Eu não sei se já comentei, mas fui criado por meu avô materno. O velho não era um tipinho avô comum, desses gorduchos de barba branca que mima os netos. Ele era do tipo durão que fariam o Clint Eastwood sair correndo como uma menininha. Eu aposto que o velho poderia ensinar um truque ou dois a Chuck Norris.
A vida pregressa do velho, antes dele me encontrar, sempre foi um mistério até eu ter uns 14 anos e ele me levou para ser “iniciado”: na mesma noite experimentei um porre de pinga, fumei o quanto agüentei e sai com quantas prostitutas o velho pode pagar (na verdade duas – eu não sou nenhuma máquina sexual). Nesta mesma noite ele deixou escapar o que ele fazia antes da aposentadoria. O velho era uma espécie de Agente Federal Secreto, trabalhou com o DOPS e com o Comando de Caça aos Comunistas na década de 60. Ele fez parte da primeira equipe que aprendeu a interrogar suspeitos com a CIA. Interrogar é modo de falar; o velho foi um dos primeiros e mais competentes torturadores que o Brasil já tinha visto. Não que ele tivesse orgulho disso. Ele dizia que só tinha feito o que fez porque achava mesmo que estava protegendo o Brasil. É… como se um bando de estudantes de filosofia e história, entupidos de maconha até os ouvidos fossem mesmo um grande risco para a segurança nacional.
Fato é que quando saíamos para beber, eu invariavelmente aprendia uma ou duas coisinhas de “interrogatório com meios extremos” com o meu avô. Eu sempre fui do tipo curioso, saca? Desses que aprendem coisas apenas por aprender. Eu li em algum lugar que saber era poder. Que não se pode dizer que um conhecimento é inútil até você precisar dele. O que me lembra que desde que essa droga de mundo zumbi começou, eu não li mais nenhum livro. Eu jurei ali que se saísse vivo daquela ia ler toda a coleção de Machado de Assis – assim que encontrasse um bom dicionário de português.
Não deu para não pensar no que o velho me disse quando eu sai procurando o que poderia me ajudar a interrogar aquele pulha. Achei um martelo, um isqueiro, algumas agulhas, meio frasco de álcool, uma lâmina dessas de colocar em navalha e alguns elásticos de amarrar dinheiro. No começo eu fiquei nervoso. Mas quando eu virava para o monitor e via a Maria daquele jeito o sangue dava mais uma fervidinha: e o cara gritava um pouco mais pela mordaça de silver tape. Uma coisa que não vou esquecer nunca são seus olhos quando eu terminei a primeira parte do serviço. Acabou que eu era bom naquilo que fazia. Quando ele desmaiou pela quarta vez achei que era o bastante fui lá fora vomitar. Parabéns cara, mais uma coisa para alimentar seu arsenal de pesadelos noturnos.
Eu descobri que não estava lidando com militares. Estava lidando com gente comum. O carinha ali na cadeira era apenas um caixa de banco que acabou sobrevivendo o bastante para me encontrar num dia de putice absoluta. O grupo dele saqueava pessoas porque era mais fácil do que sair por aí tentando achar comida. Eles saqueavam as pessoas e se divertiam com elas até que não precisavam mais. Tinha mais ou menos 14 pessoas no grupo dele. A grande maioria numa “excursão” de reconhecimento em Planaltina. Eles deveriam voltar amanha. Eu tinha pouco tempo para agir. Com os prisioneiros, no poço, existiam apenas três caras e uma mulher. Mediamente armados.
Toquei para lá, sem me importar muito com o que ia acontecer. Estava meio que anestesiado pelo que eu fiz com o caixa de banco. A moto não fazia muito barulho, eu sabia disso, mas era como se os motores retumbassem no meu peito, me fazendo arfar de antecipação.
Parei perto de um cadáver. Ele não tinha virado zumbi. Era pouco mais que um garoto. Foi espancado até não poder mais. As duas pernas quebradas. Irreconhecível. Eu me recordei das aulas de história. Quando os índios iam para uma batalha que eles poderiam não voltar eles usavam uma pintura de guerra. A pintura servia para espantar os inimigos, para colocar medo em suas almas e para guiar a alma dos bravos guerreiros para o descanso final. O sangue meio coagulado do garoto serviu como a pintura de guerra. Eu acho que os nossos antepassados indígenas tinham uma boa quantidade de bons costumes que até então eu tinha deixado esquecido.
Desci as escadas para encontrar os quatro numa mesa redonda, dessas de bar, jogando cartas. Eles me olharam assustados. Um deles fez menção de pegar a pistola num coldre montado atrás de sua cadeira. A Makarov tinha apenas 4 balas no pente e uma na agulha. Tinha de fazer algo realmente espetacular para fazer valer à pena e assustar essa galera para valer. Saquei a arma que voou das minhas mãos descendo escada abaixo, cada pancada como um trovão no piso de mármore sujo. A merda fedeu forte. Eu já tinha “cagado o pau” no pior momento possível, então resolvi que não tinha mais nada a perder. Saquei a espada e pulei para cima deles.
Engraçado que se fosse um desenho animado eu diria um grito de guerra maneiro e faria uma pose especial. Mas recordando agora eu não disse nada. Eu não gritei. Eu simplesmente cerrei os dentes rezando para que nenhuma bala me acertasse. De certo que eles não estavam me esperando e não tinham a menor idéia do que estavam enfrentando. Pensando bem, se eles pudessem ler o nível de putice e frustração que eu estava sentindo eles teriam dado o fora rapidinho. Como eu estava não conseguiria correr atrás deles. Mas nada disso. Os caras sacaram as armas e mandaram bala. A espada balançou no ar cortando a mão de um deles e abrindo uma segunda boca no pescoço de outro. Estava no meio deles, as balas ecoando pelo salão, o cheiro de pólvora queimada, o som de apito dentro dos ouvidos. Não sei se demorou. Acredito que não. No fim de tudo eu estava de pé, dois ferimentos de raspão. A mulher estava com a mão decepada e tentava estancar o sangue. Os outros três caras estavam mortos. Mas não por minhas mãos. “Fogo amigo” foi o que matou os dois: um careca com jaqueta do exercito e um outro cara com jeitão de porteiro de boate.
A mulher xingava e não conseguia estancar o sangue. Eu peguei a Makarov e coloquei no bolso. Na mesa, a chave das celas. Só então eu percebi o Maciel e o outro cara que estava preso com ele torcendo e comemorando como se o time deles tivesse ganho a final do campeonato brasileiro aos 47 do segundo tempo, de virada e com gol de mão impedido. Livrei os dois e nem ouvi o que Maciel disse. Eu acho que comentei que não estava ouvindo bem e mandei ele pegar todo o equipamento que desse. Peguei um lençol do chão e entrei na sala onde a Maria estava. Ela estava nua e acorrentada num canto, do jeito que eu tinha visto na tela. O cheiro de urina, vômito e fezes era forte. Ela não deveria ter se asseado à vários dias e parecia bem fraca. Primeiro eu a enrolei na toalha e depois a desamarrei. Ele deve ter dito alguma coisa, mas meu ouvido ainda chiava do som dos tiros. Saímos da sala.
A moça maneta já estava com a mão enfaixada e amarrada numa cadeira, dentro da cela onde Maciel e o outro cara estavam presos. Engraçado que no vídeo eu tinha visto dois caras presos com ele e não apenas um. Não queria que vissem a Maria assim, mas assim que ela pôs os pés para fora da sala parecia que tinha tomado uma dose cavalar de espinafre: desvencilhou-se dos meus braços passou na mesa onde os caras estavam jogando cartas e pegou uma pistola jogada ali por cima. Checou o cão, o tambor e as balas e foi direto para a cela da menina amarrada na cadeira. O meu ouvido ainda chiava quando eu a ouvi dizer algo como “quem está no controle agora?”. Claro que controle não ficou muito claro. Estou fantasiando, mas dane-se, eu poderia jurar que ela disse “quem esta sendo fodida agora”? De qualquer forma não demorou para ouvir um tiro e ela sair de lá vestindo as roupas da menina. Nem eu, nem Maciel nem o novo colega dele foram lá olhar o que estava rolando.
Apresentações feitas, o colega do Maciel era um tipinho nerd chamado Paulo. Gorducho, com uma camiseta de anime que parecia estar vestindo desde sempre, não deveria ter mais que 16 anos. Juntamos todo o equipamento que pudemos e tocamos para o posto. Eu sabia que alguma coisa estava realmente errada. Quando você sabe que alguma coisa vai dar muito errado, mas não tem nenhuma outra opção se não seguir em frente.
Zombieland é um filme de comédia “gore” que usa e abusa de situações cômicas dentro de um gênero que normalmente só consegue trazer aventuras ou drama: os zumbis dominando a terra.

