brasil? Será que dá certo? Mas quando pude colocar as mãos no livro, não hesitei em nenhum momento em comprá-lo.

O livro inteiro é uma grande piada. É como se Monty Pyton tivesse vindo ao Brasil e feito um filme sobre os jogadores de Fantasia Medieval do Brasil. Muito divertido, mas com toques sérios o bastante para você conduzir uma campanha sem cair na esculhambação.

Uma analogia interessante para Hi-Brazil seria que ele esta para o RPG de fantasia medieval assim como o Massacration (MTV, Hermes & Renato) está para o Heavy Metal. É apenas uma grande piada, bem humorada, que nos faz não apenas rir de nós mesmos e de nossos costumes, mas nos ajuda também a refletir sobre certos momentos e fatos de nossa história.

Provavelmente eu jamais use o livro para mestrar, seja lá o que for, justamente por ter muitos outros bons títulos na fila, esperando a vez.

E também porque o tema não me atrai de todo. Mas isso não invalida nenhum dos pontos positivos ou negativos do livro. A minha opinião, neste caso, não passa de uma informação subjetiva, desnecessária ao cerne da discussão. Uma análise do livro nos permite inferir alguns de seus pontos fortes:

- 140 páginas, sendo que a maior parte é usada para descrever o cenário;

- sistema “stand alone”: você não precisa de mais nenhum livro da Daemon para jogar Hi-Brazil;

- preço convidativo: por 26 reais e 10 centavos você não compra nenhum dos livros de Forgotten Realms, Mystara, Darksun, ou mesmo Tormenta, o que faz de Hi-Brazil o cenário medieval mais econômico que existe a disposição no Brasil.

- é um cenário de fácil adaptação e transformação: por ser um cenário baseado também na história recente, você pode modificá-lo à medida que a história real do Brasil avança. Ou seja, existe uma disputa política para saber quem vi ser o novo Burgomestre de São Paolo e sim Serra;

- além de ser divertido, o livro é um convite para o estudo mais a sério das particularidades nacionais;

- tirando talvez uma ou outra descrição menos elogiosa o livro como um todo é coeso, bem escrito e sem pontas soltas.

Mas longe de ser perfeito o livro aponta alguns erros, que poderiam ser consertados em futura edição:

- optou-se por uma impressão “lavada”, no estilo “xerox de qualidade” com o claro intuito de baratear o livro. Entretanto o barato sai caro, pois alguns mapas e ilustrações perdem por demais a qualidade;

- o livro segue o Formato Daemon de livro. Mas é um formato já um pouco batido. Seu design interno não é inovador, embora seja funcional;

- falta um índice remissivo! Talvez a mais imperdoável das falhas do livro. Ás vezes perde-se muito tempo indo e voltando no livro em busca de uma simples informação, como um nome ou referência.

Somando pontos altos e baixos, Hi-Brazil ainda segue com vasta vantagem positiva. Não entendo a raiva que algumas pessoas demonstraram sobre o livro, ou os produtos Daemon em geral, sem demonstrar qualquer argumento que passasse do lugar comum. Em tempo: citar o que eu faço, deixo de fazer, ou a minha instrução não fortalece meus argumentos, muito pelo contrário. Desmerecer a opinião alheia atribuindo adjetivos desfavoráveis para quem gosta ou desgosta do livro também não é uma atitude construtiva nem inteligente.

Dentro dos argumentos que apresentei, se você não tem grana para comprar um RPG grande como Tormenta ou FRCS, Hi-Brazil não é apenas uma boa opção. Ela é uma das melhores.

Hi-Brasil é um livro é um livro que brinca com a nossa capacidade de rir de nós mesmos. O RPG costuma ser visto no Brasil como uma coisa distante, gringa, presa aconceitos que não nos pertencem, uma esquisitice de americanos e franceses. Ou então como um bando de sistemas e livros que de tãp tangíveis e historicamente construidos acaba ficando incompreensível para a maioria dos mortais. A grande preocupação e talvez o maior mérito do Hi-Brasil é trazer esses conceitos para o solo no qual pisamos no dia-a-dia, fazendo uma indagação crítica e ao mesmo tempo bem fantasiosa daquilo que nos é próximo, das formas que nossa cultura particular usa para nos construir como seres humanos, povo e jogadores de rpg.

Hi-Brasil faz uma crítica da forma que nós, brasileiros, nos aproriamos da tradição americana e européia. O livro tem uma visão muito particular. é uma crítica a cerca do que nos faz dignos ou indignos de rolar iniciativa.

Mas Hi-Brasil padece de um crime que apenas Millor descreve: “tudo o que eu digo, acreditem, teria mais solidez, se em ver de carioquinha , eu fosse um velho chinês”.

Hi-Brasil é um livro fantástico. Engraçado e crítico. Tem espaço para ele e para a relíquia que é Desafio dos Bandeirantes. Na verdade, sempre há espaço para mais um.

Se você tem dinheiro sobrando ele também é uma boa opção. Mesmo que jamais usei o livro para nada, ele vai fornecer a você uma crítica loquaz e por vezes ácida de como a nossa amada (salve, salve) pátria se formou. Além de ser um convite para a boa leitura e para o riso fácil. Pading Cicer é uma piada muito legal (eu sou de Juazeiro do Norte e não me ofendi com isso; Por que deveria?).

No entanto, se você é daqueles mais ortodoxos, mantenha distância segura de 30 fts do livro. Não é nada que você vá gostar, não importa que argumentos eu utilize.

RPG é um jogo de elite?

Postado em Artigo, Sem sistema, pensamentos em Setembro 29, 2008 por valberto

RPG é um jogo de elite?

“Depende”. Sim, se você esperava alguma outra resposta mais assertiva, me desculpe, mas eu não posso dá-la ainda. RPG como sabemos é um jogo. É diversão, é educativo, é bom para passar o tempo, é um hobbie… mas é de elite? O que é ser de elite? De que tipo de elite estamos falando? É possível que algo assim seja popularizado ou tudo não vai passar de um nicho de mercado apertadinho entre o animê e os MMO’s da vida?

Segundo o autor Thomas B. Bottomore, a palavra elite era usada durante o século XVIII para nomear produtos de qualidade excepcional. Posteriormente, o seu emprego foi expandido para abarcar grupos sociais superiores, tais como unidades militares de primeira linha ou os elementos mais altos da nobreza. A palavra elite evoca hoje em dia uma visão política de uma classe dominante, superior, com mais recursos. A Elite, de modo geral, pode ser considerada como um grupo dominante na sociedade. Especificamente, entretanto, o conceito possui diversas definições.

Uma delas designa aquelas pessoas ou grupos capazes de formar e difundir opiniões que servem como referência para os demais membros da sociedade. Neste caso, elite seria um sinônimo tanto para liderança quanto para formadores de opinião.

Outra forma de identificar uma elite é aproximando-a da categoria intelectual da classe dirigente. Neste caso, a idéia de formar opinião pública é substituída pela idéia de construção ideológica, entendida como a direção política em um dado momento histórico. Sob este aspecto, a elite cumpriria também o papel de dirigente cultural. A ideologia corrente de um determinado grupo seria mantida e coordenada, em tese, pela elite deste mesmo grupo.

Comercialmente falando “Elite” assume uma característica que indica qualidade e preparação para a vida no mundo capitalista neoliberal que vivemos. Pessoas que possuem um grau de educação maior que a maioria das outras pessoas, normalmente associada a um poder aquisitivo maior.

Assim, vejamos se o RPG é um jogo de elite. Normalmente seus manuais são caros. São livros em tamanho grande, com pelo menos 64 páginas e que quase sempre ultrapassam a soma dos 20 reais. Possuem ilustrações – coisas que romances e outros formatos de livros quase nunca possuem. Suas tiragens normalmente pequenas o que encarece mais ainda o seu custo. O fato de precisarem de acessórios como dados, miniaturas, mapas, marcadores diversos, por exemplo, pode transformar uma inocente partida de fim de semana num gasto que pode facilmente superar os 300 reais. Tão certo quanto existe livros caros também existem suas contrapartes mais econômicas. Sistemas completos que ocupam pouco mais de 100 páginas não são fatos isolados e assustam muitos jogadores. Mesmo manuais mais modestos, com digamos 40-60 páginas, dispostos gratuitamente na internet ainda sofrem vários problemas. O primeiro deles é que se precisa de um computador ligado á rede mundial de computadores. Embora o Brasil esteja entre os cinco países que passa mais tempo on line e existam tantas lan houses quanto padarias a idéia de um computador por casa ainda é distante. E mesmo que o livro possa ser baixado sem problemas ainda decorrem custos como impressão, encadernação…

Seus livros possuem dezenas – em alguns casos centenas – de páginas para serem digeridas antes que a diversão se inicie. Mesmo naqueles manuais mais simplificados dificilmente ele fica abaixo de dez páginas. Tanto as regras como o cenário onde o jogo se passa exigem do leitor uma certa capacidade de compreensão de textos e abstração, sem falar de um bom vocabulário. Palavras que estão fora do nosso dia a dia como escudos, dragões e magias abundam as páginas de grande parte dos RPGs. São bem diferentes de outras formas de diversão como o videogame que até mesmo iletrados conseguem aproveitar sem nenhuma dificuldade. Vide GTA que é um hit em qualquer lan house.

Hoje vivemos num mundo onde as pessoas não sabem mais ler. Ou não sabem, ou não querem, ou têm preguiça. Um bom leitor, daqueles que os professores de português adoram praticamente está em extinção. Para fazer o teste basta ir a qualquer escola e pedir que os alunos leiam as páginas de seus próprios livros. É uma leitura dura, sofrida e cheia de erros. Compreensão do que foi lido? É raro. Como professor posso atestar a veracidade desses fatos quando passei um trabalho – uma espécie de ficha de leitura – sobre um filme que assistimos em sala. “Desastre” é a palavra que me veio à mente quando vi o calibre da resposta dos alunos. E RPG demanda leitura.

Então, dentro de uma visão mais simples do que temos hoje no Brasil o RPG é quase uma exclusividade de pessoas que sabem ler e têm algum dinheiro para gastar com seu hobbie. Não é diferente do aeromodelismo, da miniaturização, da coleção de selos… a elitização do gênero depende de quanto você esta disposto a gastar com ele. Hoje não temos mais a figura do rpgista típico como o CDF que fala vários idiomas e lia “senhor dos anéis” antes dele virar pop. Hoje o rpgista é uma incógnita. Hoje, dizer quem ele é torna-se um verdadeiro desafio aos estudiosos do mercado.

E no fim das contas o RPG é uma coisa de elite? De certa forma sim, uma vez que ele não vai, nunca, ser uma coisa para todos. Em menor grau ele vai ser como o futebol, que tem seus fãs e seus detratores; que tem seus “Robinhos” e seus “eu odeio futebol”. O RPG tende para um seletivismo de seus praticantes, tanto quanto qualquer outro hobbie.

E sendo de elite é possível que ele se popularize? Sim. Experiências bem sucedidas neste sentido já foram vistas e sentidas no Brasil entre a metade da década e de 90 e a metade da década de dois mil. RPGs bons, acessíveis – tanto na leitura como no preço – com poucos acessórios e com um forte apelo “popular” introduzem dezenas, ou mesmo centenas de jogadores todos os meses. Simplicidade parece ser a palavrinha mágica para fazer um jogo girar de forma muito adequada. Palavrinha que os veteranos parecem esquecer ou odiar. Iniciativas de empresas como a Jambo realmente fazem a diferença neste espinhoso caminho.

O que precisamos fazer – com urgência – é encontrar formas de popularizar o RPG nos dias de hoje, no atual cenário. Ficar sonhando com o jogador nerd dos anos 80 e com a versão brasileira da Dragon magazine é só isso: sonho.