Moral, ética e correlatos em fantasia medieval

Atendendo o primeiro pedido.

Valberto, rola falar sobre ética/moral/assemelhados em cenários de fantasia? Em cenários onde não há só humanos, como fica o humanismo? Abrange-se para um “sapiencialismo” ou não, com conseqüências que podem levar a conflitos? E se não há nada que faça às vezes do judeo-cristianismo, como ficam aqueles conceitos de certo e errado que é, possivelmente, herança disso — tabus em relação a pudor, sexo, etc.? A necromancia pode não ser tabu, se não há nenhum ditame de sacralização do corpo ou o traço é suficientemente universal nos humanos? E os não-humanos, têm preceitos morais bem humanos ou podem vir a divergir de forma coerente?

Shido, quando pensamos a dimensão filosófica do homem, uma das coisas que nos vêem à mente é a disposição que o homem tem com o universo que ele mesmo criou. Se você parar para pensar bem, vai descobrir que tudo o que existe no campo das ciências e fora dela advém do homem e de sua visão de mundo. Tudo que temos são criações humanas.

A própria humanidade é uma criação da capacidade intelectiva humana. Afinal, fomos nós quem criamos as formas de leitura do mundo, fomos nós que nomeamos ‘rosas’ de rosas e ‘lixo’ de lixo. Fomos nós que criamos a filosofia, que, por conseguinte, criou as outras ciências. E foram as outras ciências que criaram o mundo que conhecemos tão bem. O mundo, enquanto a representação que temos dele, é uma criação puramente humana.

Ética e moral são palavras que usamos cotidianamente, pois são criações humanas. Muitas vezes as usamos sem conhecer seus significados. Quando pergunto a meus alunos uma definição de ética ou moral eu sempre recebo como respostas um tímido “não sei” ou um exemplo prático que muitas vezes não chega à parte alguma.

Moral é tudo aquilo que se refere à norma da vida em sociedade, aos costumes e formas de resolver problemas do cotidiano. Dentro das atribuições da moral cabe o código de vestimenta, a língua falada, escrita e culta, e o desempenho adequado do papel social a que nos prestamos. A moral é, portanto, Temporal, Local, e Normativa-cultural.

Temporal significa que a moral tem prazo de validade. O que era moralmente aceito cem, duzentos anos atrás não é necessariamente moralmente aceito hoje. O que era lei cinqüenta anos atrás não é mais lei hoje em dia. Caducou.

Local significa que a moral respeita fronteiras geográficas. O que é moralmente aceito num país é motivo de desonra e morte em outro. A moral varia de região para região.

Normativa-cultural porque a Moral designa a maneira das pessoas resolverem suas coisas: suas leis, sua cultura, sua língua, seus hábitos alimentares, enfim, tudo o que rege a convivência.

E a ética? É tudo aquilo que se refere à minha relação com o outro. Tem a ver com a minha preocupação com o outro. É todo o cuidado que eu tenho com o outro, num estado de alteridade de não-eu, que não está expresso em nenhuma lei ou norma. A ética é, portanto, Atemporal, Universal, e Modifica a normativa-cultural.

Atemporal significa que a ética não tem prazo de validade. O que era eticamente aceito cem, duzentos anos atrás continuará necessariamente eticamente aceito hoje. A minha preocupação legítima com o próximo na minha forma de lidar com ele continua a mesma, para a toda a eternidade. Não caduca.

Universal significa que a ética não respeita fronteiras geográficas. O que é ética num país é ética em outro. A ética não varia de região para região. A preocupação com a vida e o seu valor é o mesmo aqui, na Argentina, na Conchinchina e em qualquer lugar que tenha a vida humana por perto.

Modifica a normativa-cultural: Talvez o maior poder da ética seja a sua capacidade de modificar a normativa cultural da moral. Ela modifica a moral, transformando-a através dos tempos. Ela é quem caduca as leis e normas, atualizando-as para um mundo mais humano.

Assim basta você se lembrar: se tiver a ver com a maneia como eu lido com os outros, sem, no entanto, estabelecer-se em leis escritas ou normas é ética.

Isso funciona em nossas vidas, logo, funciona também em fantasia medieval.

Nos jogos de RPG, via de regra, temos apenas a visão humana das cosias como uma visão universal. A coragem dos anões, a beleza dos elfos, a maldade dos orcs é vista pela ótica humana. Não quer dizer, necessariamente, que a a visão humana é melhor ou pior. Na maioria dos casos é a única que temos. E não temos opções a isso? Sim, temos.

A ética e a mora como conhecemos hoje advém particularmente de dois lugares: da Grécia, especialmente a ética Aristotélica e da filosofia medieval com São Tomás de Aquino e Santo Agostinho que deram um verniz cristão às teorias greco-romanas. Esse verniz acabou se estabelecendo como norma numa Europa dominada pelo catolicismo, devastando outras formas de se pensar ética e moral ao longo dos anos. A ética e a moral judaico-cristã têm origens nos mesmos lugares onde a fantasia medieval nasceu. Era de se esperar que fossem contaminadas. É por isso que na grande maioria dos cenários de fantasia medieval a ética e a moral que existem advém de uma visão romantizada da mesma ética e moral que havia nos tempos dos cavaleiros carolíngios.

E existe outra maneira de antever ética e moral? Tecnicamente não. Elfos, assim como anões, pixies, trolls e deus são criações humanas. Seguem portanto uma moral humana. Fim.Fim? nem a pau, Juvenal. Uma das características mais legais de nós, seres humanos, é justamente nos re-inventarmos. Pois vamos pegar um ser humano filósofo para nos ajudar a re-inventar uma nova ética e moral para os mundos medievais. Uma que faça sentido, faz favor. Com a palavra – por minha boca e pena, claro, sir Nietzsche.

Este bom senhor faz uma pesada crítica a uma ética fundada no conhecimento e na unidade (conhecimento que já discutimos antes). Uma ética como a que nós conhecemos bem e muitas vezes seguimos confundindo com moral.

A ética defendida pelo autor parece estar longe de ser uma ética voltada para a “vida” que vivemos. Falo “vida” porque segundo o autor, o que vivemos hoje em dia é uma falsa vida. Partindo do principio que a moral (e, portanto a ética) são formações meramente humanas sem qualquer traço de metafisicidade. O objeto de investigação da Metafísica não é qualquer ser, mas do ser enquanto ser. Examina o que pode ser afirmado sobre qualquer coisa que existe por causa de sua existência e não por causa de alguma qualidade especial que se tenha. Também aborda os diferentes tipos de causas, forma e matéria, a existência dos objetos matemáticos e Deus.

Ou seja, quando o ser humano criou a figura de deus, ele criou a imagem judaico-cristã da religião católica e suas predisposições éticas e morais que por sua vez regem/regeram toda a idade Média e portanto a Fantasia Medieval. Ou seja, se existem a figura de um deus absolutamente bom e o homem é criado à imagem e semelhança de Deus, cabe ao homem ser bom. Daí nasce o código de ética da cavalaria (dos paladinos): seguir as leis (as escrituras), ser bom (imitar deus), proteger os mais fracos (a força usada para proteger e não para governar), ser humilde (Jesus, o rei dos reis, era humilde).

O metafiscismo que Nietzsche combate por sua afirmação de que “Deus está morto” é a figura de um Deus misericordioso (visto principalmente no novo testamento) e da figura de deus como o fundamento metafísico dos valores. A inversão de valores começa quando os conceitos de bom e ruim foram trocados. Num passado mais autêntico o “bom” era àquele que tinha força para fazer valer seus argumentos. Tinha a si mesmo como referência, criando os seus próprios valores. Já o “ruim” era aqueles que não se afirmavam. Indignos, covardes, que seguiam os valores alheios como referência. Hoje em dia temos que “bom” é aquela pessoa que não causa risco, que não questiona, que segue os conceitos. O fraco, o manso, o covarde, o cordato, o conciliador, portanto o ruim passa a ser aquele que questiona, que se afirma pelo uso da força. Tão negativo que deixa de ser ruim para ser mau, numa clara reafirmação da moral judaico-cristã.

Assim, por ser um filósofo que prega a firmação da vida verdadeira, Nietzsche não tenta romancear a realidade em que vivemos. A vida é nossa, ela é única e não se repete. O pêndulo do relógio não vai e vem como nos foi ensinado; ele vai e vai e não volta. Pela vida ser nossa, ela permite que nós, homens, criemos a nossa própria existência.

A ética para outras criaturas seria então, dessa forma, criada a partir de uma reflexão pessoal destas criaturas, de regras para a sua vida. Criar regras para A SUAS vidas. Valores não-universais, singulares, únicos, criados, usando a si mesmos e não os outros como referência. Criar culturas genuínas é assumir este aspecto de criação. Anões não são corajosos. Eles são fortes. A ética anã nasce da sua capacidade de defender pela força o seu ponto de vista. E se são fortes, esperam que os outros também o sejam. E como não o são, para os outros, os anões aparecem como corajosos. O mesmo se dá com a beleza dos elfos. Eles têm uma beleza sedutora para nós humanos, mas a lascividade que eles possuem (o que? Duvida que os elfos sejam lascivos? Vem cá… quantas raças variantes de elfos existem?) são apenas reflexos de como eles mesmos vêm o mundo. Uma elfa maga semi-nua que deite com quem desejar achará que imoral é a mulher que “perde tempo” guardando uma tal de “virgindade” para se deitar com um homem que ela não deseja. Um centauro pode achar imoral a maneira como seus “primos” cavalos são tratados, enquanto que os meios gigantes podem acreditar piamente que é absolutamente anti-ético ser carregado nas costas por um animal irracional.

Assim sendo é possível pensar uma ética e uma moral dos seres de fantasia, mas ela é plenamente impraticável para a vida em sociedade em que os humanos vivem na fantasia medieval. O que para algumas raças pode ser apenas fruto da sua visão de mundo para os humanos pode ser uma ofensa. Ora, podemos até mesmo questionar onde esta a santidade da vida. A vida vale de qualquer forma, ou só vale quando se tem uma vida útil? O que é utilidade? Um corpo ainda é sagrado, mesmo depois de morto? Se não, é imoral a necromancia? Ou imoral é ressuscitar alguém que morreu bravamente em combate e agora descansa no sono dos justos (sendo que neste caso justiça = força).

Mas e amoral? Amoral refere-se a coisas que não cabem em nenhuma das categorias acima. Por exemplo. Uma chuva vem e destelha a sua casa. É o que? Amoral. Um cachorro faz “caquinha” na sua porta. É o que? Amoral. Mesmo a amoralidade depende do ponto de vista. Cafua

Voltando as raças que tanto conhecemos. Vamos observá-las: se você mudar a visão antropológica não vai saber como ela vai se comportar. Problema de semântica? Problema de solução. Solução que nós criamos. Que as raças criadas por nós, criam. Campos de definição filosófica como ética, moral, social, metafísica, e estética são criações que servem para explicar, compreender, criticar e transformar o mundo, a humanidade (ou não-humanidade) e tudo o mais o que foi criado.

14 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Mestre Mamangava
    dez 18, 2008 @ 12:02:53

    Muito bom o texto, Valberto. Muito bom mesmo. Mas se me permite fazer um pedido, eu pediria que houvesse um segundo post explorando mais a “aplicação” do que foi dito acima. Um que explicasse, por exemplo, que se não há a Igreja Católica numa fantasia medieval, precisa haver outra coisa que faça – pelo menos em parte – as vezes dela para que a coisa possa ficar “medieval”, e dê ao mestre o trabalho de explicar por que raios se enterram os mortos de maneira tão “cristã”, ou por que tem cruz num cemitério, ou porque os sacerdotes não podem casar, ou qual a explicação mítico-histórica para que o templo de X fique ao lado do templo de Y sem confusões… …que tal?

    Abraço!

  2. valberto
    dez 18, 2008 @ 12:29:12

    Ok. Vou tentar. Mas já tem mais pessoas na sua frente, ok?

  3. Remo
    dez 18, 2008 @ 14:32:34

    Valberto, texto ótimo e muito esclarecedor. Você tem razão quanto ao valor da “blogosfera RPGística” — esse é um tipo de matéria sobre a qual sempre tive curiosidade de ler, e que jamais veria em qualquer revista ou portal por aí.

    Muito obrigado.

  4. valberto
    dez 18, 2008 @ 23:28:31

    Obrigado pelo tema.

  5. rsemente
    dez 19, 2008 @ 12:05:20

    Muito bom o texto. Pelo que eu entendi, Mestre Mamangava, alterar a etica das raças constitui todo um porcesso de alteraçõa quew criaria raças muito alienigenas, e possivelmente não se encaixariam em nenhum cenário atual. Seria um cenário de guerras raciais, por uma sempre terá algo ocntra a outra, a ponto de causar desentendimento tal que seria ou guerra ou isolação. É isso valberto?

  6. valberto
    dez 19, 2008 @ 18:12:20

    Na verdade não. O objetivo do texto era mostrar que é possível e plausível que outras raças tenham outras bagagens culturais e ética, outras visçoes de mundo que vão além da humana. Elas vãos e chocar com a nossa? sim;. Vai ter guerra? necessariamnete não. Observe o mundo antigo por exemplo. Todos os povos comercializavam entre si com razoável independência: os fenícios negociavam com os ]gregos, que negociavam com os hebreus, que trabalhavam para os egípcios, que apanhavam dos sírios…
    Não precisa ser guerra, mas algumas coisas podem ser constrangedoras. Imagine que para os Halflings a moral vigente é não ter propriedade particular. Basta pegar o que quiser de qualquer um. Como se chama isso na sociedade humana?

  7. Trackback: O melhor dos blogs de RPG em 2008 | Vorpal
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  9. Keldorl
    jan 15, 2009 @ 19:17:38

    Poxa.. obrigado pelo texto!

    Pensar como, e se colocar no lugar de criaturas fantásticas para interpretá-las nem sempre é fácil(apesar de divertido) e esse texto abre porta para uma análise mais profunda en relação a compreender como se fazer isso de maneira mais realista de acordo com a moral e ética imaginada de cada raça em fantasia.
    E também ajudam a podar exatamente aquelas rebarbas que devem ser podadas para que uma determinada peça(conceito, cultura, religião e etc…) se encaixe, sem parecer um recorte tosco, no pastiche(nova palavra que acaba de ser adicionada ao meu vocabulário, obrigado Shido) do cenário no qual você joga ou cria.

    Só tenho um ponto em que descordo de você no texto, quanto a:
    “Se você parar para pensar bem, vai descobrir que tudo o que existe no campo das ciências e fora dela advém do homem e de sua visão de mundo. Tudo que temos são criações humanas.”
    Na ciência não são “criações”, mas descobertas, a naturesa se comporta daquela maneira e cada descoberta nos aproxima da realidade e assim damos um passo em termos de compreensão dessa naturaza.
    Não sei se fui claro, mas vou ilustrar com um exemplo fantástico: Uma sociedade extraterrestre evoluída teria exatamente passado pela descoberta das mesmas leis físicas básicas que passamos e a matemática seria um ponto comun entre a sociedade deles e a nossa, talvez com uma maneira diferente de expressar mas de fato as mesmas expressões…

    Agora um pedido: Um texto abordando as diferenças mais básicas na visão de mundo das raças de fantasia medieval tradicionais, porque essa dos anões deu água na boca, ficou um gostinho de queroi mais.

  10. valberto
    jan 15, 2009 @ 20:02:17

    Olá Kel, que bom que gostou. Não deixe de ler as continuações. Eu sou profesor de filosofia e uma das coisas que eu mais estudoé justamente a filosofia da ciência. Vou dar um exemplo de como a ciência é uma criação human e que descobertas são mesmo invenções.
    Vamos supor que vc pertence a uma raça que só enxerga em preto e branco e alguns tons de cinza. Um estudo de dióptrica sobre refração da luz, passando por diferentes tonalidades de cor não seria nada para vc. Da mesma forma, se vc pudesse enxergar espectros de luz para além da capacidade humana a sua forma de perceber o mesmo cavalo seria outra – completamente alienígena. Mesmo no seu exemplo, eu teria de supor que existe algum tipo de paralelo entre a raça alienígena supostamente superior e a humana, supostamente inferior. Se eles percebessem as coisas á nível quântico, a aceleração retílinea uniforme não seria descoberta :)

  11. Keldorl
    jan 17, 2009 @ 00:25:48

    discordo novamente Valberto, não precisamos nem de imaginar a raça alienígena, o que vc falou sobre a luz já aconteceu aqui e descobrimos que não vemos a maioria do espectro de radiação eletromagnética.. e depois das “descobertas” nessa área fomos capazes de perceber que aquelas com frequencia acima da que percebemos podem fazer mal a pele(que chamamos de ultra violeta) e podemos usar as infra vermelhas para ligar a tv! e etc.. etc… etc…ultra som, ressonância magnética….

    Quanto a aceleração ela existe em qualquer nível e portanto eles a teriam tbm(as leis de newton), talvez fosse um passo mais difícil para eles darem na verdade e talvez fosse mais fácil para eles a parte de atômica…

  12. valberto
    jan 17, 2009 @ 00:45:33

    Bom, até ái é um direito seu de discordar e fique à vonatde com isso.

  13. Trackback: amoralidade.net - Moral, ética e correlatos em fantasia medieval « Lote do Betão
  14. gisele
    dez 13, 2009 @ 22:24:52

    ooi, me ajudo com meu trabalho de filosofia vlw ae *———-*

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