Hora de pagar
Hora de pagar
Encostei-me numa das colunas da área externa do estúdio, bem além do alcance dos refletores e da confusão de câmeras e fios. No palco, Delena Ramos gravava seu último quadro da semana do programa “Delena e você” que ia religiosamente ao ar já fazia 15 anos ou mais. Delena Ramos já foi uma das mulheres mais lindas do Brasil. Modelo, ganhou projeção naquele reality show e dali para um programa fixo na TV foi um pulo. E esta na TV desde então. E isso já faz o que? Vinte, trinta anos? Eu lembro de tê-la visto apresentando programas infantis quando eu era moleque. Ela era linda. Mas hoje para continuar linda um verdadeiro batalhão dos melhores maquiadores passava horas trabalhando em seu rosto. Fez tantas plásticas – diziam as más línguas – que quando ela abraçava alguém tinha de dobrar o joelho de tão esticada que estava a sua pele. Pura maldade: ela estava tão linda quando no dia que assinou o contrato.
Ela terminou de gravar e quando o diretor disse “Corta, valeu! Até semana que vem, pessoal!” toda a aura mágica de Delena sumiu por completo. Ela encarquilhou-se para frente, o peso dos anos roubando sua aparente juventude e seu carisma substituído por uma expressão carrancuda e ressentida. Eu a segui silenciosamente, de longe até o seu camarim. Esperei que as maquiadoras refizessem sua maquiagem e só depois entrei.sabe como é… cortesia profissional.
Entrei sem dizer nada. Ela me olhou e me confundiu por um instante com um fã. Logo que reconheceu quem eu era e o que vinha fazer ali sua aura de beleza e carisma se desfez novamente. Ela sentou-se, pesadamente e acendeu um cigarro, me oferecendo. Recusei.
- Já esta na hora, não é?
- Sim – respondi lacônico, como haviam me ensinado.
Ela deu mais uma tragada longa e depois me olhou no fundo dos olhos.
- Não há como renegociarmos?
- Temo que não – respondi – sua dívida é bem grande e estou aqui para recolher o pagamento. Meu patrão já adiou demais.
Na verdade haviam sido três adiamentos. Por alguma razão que me fugia ao entendimento o patrão gostava dela. Nem foi pelos juros, que neste caso, era ínfimos.
- Entendo… – disse ela tragando de novo – e como vai ser? Suicídio, assalto, derrame?
- Acidente de carro esporte, como você pediu. – respondi, olhando no palm top que eu carregava, checando os pormenores do contrato dela. Era um contrato padrão, tipo “fama e glória, bla- bla- bla- bla”, mas com um detalhe: a forma de “ir” estava explicitada na forma de um acidente de carro. Carro esporte, vermelho, veloz Mencionava uma echarpe, que já estava no porta-luvas do carro.
- Sempre gostei de carros esportes. Sempre gostei de Grace Kelly. Foi assim que ela morreu não foi? Pouco importa. Como vai ser?
- Basta apertar a minha mão. O porsche spider 911 conversível vermelho estará a sua espera. Basta sair com ele e o carro fará o resto.
- Vou sentir dor?
- Provavelmente sim. – Respondi sem pensar. A careta que ela fez foi algo que valer a viagem até a Gávea.
- Que seja.
Ela veio na minha direção e me deu um beijo. O pagamento foi efetuado. Ela saiu.
Peguei o outro lado e saí junto com um monte de figurantes, macacos de auditório de um programinha “teen” que tinha acabado de estrear. Só por curiosidade olhei no palm e chequei o nome da apresentadora. Vamos ter um encontro sim, mais cedo ou mais tarde… Naquela mesma noite todos noticiavam o triste fim de Delena Ramos e como ela tinha começado na TV, como figurante de um reality show…
Novembro 10, 2008 às 1:08 pm
Muito interessante. Curti. Isso tem alguma coisa a ver com “O Martelo das Feiticeiras”?
Novembro 10, 2008 às 3:18 pm
Pior que não. É um conto isolado – tentei dar continuação, mas não ficou bom – sobre uma visão que eu tive do inferno: os demônios como agentes de seguro.
Novembro 10, 2008 às 5:58 pm
Muito bom. O palm-top do Inferno deu um charme a mais, me arrisco a dizer. :)
Novembro 11, 2008 às 12:11 pm
Muito legal… É claro que existem referencias mil a pessoas reais, e isso não vale a pena comentar, mas é o que torna tudo mais interessante :)