Repensando porque os paladinos têm de ser bonzinhos…

Paladinos…

Um paladino é um herói honrado, cavalheresco e intrépido, de caráter inquestionável que segue sempre o caminho da verdade, bondade, lei e ordem, sempre disposto a proteger os fracos e lutar por causas justas. Os paladinos originais foram os 12 pares de Carlos Magno que aparecem no poema La chanson de Roland (A Canção de Rolando) que conta a história de Rolando e Os Doze Pares da França na batalha de Roncesvalles.

Estava pensando nas classes do GOG quando pensei que os velhos paladinos não poderiam ficar de fora. Mas ao invés de ser uma core class que você já pode pegar no primeiro nível eu preferi usar uma abordagem mais “clássica”. Ser um paladino tem sim a ver com a vontade do personagem, mas não depende apenas dela. Ter fé, crer no seu deus e mais importante: ser escolhido por Ele/Ela fazem parte do pacote. Primeiro você tem de provar que é digno. Viva conforme o “código de conduta” da sua divindade e você terá uma chance – na passagem do oitavo para o nono nível – de assumir seu posto.

Mas estava pensando sobre a paladinagem (engraçado como paladinhood soa muito melhor). Ela tem a ver com uma crença. A crença de ser o melhor. A de liderar pelo exemplo. Uma das etimologias de paladino – se não me engano – é de representar o que de melhor a sua raça tem a oferecer diante de seu Deus e diante do mundo. É almejar a perfeição de ser sempre o melhor que você pode ser.

Essa paladinagem parece ser bem natural. Pelo menos ela parece ser naturalmente humana. Ser o melhor que um ser humano pode ser. Não é á toa que apenas humanos e meio-elfos (anões com raríssimas exceções) poderiam ser paladinos nas primeiras edições do D&D. Fazia todo o sentido se você pensar que o paladino tradicional da fantasia medieval se sustenta dentro de um conceito humano, romantizado e idealizado dos cavaleiros carolíngios. Esse lance de ser justo, bom e casto é um reflexo da educação judaica-cristã sobre a ótica da assim chamada “guerra medieval justificável”. Em nome de Deus e de um ideal de perfeição igualdade entre seus pares e justiça as atrocidades eram cometidas. Olhe os livros de história e veja que não foram poucas. Mesmo os poderes e restrições da classe parecem seguir este ideal: destruir o mal, remover doenças, curar pelas mãos se parecem mais com atributos de santos do que de guerreiros.

Eis o cerne do problema. O paladino foi criado para ser vivido por humanos. Mas não por quaisquer humanos, mas por humanos criados dentro de uma sociedade judaico-cristã, ou pseudo-judaíco-cristã. Isso não é uma coisa ruim. Liderar pelo exemplo, ser bom, ético e justo parece ser uma coisa que na vida real muitos de nós anseiam. Estar em paz com nossos irmãos, sabendo nosso lugar no mundo e tendo a anuência de uma divindade pode não fazer o trabalho de combater o mal e a injustiça mais fácil, entretanto, cria o sabor necessário á boa compreensão e interpretação da classe.

Mas e as outras raças e culturas? Elas também devem ter paladinos. Mas estes paladinos serão idênticos aos pares de Rolando? Numa cultura anã em que a força é o único argumento que existe, onde o forte é “bom” e o fraco é “mal”, como poderia um paladino anão, criado por anões, estar sempre disposto a proteger os fracos e lutar por causas justas? Como poderia um cavaleiro elfo formar-se paladino quando ele mesmo se vê superior a todos à sua volta? Como um gnomo poderia vir a confiar num homem que por opção – ou por loucura – jamais se tornou um adulto? (paladinos clássicos devem se manter virgens).

Por isso que cada paladino de cada uma das raças não pode ser, genericamente, o “herói honrado, cavalheresco e intrépido, de caráter inquestionável que segue sempre o caminho da verdade, bondade, lei e ordem, sempre disposto a proteger os fracos e lutar por causas justas”. Seria hipócrita de minha parte dar aquela roupagem especial às raças e depois vomitar por cima delas um código de honra pasteurizado, que nada tem a ver com as suas culturas.

E como resolvemos a questão dos paladinos? Ora, mecanicamente a classe seguirá como está sendo planejada. É o seu ethos, seu comportamento, sua ética e sua moral que vão diferir. Eles ainda vão ser o melhor que cada raça tem a oferecer. Eles ainda vão ser a versão encarnada do poder de alguma divindade, associados à uma passionalidade ímpar por suas convicções. Mas pelo d20 do Gary Gygax eles não vão ser iguais!

Então, como vão ser os diferentes tipos de paladinos?

Elfos: Cavaleiros-filósofos, sempre dispostos a conhecer o mundo e a angariar sempre mais e mais conhecimento.

Anões: Mestres da força, sempre dispostos a obedecer a lei do mais forte a a fazer o que é bom (ou seja o que é força) prevalecer.

Gnomos: Os mestres libertos. Gnomos paladinos estão sempre dispostos a oferecer o livre arbítrio e a liberdade aos outros e – é claro – combater àqueles que se opõem a esua liberdade.

Halflings: Equilíbrio e guerra unidos contra a extinção de seus costumes. Um paladino halfling é tão tradicionalista quanto o sol é brilhante e fará de tudo para fazer sua cultura sobreviver.

Humanos (haravitas): Paladinos tradicionais.

Humanos (núnavares): Sobreviventes e adaptados máximos.

Golias: Vingadores contra as feras que destroçaram seu império.

Goblins: Os senhores da caoticidade e da inconformidade. Mais próximos dos conceitos de honra.

Nas próximas semanas – depois que eu soltar a mecânica de todas as core class e as regras para classe dupla – muita gente não vai gostar, aviso logo – vou dar continuidade aos paladinos. Sobre cada um deles e seus efeitos na sua sociedade de origem.

Até lá.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Heitor
    jan 19, 2009 @ 15:41:48

    Bom, é por isso que eu prefiro chamar paladinos de “campeões”: guerreiros “santos”, que lutam por uma causa, seja a crença em uma divindade, glória racial ou o que o valha.

    E isso não inclui necessariamente sempre o “fazer o bem” tradicional: um orc selvagem pode muito bem lutar pela glória de seu cruel deus, dedicando-se a massacrar outras raças (em um cenário em que orcs fossem escravos, por exemplo, ele poderia ser uma espécie de “libertador do povo”).

    E isso sem contar que a fonte do seus poderes não precisam ser advindos de forças divinas; acho que a simples fé na causa defendida (assim como a autoconfiança do feiticeiro para lançar suas magias) pode concedê-los, sendo que o paladino perde-os quando abandona sua causa original (mas podendo recuperá-los ou adquirir uma nova causa após de alguma provação).

    Ah, e você não precisa ficar avisando, Valberto; se NINGUÉM conseguiu fazer um sistema perfeito de regras, que agrada a todos, porque você teria a obrigação de fazê-lo? Quem não gostar, que vá jogar D&D ou outro jogo d20, ou então esperar pelo Tormenta OGL.

  2. Fabiano Neme
    jan 23, 2009 @ 11:29:20

    No embalo do que o Heitor falou… dá uma olhada na classe Champion do Arcana Evolved e também nas ordens de cavalaria de Dragonlance. Tem idéias boas lá.

    Belo post :)

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