RPG é um jogo de elite?

 

“Depende”. Sim, se você esperava alguma outra resposta mais assertiva, me desculpe, mas eu não posso dá-la ainda. RPG como sabemos é um jogo. É diversão, é educativo, é bom para passar o tempo, é um hobbie… mas é de elite? O que é ser de elite? De que tipo de elite estamos falando? É possível que algo assim seja popularizado ou tudo não vai passar de um nicho de mercado apertadinho entre o MMO da vida?

Segundo Thomas B. Bottomore, a palavra elite era usada durante o século XVIII para nomear produtos de qualidade excepcional. Posteriormente, o seu emprego foi expandido para abarcar grupos sociais superiores, tais como unidades militares de primeira linha ou os elementos mais altos da nobreza.

Elite, de modo geral, pode ser considerado como um grupo dominante na sociedade. Especificamente, o conceito possui diversas definições.

Pode ainda designar aquelas pessoas ou grupos capazes de formar e difundir opiniões que servem como referência para os demais membros da sociedade. Neste caso, elite seria um sinônimo tanto para liderança quanto para formadores de opinião.

Outra forma de identificar uma elite é aproximando-a da categoria intelectual da classe dirigente. Neste caso, a idéia de formar opinião pública é substituída pela idéia de construção ideológica, entendida como a direção política em um dado momento histórico. Sob este aspecto, a elite cumpriria também o papel de dirigente cultural.

Hoje em dia “Elite” assume uma característica que indica qualidade e preparação para a vida no mundo capitalista neoliberal que vivemos. Pessoas que possuem um grau de educação maior que a maioria das outras pessoas, normalmente associada a um poder aquisitivo maior.

Assim, vejamos se o RPG é um jogo de elite. Normalmente seus manuais são caros. São livros em tamanho grande, com pelo menos 64 páginas e que quase sempre ultrapassam a soma dos 20 reais. Possuem ilustrações e tiragens normalmente pequenas o que encarece mais ainda o seu custo. O fato de precisarem de acessórios como dados, por exemplo pode transformar uma inocente partida de fim de semana num gasto que pode facilmente superar os 300 reais. Tão certo quanto existem livros caros também existem suas contrapartes mais econômicas. Sistemas completos que ocupam pouco mais de 100 páginas não são fatos isolados e assustam muitos jogadores.

Seus livros possuem dezenas – em alguns casos centenas – de páginas para serem digeridas antes que a diversão se inicie. Mesmo naqueles manuais mais simplificados dificilmente ele fica abaixo de dez páginas. Tanto as regras como o cenário onde o jogo se passa exigem do leitor uma certa capacidade de compreensão de textos e abstração, sem falar de um bom vocabulário. Palavras que estão fora do nosso dia a dia como escudos, dragões e magias abundam as páginas de grande parte dos RPGs. São bem diferentes de outras formas de diversão como o videogame que até mesmo iletrados conseguem aproveitar sem nenhuma dificuldade.

Hoje vivemos num mundo onde as pessoas não sabem mais ler. Ou não sabem, ou não querem, ou têm preguiça. Um bom leitor, daqueles que os professores de português adoram praticamente está em extinção. Para fazer o teste basta ir a qualquer escola e pedir que os alunos leiam as páginas de seus próprios livros. É uma leitura dura, sofrida e cheia de erros. Compreensão do que foi lido? É raro. Como professor posso atestar a veracidade desses fatos quando passei um trabalho – uma espécie de ficha de leitora – sobre um filme que assistimos em sala. “Desastre” é a palavra que me veio à mente quando vi o calibre da resposta dos alunos. E RPG demanda leitura.

Então, dentro de uma visão mais simples do que temos hoje no Brasil o RPG é quase uma exclusividade de pessoas que sabem ler e têm algum dinheiro para gastar com seu hobbie. Não é diferente do aeromodelismo, da miniaturização, da coleção de selos… a elitização do gênero depende de quanto você esta disposto a gastar com ele. Hoje não temos mais a figura do rpgista típico como o CDF que fala vários idiomas e lia “senhor dos anéis” antes dele virar pop. Hoje o rpgista é uma incógnita. Hoje, dizer quem ele é torna-se um verdadeiro desafio aos estudiosos do mercado.

E no fim das contas o RPG é uma coisa de elite? De certa forma sim, uma vez que ele não vai, nunca, ser uma coisa para todos. Em menor grau ele vai ser como o futebol, que tem seus fãs e seus detratores; que tem seus “Robinhos” e seus “eu odeio futebol”. O RPG tende para um seletivismo de seus praticantes, tanto quanto qualquer outro hobbie.

E sendo de elite é possível que ele se popularize? Sim. Experiências bem sucedidas neste sentido já foram vistas e sentidas no Brasil entre a metade da década e de 90 e a metade da década de dois mil. RPGs bons, acessíveis – tanto na leitura como no preço – com poucos acessórios e com um forte apelo “popular” introduzem dezenas, ou mesmo centenas de jogadores todos os meses. Simplicidade parece ser a palavrinha mágica para fazer um jogo girar de forma muito adequada. Palavrinha que os veteranos parecem esquecer ou odiar.

O que precisamos fazer – com urgência – é encontrar formas de popularizar o RPG nos dias de hoje, no atual cenário. Ficar sonhando com o jogador nerd dos anos 80 e com a versão brasileira da Dragon magazine é só isso: sonho.

Anúncios

6 Comentários (+adicionar seu?)

  1. FenrirX
    abr 03, 2009 @ 03:33:05

    Palavras cruéis… mas verdadeiras!

    O RPG sempre foi de elite, cabe a nós, usuários de RPG e jogadores do hobby popularizar ele… Mesmo que seja fazendo guias rápidos e simples dos vários sistemas que existem…

  2. Ragnarockk
    abr 03, 2009 @ 16:28:34

    Foi mais ou menos o que eu disse naquela discussão que se deu nos blogs umas semanas atrás, de se a culpa da não-popularização ou falta de divulgação do RPG era culpa ou não dos jogadores. O que podemos fazer se o RPG é um hobby que ainda não é muito barato, e que exige coisas que a maioria das pessoas hoje em dia não estão dispostas a fazer, por mais simples que sejam, como somar, subtrair, escrever e ler, etc.? Eu, por exemplo, quero jogar a 4ª edição, e como ainda não há tradução (e quando tiver, será que vai prestar?), vou esperar minha bolsa de pesquisa sair pra comprar os três livros, e depois rezar pra os meus amigos aceitarem trocar o videogame pelo RPG. Ser RPGista deve ser como curtir filmes estrangeiros alternativos, com a diferença de que não dá pra jogar RPG sozinho.

  3. Heitor
    abr 07, 2009 @ 22:14:15

    Bom, algumas coisas funcionavam melhor quando elitizadas. A internet, por exemplo, era bem mais tranquila de navegar antes de ser utilizada por amplas massas; hoje, você praticamente tem que pensar trocentas vezes antes de clicar em um mísero link, sob o risco de lascar seu computador.

    Por isso acho que, se elitizar algo significa manter sua qualidade, é melhor que assim seja.

  4. valberto
    abr 07, 2009 @ 22:25:15

    Desculpa Heitor, mas esse seu argumento não convence. A coia não prcisa ser de elite para funcionar. Imagine que apenas a elite pudesse comprar carros, ter computadores, ou mesmo degustar uma boa pizza. Imagine qu eue falo da elite mesmo. Gente do top de 15 milhões por ano mesmo. Não é o lance de ser popular que é ruim. Ser popular garante a sobrevivência. RPG é exclusivista porque exige coisas que muita gente não tem: como saber ler. Para manter o rpg puro vc privaria pessoas do prazer de ler?

  5. Marcelo
    abr 14, 2009 @ 00:14:06

    Gostaria de uma indicaçao de livraria especializada em rpg, pois estou procurando livros do Steve Jackson e nao encontro nessas livrarias convencionais.

  6. valberto
    abr 14, 2009 @ 03:10:37

    O amigo já tentou a moonshadows?
    http://www.moonshadows.com.br

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: