Quantos soldados você disse que o outro exército tem?

A situação não chega a ser novidade nas mesas de RPG: os jogadores acabam envolvendo-se num grande conflito, uma guerra. Pode ser apenas uma parte da aventura (como por exemplo, passar pela fronteira de dois reinos em guerra, escapando a ira dos dois países), como pode ser também o cerne da questão (defender o seu reino/cidade de invasores). Muitas são as dúvidas dos narradores a este respeito. Afinal quanto custa um exército? Como proceder o combate com e entre exércitos? Quanto dano causa uma catapulta ou um trabuquete? Desculpe, mas não vou poder responder essas perguntas – não hoje pelo menos. Quero tratar de uma coisa muito importante quando o assunto gira em torno do combate em larga escala: os soldados: quantos mesmo você disse que tinha?

A Síndrome do Assassins Creed.

Dia desses, eu estava entediado e liguei o meu XBOX para jogar Assassin’s Creed. É um excelente jogo especialmente pela estratégia fantástica dos combates e da facilidade que você tem em fazer verdadeiras matanças com um pouco de controle dos comandos do jogo.

Nesta ocasião eu estava tão entediado que fui até Jerusalém e procurei o maior destacamento de templários que eu pude achar e matei o líder deles. Choveu neguinho com sede de sangue em cima do Altair, mas não deu em nada. Tomei alguns golpes, de certo, mas foi o chão que acabou juntando cadáveres. Depois da treta toda eu e meu filho contamos cerca de 40 soldados, entre os mais fraquinhos (que morrem de um tabefe só), os médios (que precisam de pelo até dois ou três golpes bem encaixados para morrer) até os fias-da-puta de elite (que precisam de 5 ou mais golpes bem encaixados para encontrar com o criador).

Vendo a farra o meu filho perguntou: puxa, quantos soldados tem nessa cidade? E daí eu fiquei com essa pulga atrás da orelha. Quantos soldados têm em uma cidade, ou mesmo um reino? Como são compostas suas unidades? Se eles são realmente em quantidade o bastante, por que não dão conta das ameaças que os aventureiros são chamados para resolver?

Para responder estas perguntas muni-me de alguns dados históricos sobre o exército dos tempos da Roma Antiga, dados modernos sobre o exército brasileiro e mais algumas curiosidades interessantes. O resultado pode ser visto recheando o texto.

Modernamente, a média de soldados dentro de uma nação desenvolvida é de 0,16%. No Brasil, por exemplo, com sua população de 180.690.583 habitantes tem um exercito terrestre de 288.000 soldados. Uma cidade de fantasia, como Jerusalém, em Assassin’s Creed, com 95.000 habitantes teria uma guarda de 152 homens (destes, eu devo ter matado uns 150 só na última missão). Podemos dizer que nações “voltadas para a paz” ou “normalmente neutras em conflitos” têm um percentual de contingente menor, girando em torno de 0,10% enquanto que nações em guerra civil ou que sejam naturalmente “belicosas” ou que estejam em “expansão territorial hostil” pode chegar até 0,25% da população ou mais.

Um grande Reino.

Quando falamos de um grande reino de fantasia temos muitas coisas a considerar. Se possuem acesso à magia, acesso a máquinas ou animais voadores ou a naves capazes de singrar o mar, por exemplo. Para que o artigo não fique excessivamente engessado ou longo, eu vou falar apenas das tropas terrestres. Este artigo também tratará apenas de reinos humanos – dependendo de como ele for aceito eu vou trabalhar com outros reinos e raças que não humanas e de outros tipos de soldados.

Pesquisando um pouco sobre exércitos e sobre história eu cheguei até as tabelas que seguem. Vamos a elas:

Infantaria

Tropa ou Patrulha básica

10 soldados (combatente 1) mais 1 cabo (clérigos 3) liderados por um sargento em treinamento (guerreiro 2).

Esquadrão

20 soldados (combatente 1) mais 2 cabos (clérigos 3) liderados por um sargento (guerreiro 3)

Pelotão

3 Esquadrões (60 sol/6 cab/3 sgt) mais 3 tenentes (clérigos 4) liderados por um capitão (paladino 5)

Companhia

2 Pelotões (120 sol/12 cab/6 sgt/6 tnt/2 cap) liderados por um major (guerreiro 7)

Regimento

2 companhias (240 sol/24 cab/12 sgt/12 tnt/4 cap/2 maj) liderados por um coronel (guerreiro 9)

Brigada

2 Regimentos (480 sol/48 cab/24 sgt/24 tnt/8 cap/4 maj/2 col) liderados por um general (guerreiro 11)

Artilharia

Arqueiros de Elite

Esquadrão

10 sargentos liderados por um tenente

Pelotão

3 Esquadrões (30 sgt/3 tnt) liderados por um capitão

Cavalaria

Esquadrão

5 cabos em Cavalos de Guerra Leves mais 10 sargentos em Cavalos de Guerra Pesados liderados por um tenente em num Cavalo de Guerra Pesado.

Pelotão

3 Esquadrões (15 cab/30 sgt/3 tnt) liderados por um capitão em Cavalo de Guerra Pesado

Guardas de Elite

Esquadrão

10 sargentos mais 5 sargentos da cavalaria liderados por um tenente

Pelotão

3 Esquadrões (30 sgt/15 sgt/3 tnt) liderados por um capitão da cavalaria.

Companhia

2 Pelotões (60 sgt/30 sgt/6 tnt /3 cavalaria cap) liderados por um major da cavalaria.

Não podemos esquecer dos custos envolvidos em manter um exército. Um soldado ganha em torno de 25 dinares/denários por mês (essa era a medida de um legionário romano, na época do Imperador Titus Flávius). Se você pensar em moedas de prata como “dinares”, a cidade de Jerusalém tinha um gasto anual de 300 dinares por soldado, ou 150 moedas de ouro por ano, algo em torno de 22.800 (vinte e duas mil e oitocentas moedas de ouro por ano). Claro que quanto mais elevado for o posto militar maior será o salário. Este, entretanto, é o valor do soldo médio. Alguns lugares podem oferecer soldos maiores enquanto que outros, um soldo bem menor. Outra a coisa a se pensar que este é o contingente total. Aquele total máximo que pode ser reunido para dar conta de alguma coisa do nível guerra mundial, mas mesmo assim, por pouco tempo.

E por que se contratam aventureiros se tem tanta gente? Waterdeep (ou Águas Profundas, cidade de Forgoten Realms) tem 130 mil habitantes, o que lhe garante um exército de 208 homens. A grande maioria está trabalhando na guarda da cidade, ou treinando, ou está em patrulhas moveis ou vigiando as fronteiras do lugar. Isso quando não estão em funções burocráticas. De repente os 208 que pareciam gente “pra caramba” tornou-se quase sem efetivo.

Verifique a ficha padrão e o equipamento padrão dos soldados e perceba como é que o mundo precisa tanto de aventureiros.

Soldado

Combatentes 1; ND 1/2; Tamanho Médio; DV 1d8+1; pv 5; Inic. +0; Desolc. 6m.; CA 16, toque 10, surpreendido 16; Ataque +3 Corpo-a-corpo (1d8+1/19–20, espada longa) ou +2 à distância (1d8/19–20, besta leve); Alinhamento: Vários; Proteção Fort +3, Ref +0, Vont –1;

For 13, Des 11, Con 12, Int 10, Sab 9, Car 8.

Perícias e Talentos: Escalar –1, Saltar –7, Observar +1; Foco em Arma (espada longa), Foco em Arma (besta leve).

Equipamento: Brunea, Escudo de Madeira Pesado, espada longa, besta leve, 20 setas.

Arqueiro

Combatente 1; ND 1/2; Tamanho Médio; DV 1d8; pv 4; Inic. +1; Desolc.30 ft.; CA 14, toque 11, surpreendido 13; Ataque +2 Corpo-a-corpo (1d6+1/19–20, espada curta) ou +3 à distância (1d8/×3, arco longo); Alinhamento: Vários; Proteção Fort +2, Ref +1, Vont –1;

For 12, Des 13, Con 11, Int 10, Sab 9, Car 8.

Perícias e Talentos: Escalar +2, Saltar +2, Ouvir +1, Observar +1; Tiro Certeiro, Foco em Arma (arco longo).

Equipamento: Armadura de Couro Batido, espada curta, arco longo, 25 flechas.

Cabo

Clérigo 3; ND 3; Tamanho Médio; DV 3d8+6; pv 23; Inic. –1; Desolc. 6m.; CA 19, toque 9, surpreendido 19; Base Ataque +2; Agarrar +3; Ataque +5 Corpo-a-corpo (1d8+1, Maça estrela Obra-prima); Espantar Mortos Vivos 4/dia (+1, 2d6+4, 3°); Alinhamento Leal; Proteção Fort +5, Ref +2, Vont +5;

For 13, Des 8, Con 14, Int 10, Sab 15, Car 12.

Perícias e Talentos: Concentração +8, Cura +8 (+10 com kit de cura), Identificar magia +6; Fazer poção, Magias em Combate, Reflexos Rápidos, Foco em Arma (maça estrela).

Equipamento: Armadura de batalha, escudo de aço pesado, 5 poções de curar ferimentos leves, Maça Obra-prima, kit de cura.

Sargento

Guerreiro 3; ND 3; Tamanho Médio; DV 3d10+6; pv 27; Inic. +1; Desolc. 6m.; CA 21, toque 11, surpreendido 20; Base Ataque +3; Agarrar +5; Ataque +7 Corpo-a-corpo (1d8+2/19–20, espada longa obra-prima) ou +5 à distância (1d8+2/×3, arco longo composto obra-prima; Proteção Fort +5, Ref +2, Vont +1; Alinhamento Leal;

For 15, Des 13, Con 14, Int 8, Sab 10, Car 12.

Perícias e Talentos: Tratar Animais +3, Intimidação +5, Ride +5, Observar +2; Combate Montado, Arqueria Montada, Tiro Certeiro, Tiro Preciso, Foco em Arma (espada longa).

Equipamento: Armadura de batalha, escudo de aço pesado, espada longa Obra-prima, arco longo composto obra-prima (+2 bônus de For), 20 flechas, Cavalo de guerra leve.

PS: a primeira encarnação deste texto foi apagada por engano. Quem comentou e perdeu seu comentário, favor re-comentar.

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10 Comentários (+adicionar seu?)

  1. shingowatanabe
    abr 05, 2009 @ 04:02:40

    Muito bom texto. E eu pensava que eram muito mais soldados em média..

  2. Jagunço
    abr 05, 2009 @ 14:31:41

    Muito bom mesmo o artigo. Antes que alguém cite um suplemento especializado-e-obscuro, venho dizer que o simples Fronteiras Prateadas traz dados sobre os contingentes de parte do Norte de Faerûn.
    Curioso, por exemplo, saber que Lua Argêntea tem mais de 800 defensores (entre centenas de soldados e dezenas de magos de guerra).
    (Certo, falamos de uma cidade de fronteira, com recursos que uma cidade histórica não teria).
    Ainda assim, talvez por vício de O Senhor dos Anéis e 300, estamos acostumados a pensar em Exércitos de Milhares. É importante situar figuras como Gengis Khan, Alexandre Magno e certas hostes romanas como eventos capazes de mudar o mundo conhecido! :)

  3. valberto
    abr 05, 2009 @ 17:59:34

    Não se esqueçam que o percentual de 0,16% refere-se ao termo moderno. Antigamente vc poderia ter bem mais soldados – especialmente em casos de guerra em larga escala.
    Vamos dizer que num reino de 1 milhão de habitantes eu poderia ter entre 1000, 1500 até mesmo 5000 soldados. Mas o custo, a longo prazo, é que é o pior. Vc pode ganhar a guerra, mas se não tiver fundos para pagar os soldados que lutaram por vc, pode ter em mãos mais que uma greve geral….

  4. Matheus
    abr 05, 2009 @ 20:03:04

    grande valberto!
    um artigo muito bom sobre um tema realmente importante, ao meu ver, em se tratando de jogos medievais.

    Enqualo lia, talvez por vc ter citado Jerusalém, ficava me lembrando da contagem bíblica, acho q do livro de Números, dos soldados de Israel durante a travessia no deserto. Em caso de emergência mais de 600.000 homens eram “capazes de puxar a espada”, ou seja, tinham mais de 20 anos e não eram idosos. Se n me engano em Crônicas há uma contagem sobre os exércitos de Salomão q poderia servir de base pra um reino muito poderoso.

    Enfim!
    Parabéns aí!
    braços!
    fica com Deus!
    té +!
    Math

  5. shingowatanabe
    abr 06, 2009 @ 04:24:55

    Sim, verdade mas mesmo assim parece ser muito pouco. As questão do pagamento é mostrada muito bem nos Livros do Cornwell sobre as Cronicas Arturianas. Muitas vezes se perde o controle dos soldados por causa de pagamento, e muitas vezes [grande parte na verdade] não existia pagamento, era tudo negociado em cima da participação de cada soldado no saque do exército inimigo…

  6. Gun Hazard
    abr 06, 2009 @ 14:52:20

    Butin!

    Pena que em geral ele sirva somente para mercenários…

    Soldados Regulares tem o dever de informar o que é recolhido para seu Superior e o soldado mesmo fica com bem pouco do Butin. Já os Mercenários dividem o Butin entre sí e seu lider…

    Realmente “Manter” um exercito é caro, em tempos de guerra é mais fácil pois há Lei Marcial, Saques e etc… Mas mesmo assim já há muitas deserções e manter um exercito fora de tempos de guerra deve dar muita dor de cabeça e custo…

  7. joão victor
    abr 27, 2010 @ 01:35:07

    cara muito interesante iso que você comentou mas sobre a militarisação dos tempos antigos eu tenho um toque pra te dar,hoje realmente a militarisação e por volta dessa quantidade,mas em tempos antigos como na epoca dos gregos ou romanos ou ate na epoca do jogo a militarização era muito maior pq convenhamos,naquela epoca num tinha porra nenhuma pra fazer ne veio,era soldado ou ordenhador de vaca,então eu não tenho certeza mas ate onde sei a taxa de militarização da epoca era por volta a cada dez caboquin um era soldado entao se a cidade tem 95.000 abitantes o numero de soldados deve se la pras tantas dos 9.500,principalmente na epoca desse jogo que se não me engano e na epoca dos templarios e tinha um indice muito grande de militarização pois sejamos honestos,os mulçumanos tavam metendo a pea em nois nou jeja”opa tem negim na plantação,manda pa guerra pra vira homi”.O(^_^)O

  8. valberto
    abr 27, 2010 @ 10:29:14

    Olá João.

    Você está enganado. Existia muito mais a fazer numa sociedade do que simplesmente “ser guerreiro ou ordenhar vacas”. Nunca na sociuedade humana houve realmente “porra nenhuma para fazer”. Sempre houveram diversas ocupações e trabalhos desde os mias humildes passando por outros mias sofisticados e bem remunerados.
    Vejamos uma cidade como Acre, por volta de 1121 dC. Quase 80 mil pessoas sem esgoto ou água corrente. As profissões são inúmeras: ferreiros, comerciantes, agricultores, pescadores, oleiros, artesãos, sacerdotes, advogados, juristas, médicos, farmacêuticos (aqui chamados de alquimistas), poetas, atores, administradores, construtores, vidraceiros, madeireiros….
    O homem pode ser talhado para a guerra, mas são muitas poucas as civilizações da terra voltadas exclusivamente para a guerra e a militarização.

  9. José Renato
    out 20, 2012 @ 17:00:38

    Olá Betão,

    já adicionei seu blog em meus favoritos depois de ler esta matéria. Tenho 35 anos e sou jogador, mestre e fanático por RPG (Gurps) em Sampa.

    Sempre procuro dicas para incrementar meus cenários, mas na maioria das vezes encontro foruns e artigos equivocados sem base histórica ou ao menos lógica. É interessante ver que grande parte dos jogadores e mestres não pensam, que apesar de ser um mundo de fantasia, existem questões econômicas e sociais dentro desses cenários. Já encontrei inúmeros mestres que quando um PC tentava surrupiar algumas moedas, baixava a SWAT na taverna (rs!).

    Estou com um grupo com alguns jogadores novos (comigo mestrando) e quando falei das milícias e exércitos das cidades, eles estranharam…

    Algumas das minhas pesquisas indicaram que em tempos de guerra eram recrutadas tropas irregulares (acho que vc falou sobre isso também neste ou no outro artigo…), mas tenho uma dúvida que talvez você possa me responder “as famosas milícias” ou guardas das cidades que aparecem nas aventuras prontas e em algumas aventuras, eles faziam parte do exército regular e quanto às cidades que eram burgos (com autorização do suserano para ser administrada por uma guilda) como era composta sua guarda?

    Parabéns pelo ótimo conteúdo e um abraço.

    Zeh.

  10. valberto
    out 21, 2012 @ 09:36:06

    Olá Zé,

    Que bom que gostou da página. Está um pouco desatualizada, mas acho que tem bastante material para você consultar. Bom, voltando a sua pergunta: uma cidade pode ter uma guarda sim. É o mais comum. As guardas funcionam mais ou menos como os xerifes e seus ajudantes. Uns poucos homens cuidam de uma cidade. Quanto mais rica a cidade, mais soldados ela pode manter. A guarda é composta por soldados regulares, com rank militar e soldo ao final do mês ou da semana. Eles são mantidos e equipados com os impostos da cidade, que banca também o treinamento de novos recrutas. Cabe a essa milícia investigar crimes, manter a ordem e prender bandidos, entre outras ocupações.
    Já nos burgos a milícia era composta por um misto de soldados mercenários e afiliados indiretos da guilda. Uma guilda de magos que administre uma cidade pode ter entre seus protetores da guarda criaturas mágicas invocadas ou soldados comuns com algum tipo de item mágico, como bastões pasmares (causa a magia pasmar ao toque, 50 cargas). Já em cidades mantidas por guildas de mineração ou comércio é comum que ex-mineiros assumam o papel de guardas.

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