Como a Dragão Brasil MATOU (ou quase) o GURPS no Brasil

Vamos voltar um pouco no tempo, na época que a Dragão Brasil era uma boa revista. Uns chamavam de fanzine de luxo e outros de revista, mas não faz mal. Naqueles bons tempos a revista era receada de matérias interessantes e nela reinavam absolutos alguns sistemas: D&D, AD&D, GURPS e STORYTELLER.

A relação com o GURPS era mesmo uma relação bacana. Não se faziam alusões às complicações de suas regras. Boa parte do material que saia para GURPS era legal: especialmente como robôs positrônicos, supers, ciborgues, monstros e mitos de chutulu, bioarmaduras, pterodracos… Havia até mesmo uma possibilidade de um GURPS nacional: A Espada da Galáxia, baseado num romance homônimo escrito pelo editor da revista na época.

Propagandas mil, anúncios, notas de produção, enfim, criou-se um verdadeiro frenesi pela espera do GURPS EdG. Sucessivos atrasos, alfinetadas e finalmente a notícia: o trabalho do editor não era bom o bastante para virar um GURPS de verdade. O GURPS EdG foi engavetado e anos mais tarde solto na rede na forma de um blocão de rascunho.  No mês seguinte já dava para ver a mudança do foco da revista: “reinos subaquáticos? Vocês não tem mais o que inventar”, “Gurps warriors? Picaretagem”, “O Gurps é muito complicado para rolar um jogo de matrix”…

Então surgiu Defensores de Tóquio. ERA engraçado. Um sisteminha pra jogar numa tarde sem ter o quê fazer. Desprentecioso, apenas uma piada com o gênero. Deve ter vendido como água e ai a ganância começou.

Veio o Defesores de Tóquio 2 – A Esculhambação (subtitulo original). Dei uma olhada e não comprei. Pra quê comprar? Não trazia nada de novo e o legal do primeiro foi a idéia, apenas a idéia.

Ai realmente veio a esculhambação com eles querendo fazer desse folhetim um GURPS! Foi o cúmulo, mas era barato num mercado onde a realidade é o jogador mal ter dinheiro pra um lanche. Além disso, o monopólio da DB junto com uma nova leva de jogadores inexperientes fizeram o marketing. Foi nesta mesma época que começaram a rarear as matérias para GURS e que ele começou a ficar, de repente, muito complicado e cheio de regras.

Bem a história é essa. Como um produto mal acabado e um editor invejoso, munido de uma poderosa mídia deram cabo, ou quase, de um dos maiores e mais duradouros sistemas de RPG do mundo.

Muita gente subestima o poder de uma mídia especializada. Uma especializada acaba sendo a bíblia sagrada em locais de difícil acesso – coisa que mesmo hoje em dia com internet saindo pelo ladrão ainda existem. Pessoas tendem a colocar como argumentos seguros para o uso ou não de um material o argumento “saiu na revista”.

Jogador – Essa classe é muito boa. Vampiros biônicos.

Mestre – Nem pensar cara.

J – Mas saiu na revista.

M – Se saiu então tá bom…

Quantas vezes eu já vi isso acontecer? Ou coisas ainda piores:

Jogador 1 – Puxa, odeio essa droga de GURPS.

Jogador 2 – Eu também. Regras para cavar buracos. Quem precisa dessa complicação?

J1 – É… horas para fazer a ficha de personagem…

J2 – Sim… uma droga..

J1 – Você já jogou?

J2 – Eu não… e você?

J1 – Também não. Mas saiu na revista dizendo que não prestava…

J2 – É… se saiu na revista, não deve prestar mesmo.

Mídia é tudo. Não é à toa que a Coca Cola gasta horrores com propaganda…

PS: Material publicado anteriormente em

http://valberto.multiply.com/journal/item/131/131

Anúncios

13 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Van "Joker" Guedes
    nov 04, 2008 @ 13:32:02

    Essa foi a matéria que me fez chegar ao teu Multiply. Sem dúvida nenhuma ela é muito boa e mostra muito bem como a mídia (mesmo no RPg, que tem tanta gente que faz isso por “amor” – tá, sei). No Brasil desenvolveu-se muito essa idéia, de termos que comprar tal livro pra “ajudar na crise”, ou abraçar tal autor pra q ele se sinta bem. O material é um lixo, mas a mídia ajuda a levantá-lo e transformá-lo no que pensam ser. Isso tem em todo lugar, RPG, filmes, novelas e sempre vai ter, não adianta levantar bandeira de “Trabalho no RPG por amor”.
    Escrever num blog ou coisa do tipo é uma coisa, escrever em troca de dinheiro e dizer que faz por amor é hipocrisia demais, até porque, quem trabalha merece ganhar dinheiro em troca de seu esforço, seja ele criar uma história, desenhar um monstro ou simplesmente adaptar regras.

  2. Daniel R
    nov 04, 2008 @ 14:17:09

    O nome disso é folk-comunicação, não tem muito a ver com propaganda per se. No caso, a DB funcionaria como folk-comunicadora, assim como atores globais participando de propagandas políticas, um meio de manobrar as massas de forma mais sutil e eficaz. Pessoas influenciáveis acabam “comprando a idéia” ao lê-la em colunas de críticos ou revistas especializadas.

  3. Jagunço
    nov 05, 2008 @ 13:49:44

    Admito que não odeio o Cassaro tanto como a maioria da internet “rpgística”. Não que ele seja um cara boa praça e humilde, mas talvez pela importância que o trabalho dele teve na minha visão de RPG nos começos. Agora, não dá pra negar a campanha anti-GURPS da Dragão. Nem o impacto desses espaços na formação dos públicos. Porque todos somos “influenciáveis” em alguma medida. Os lugares de produção dessas falas que “definem” jogos, criando classificações e estilos de classificação, afeta diretamente a todos – todos querem estar “por dentro”, “conhecer os pros e contras”, “ter a opinião formada”, etc. Da mesma forma que não dá pra negar o atual “poder” do círculo de blogs hoje e a nova cultura do “eu digo o que penso e você diz o que pensa” que ele têm movimentado no meio rpgístico. Uma cultura mais aberta, até onde sei, por mais que existam os pedantes dos fóruns e das listas (asunto bem tratado em outro post). GURPS foi mercadologicamente minado (e não adianta dizer que “se fosse bom, todos jogariam”. Como foi dito aqui, a entrada dos novatos no sistema foi barrado por um tremendo preconceito divulgado). Acredito que a internet tem tido uma influência legal na criação de novos espaços de fala/classificação, por ser mais difusa do que uma revista sem concorrentes. Não me lembro de campanhas anti-jogo tão fortes por aqui.
    Abraços.

  4. Van "Joker" Guedes
    nov 05, 2008 @ 15:42:43

    Ok, posso ter me enganado quanto ao nome, mas creio que não quanto a idéia. O sentido disso pra mim é propagando sim, claro que uma propaganda contrária. é como as produtoras de jogos que pagam para tal revista falar bem de seu jogo, ou um artista que paga para ter sua música executada 750 vezes num espaço de uma hora. Da mesma forma que existe a “propaganda” existe a despropaganda.

  5. rsemente
    nov 07, 2008 @ 12:32:42

    O Cassaro é um cara que está no RPG para ganhar dinheiro.

    Isso é ruim? Depende. Isso é Bom? Nem sempre.

    O fato que GURPS é um sistema ótimo, ninguém reclama nas regras de Cavar de D&D! mas que elas existem (Nem que seja na forma de um poder).
    A Devir está com GURPS 4E traduzido (segundo as lendas), e pronto para ser produzido, mas parece que o mercado não está preparado para absorve-lo, bem provavelmente pela demora do lançamento e outros produtos tenham tomado o mercado, e como uma editora não vai concorrer contra ela mesma então…
    Espada da galáxia daria um Mini-Gurps, no Maximo. Só duas raças alienígenas, uma com fator sex-appel :P, e campanhas bizarras. Se os metalinaos (A raça do jogo que carrega a Espada Da Galáxia) só andam sozinhos ou no Maximo em dupla, como colocar um grupo de 4 ou mais jogadores nesse mundo?

  6. Jamesfoxbr
    fev 27, 2009 @ 22:29:43

    Existe sim regras de cavar buracos no D&D, no livro do mestre na parte sobre desabamentos, e ela ocupa muito mais espaço do que a que tem no gurps. O sistema gurps (principalmente a quarta edição) é o melhor sistema que eu já vi, e já joguei muitos mesmo. Ver essa materia pelo menos me fez ver que existem outras pessoas que enchergam o que eu já dizia aqui na minha cidade sobre a culpa ser da dragão brasil falando calunias do sistema.

  7. Brega Presley
    fev 11, 2013 @ 23:56:47

    Desculpem, mas vou discordar.

    O Cassaro ajudou a fazer um jogo que muita gente que nunca tinha ouvido falar de RPG passou a conhecer por causa disso. Por mim, igualmente, o jogo ficava na primeira edição, mas se tem gente que quis outras, bom, isso é com elas.

    Gurps deixou de ter força não apenas no Brasil, mas “lá fora” no período.

    Além de outras propostas, como a de ênfase na narrativa (Vampiro), terem surgido no periodo, o D20 voltou a se popularizar, o preço do dolar em alguns períodos não ajudou muitas vezes a compra ou tradução de material, e houveram “fugas em massa” de jogadores para cardgames.

    Acho que justamente o contrário ocorreu: Muitos passaram a curtir RPG por ter um sistema barato e vendido em bancas por causa disso.

    E, certamente, alguns destes, devem ter começado a jogar gurps depois disso. Até porque muitas comunidades e blogs, que tem uma força muito maior que a DB hoje em dia, tem tanto opiniões favoráveis quanto desfavoráveis ao sistema.

    Ainda se joga e se conhece gurps, mas culpar o Cassaro ou quem quer que seja (incluindo outros editores da DB) é sacanagem.

  8. valberto
    fev 12, 2013 @ 00:09:11

    Querido… você viu a data da postagem desse artigo? Não adianta ver com os olhos de hoje em dia né? faz favor. E tem mais, você não acha que os editores da época fizeram aquela promoção toda apenas para divulgarem o RPG, né? Eles ganharam com aquilo e venderam revistas. Aliás, nem é de hoje que o cassaro e seus cupinchas se servem dos meios de comunicação de massa para denegrir alguma coisa que não seja a deles. A campanha que fizeram contra tagmar foi realmente vergonhosa.

  9. Brega Presley
    fev 12, 2013 @ 00:46:59

    Não importa a data, isso não era verdade nem em 2008. Gurps não vendeu bem mais porque o mercado de RPG estava uma droga aqui e lá fora. A DB não tinha essa força, até porque é uma revista que foi perdendo publico ao longo dos anos, incluido para o cardgame que a mesma ajudou a promover em alguns periodos.

    E, passado todo este tempo, com todas as ondas de revival de old Schools, aqui e lá fora, gurps não voltou a ter a força que já teve. É forçar um pouco culpar o cara por causa disso, na boa.

    O uso que “ele e os cupinchas” fazem ou deixam de fazer não altera o fato de que D&D se reinventou, bem e mal, ao longo do tempo, que Vampiro se modificou, que os indies surgiram como opção interessante, que muito jogador passou a jogar pokemon, etc.

    Gurps tinha força no país, mas mesmo então MUITO jogador veterano metia o pau. Incluindo jogadores de D&D. Tagmar, excelente jogo de outro Marcelo, muito antes da DB falar qualquer coisa, eu VIA jogadores em lugares como a DEVIR, a Forbiden Planet, e uma loja na pompéia, metendo o malho, mesmo sem conhecer, ou tendo jogado apenas uma vez.

    Sim, a revista poderia ter feito diferente,e é uma pena que não tenham feito melhor. Mas culpar o cara pelo fracasso de um sistema, que nem lá fora tem mais a mesma força hoje em dia, na boa, não tem sentido. Mesmo que ele fosse o proprio Vader em maldade (nem acho isso, mas cada um acha o que quiser), ninguém isoladamente tem poder ou posição para tanto.

    Perde-se com este tipo de ataque a oportunidade de se tentar pensar como o mercado era, os erros que cometeu (aqui e fora do pais), como se re-estruturou e como evitar as mesmas armadilhas.

  10. valberto
    fev 12, 2013 @ 14:12:48

    Cara, que bom que você pensa assim. Fico muito feliz mesmo. De verdade. Mas não muda em nada, na verdade em nenhuma vírgula, do que eu disse. É uma das belezas da percepção humana. Cada um vê o mundo como pode ou como quer. Fico imaginando cá comigo que se o Gurps Espada da Galaxia tivesse realmente saído como um livro de GURPS se as coisas não teriam sido diferentes. mas até aí é só especulação. Fato é que depois do GEdG ter sido definitivamente engavetado o sistema ficou “complicado demais” para a revista.

  11. HDF
    abr 23, 2013 @ 02:36:12

    O Cassaro tem o mérito dele de ser uma das pessoas que ajudou o boom de RPG no Brasil no final dos anos 90, mas NÃO É ESSA A DISCUSSÃO AQUI!

    Não dá pra culpar APENAS a DB pela quase extinção do GURPS no Brasil, afinal, no final da década de 90, aqui, a falta de suplementos novos e o tratamento horrível que a Devir dava pra eles, junto com RPGistas posers que adoravam se vestir de preto, porque “eram vampiros” ou compravam vinho e “uivavam para gaia” porque “eram lobisomens” faziam uma propaganda sobre como Vampiro e Lobisomen eram superiores e como GURPS era para filhos de calculadora e Ad&d era “Só Porrada”! Lá fora os jogos mais jogados eram de ficção cientifica e storyteller, que tinha uma vantagem, já que era um cenário e ele estava evoluindo, mudando constantemente, GURPS não tinha isso, depois veio a ONDA D20 que converteu quase todo o jogador e RPG num rolador de D20…

    Mas mesmo com isso, NÃO DÁ PRA NÃO ATRIBUIR A DB A PARCELA DE CULPA DELA…

    Por alguns anos, o mesmo discurso que se via na DB de que o sistema era complicado e a citação de Gurps se resumia a seção “notícias do bardo” se ouvia nas bocas dos jogadores inciantes, fãs de 3D&T e dos peitões da Niele (a jogada MAIS inteligente que eu já vi… Holy Avenger!) sendo que praticamente NENHUM deles, tinha jogado o sistema… E a Revista continuava falando de Ad&d (com tabelas sem fim, e regras pra tudo também), de Storyteller (aonde se lê um tratado de literatura antes de montar um personagem) e nenhum problema desses sistemas, era tão ruim, quanto os problemas de GURPS…. Aliás, quando a Dragão começou (ainda se chamando Dragon Magazine) ela publicava o rank dos sistemas mais jogados no pais e GURPS estava em primeiro

    Com certeza se Gurps Espada da Galaxia tivesse saído ou Gurps Lua dos Dragões… o tratamento com a Stevie Jackson Games na revista seria outra…

    Mas imprensa especializada, pode virar imprensa marrom em questão de segundos… Pra quem curte anime e lia a Animax (revista de animes e mangas publicada na mesma época da DB, depois mudou de editora, passou pra trama, com o nome de AnimeEX), durante os anos 90, como o Peixoto e companhia editorial, faziam questão te espancar o Massami Kurumada em toda e qualquer matéria e ocasião possivel, tudo porque, segundo eles, Kurumada não foi legal e não respondeu há algumas perguntas enviadas pela redação da Animax, engraçado é que até esse episódio TODO número da Animax tinha alguma citação a Cavaleiros do Zodíaco e do MEGASUCESSO DE MASSAMI KURUMADA… XD

    Mas voltando… a DB tem sim uma GRANDE parcela de culpa pelo GURPS… mas isso há 10 anos atrás…. hoje em dia, tá faltando a Devir se mexer um puco também!

  12. valberto
    abr 23, 2013 @ 17:35:04

    Eu li um post no face hoje que dizia mais ou menos assim: olhando as minhas postagens de dois anos atras, percebo como eu era burro. Eu tomo a liberdade de pegar este post e dizer que pegando algumas matérias aqui, percebo como dava importância às coisas erradas. Hoje em dia – veja bem, hoje em dia – me importa tanto revista de RPG como me importam grãos de areia no sapato de Kin Jon Wu…

  13. HDF
    maio 20, 2013 @ 03:33:38

    Revista(s) de RPG hoje em dia mantém uma parcela ínfima de público fiel e NÃO SÃO formadoras de opinião… Hoje em dia, infelizmente, quem forma opinião é a INTERNET… E aliás, a molecada hoje em dia, praticamente, nem jogou RPG de mesa, pra eles, RPG é WoW, FF e “Ragna”… Espero que isso mude com a volta do EIRPG… E, hoje em dia, nem RPG nem Revistas especializadas tem relevância… Imprensa Marrom, por outro lado, TEM…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: