Maior festa do RPG brasileiro
Nos tempos passados o RPG brasileiro tinha um calendário muito peculiar. Ele começava em julho, com o Encontro Internacional de RPG de São Paulo, promovido pela devir livraria e editora ltda. Durante mais ou menos 15 anos o evento agregou sob o mesmo teto diversos autores, livros e tendências de jogos que de certa forma ditaram os rumos do RPG no Brasil. O eirpg era aguardado ansiosamente por toda a comunidade de jogadores e contava além dos convidados internacionais, com pessoas vidas de todos os cantos do Brasil. Mas, em 2008 o eirpg fechou as portas. Depois de um ano fraco, com um público de pouco mais de 9 mil pessoas, a devir achou melhor não realizar o evento. Vale ressaltar que em seus anos áureos, o eirpg chegou a reunir em três dias de encontro mais de 25 mil pessoas.
No mesmo ano que o EIRPG não foi realizado uma comoção tomou conta do cenário nacional. Alimentado por um espírito de “we can do it” um grupo de bravos idealistas se reuniu e num prazo exíguo de pouco mais de 45 dias deu início ao mais ousado projeto nacional: a 1ª RPGCON. O evento naquele ano foi feito de uma maneira completamente nova: novos parceiros, novos expositores, novo local e uma vontade de dar certo que superou todas as expectativas. Palestras diversificadas, encontros de clubes, reuniões de associações, desfiles de fantasia e até mesmo a exibição de um “proto-desenho animado” de tormenta foram mostrados. Uma festa sem igual, que se não se comparava ao antigo público do EIRPG, pelo menos dava um grande ponta-pé inicial.
Se, com 45 dias apenas foi feito uma festa tão grande, o que se poderia esperar de uma segunda festa, com mais de um ano de preparação?
RPGCON – a festa dos vários D´s.
A segunda RPGCON foi marcada por vários D´s. Desinformação, desorganização, descuidistas, despreparo, desrespeito entre tantos outros. Difícil começar por onde o evento errou. Talvez pela divulgação ou a falta dela: apesar do maciço acompanhamento da mídia internética ao que parece não houve este ano uma mala direta. O sábado do evento foi o dia mais fraco que já vi num evento deste porte. Se em anos anteriores o sábado era um dia de ver muita gente e dezenas de cosplays bacanas este ano tivemos pouquíssimos cosplays e quase ninguém.
Não apenas isso, os stands foram uma verdadeira lástima. Organizados no pátio vermelho ao contrário da tradicional estrutura de pvc e alumínio dos anos anteriores, o os stands foram montados com estantes de ferro com a marca “games workshop” e malha de tecido preto estirado. Um dos expositores reclamou com direito: “eu montei todos os meus produtos no expositor e o vizinho de trás deu um empurrão nas estantes dele. Foi o bastante para tudo vir a baixo. Claro que não foi culpa dele, mas com uma estrutura como essa, esse tipo de acidente pode não acontecer?”.
A estrutura também não foi a esperada. “Fechamos o evento com um stand de 3m², luz elétrica e linha telefônica para passar cartão de crédito e débito e recebemos um stand de pano sem bicos de luz e sem linha telefônica”. Fato. Até a metade do primeiro dia nenhuma transação comercial foi feita via cartão de crédito. As opções eram poucas: uma das lojas optou por usar uma internet particular e fazer as vendas via pag-seguro ou pay-pal. Outra loja, a Moonshadows, mandou um de seus funcionários de volta à sede para ficar em comunicação com o evento via skype. Dessa forma, os dados do cartão eram passados via skype e o cartão era virtualmente passado na loja.
Este também foi o evento dos descuidistas. Gente que vai ao evento para roubar coisas. Ajudando no stand da moonshadows flagrei um marmanjo de cabelo grande e barba na cara tentar furtar um livro do tormenta. Ele colocou o livro numa mesa, depois colocou sua mochila cinza em cima do livro e continuou olhando tudo. Quando saiu, pegou a mochila e o livro. Fui atrás e pedi “educadamente” que ele devolvesse o livro sem “escândalos”. Ele devolveu. Esse foi o que eu consegui pegar, mas com certeza houveram outros. “Vim para cá com uma estimativa de prejuízo por roubo na ordem de 25%” disse um lojista. Roubaram um livrinho nosso e olha que não deixamos o stand vazio um segundo” disse Peter Primordial do tagmar 2.
Até umas três da tarde do primeiro dia não haviam placas que identificassem o que era o que: ninguém sabia onde ficava a organização, o encontro de blogs, a sala de xadrez… os banners do evento também chegaram apenas nessa hora. Outro ponto que contou negativamente foi a falta de organização da equipe. Tudo – ou quase tudo tinha que passar pelas vistas do Douglas. Convenhamos, num evento deste porte deixar tudo nas mãos de um sujeito só – por mais competente que ele seja – é contraproducente. Localizá-lo, então, é quase épico.
Aguardei o domingo com ansiedade. Ele tinha que melhorar. Mas antes de sair esperando por um dia que deveria melhorar eu parei o único D que faltava da minha lista numa escada e conversei com ele. O Douglas D3 tinha muito a dizer.
Domingo se escreve com “D” também.
Douglas me explicou boa parte das encrencas do evento., o stand foi a empresa que deu para trás e isso pode acontecer. Quanto ao resto ele foi muito sincero: “ficamos meio argentinos” disse ele. “Ficamos meio que nos achando, tá ligado? Assim meio que com um rei na barriga”. O problema de tudo passar pela mão do D3 foi explicado pela inexperiência de algumas pessoas que ele delegou responsabilidades. Mas, apesar de esclarecedoras, as explicações não resolviam os problemas e o domingo veio como o anjo vingador que poderia salvar ou enterrar o evento de vez.
O domingo foi um dia que começou bem, com dezenas de cosplays abundando o evento. Não chegava perto da quantidade absurda de gente fantasiada dos outros anos, mas a qualidade das fantasias se sobressaia. As palestras reascenderam o foco fora das mesas de jogo com força total e o evento simplesmente deu a impressão de dobrar de tamanho. Com as placas já colocadas ficou simples se localizar no colégio e as atrações começaram a se sobressair.
Tive a oportunidade de mestrar a mais empolgante mesa de sobrenatural de todos os tempos, num sistema derivado do Shotgun Diaries, revi amigos, me diverti à valer e até coloquei em prática as palavras de perdão que o meu “patrocinador” me ensinou. Engraçado como um evento assim pode promover tanto desenvolvimento pessoal.
Pena que tive de sair mais cedo, já que eu fui escalado para o vôo da tarde. Não pude pegar a mesa de vidro, mas adorei o evento.
Entre D de derrota e Desafios…
O Evento foi muito bacana. Não tanto quanto o primeiro, mas ainda assim muito bacana. Mas eu tive uma preocupação extra quando estava indo para casa. Onde estavam as crianças? Não falo das criancinhas de colo como a filha do Del Debbio ou a filha da Maria do Carmo e sim, cadê a molecada? Onde estão os adolescentes e as crianças que abundavam o EIRPG dos anos anteriores. Sem crianças não há jogadores novos e sem jogadores novos não existem novos consumidores e o mercado simplesmente para.
Acho que o grande desafio para o ano que vem é justamente trazer de volta “les infants”. Sem sangue novo, o rpg tende a virar coisa de velho gordo e barbudo de cheiro esquisito.