Diário de um sobrevivente

Diário de um sobrevivente foi uma série de contos que eu escrevi sobre o Apocalipse Zumbi, ambientada no Brasil – especialmente aqui no DF, narrada em primeira pessoa por um personagem “casca-grossa”. O texto que segue é o primeiro capítulo (alguns leitores da primeira encarnação do Lote já conhecem esse texto). A diferença é que este material está sendo colocado aqui com o intuito de revisão (ou seja, comentem!) e que eu também vou estar usando essas impressões para dar continuidade a um material sobre zumbis que estou escrevendo.

 

 

Capítulo I: Apresentações.

 

Já faz oito meses desde que o inferno tomou conta da terra. Você sabe, a praga de zumbis. Como tudo começou ninguém sabe ao certo, mas foi mais ou menos a seis meses que a coisa começou a pegar fogo. Quando aquele caboman da Globo atacou o William Boner no ar, justo enquanto o Boner desmentia os supostos ataques de zumbis eu soube que o negócio iria feder. E realmente fedeu. Tenho que admitir que o operador de câmera teve culhões para filmar aquilo tudo ao vivo e que o diretor teve mais ainda para deixar ir ao ar.

No dia seguinte à transmissão eu estava na porta do meu supermercado favorito. Fiz um cartão de crédito com tudo que tinha direito e torrei o limite de uma só vez: comida desidratada, água mineral, comida enlatada, facas, pilhas, baterias, ferramentas, martelos, botijões de gás… vendi meu apartamento em seguida e comprei a chácara mais afastada que eu pude. Com o que sobrou dos empréstimos que eu fiz eu contratei um pedreiro para reformar o lugar: muros altos, portas de ferro com barras duplas, entre outras gracinhas.

Paguei em dinheiro e enquanto a obra seguia tentei convencer parentes e amigos. Diziam que eu estava paranóico. Os amigos se afastaram, perdi o emprego, mas quando São Paulo caiu nada disso teve importância. É engraçado como as coisas são: de uma hora para outra eu passei de louco a messias. Reuni mais uns dez amigos que como eu não tinham mais nada a perder e nos refugiamos no sítio. Todos fizeram o mesmo que eu. Ficamos lá, dias e dias com os olhos colados na TV e os ouvidos pregados no rádio, vendo o mundo que conhecíamos desabar. Não apenas aqui, mas no mundo inteiro ao que parece.

Bom, o perímetro do muro era pequeno, mas bem, resistente. Seria preciso uma retro escavadeira para pô-lo abaixo. A estrada para o sítio era carroçal, de terra batida e dava muitas voltas até chegar à casa da fazenda. Mesmo assim convenci os caras a escavar alguns fossos com lanças assim que as TV’s pararam de transmitir. Quando o fornecimento de luz foi cortado soubemos com certeza que Brasília tinha caído. Não podia deixar de achar reconfortante saber que em alguma lugar no meio daquela zumbizada toda havia um certo presidente “Mula” se cagando todo. Com o fim do mundo civilizado os caras acharam que estava na hora de cada um ter o seu cantinho. Eu protestei, mas foda-se. Estávamos no meio do nada e eles começaram a se dispersar, ocupando as chácaras vizinhas. Não eram tão seguras quanto o meu castelo, mas vá lá, eram bem mais confortáveis. Por mim, passei várias semanas olhando por cima das minhas muralhas, num passadiço de ferro que havia terminado pouco antes da queda de Belo Horizonte, treinando com um rifle de caça que tinham deixado na sua ânsia pela melhor mansão nas quadradezas.

Reuníamo-nos todo santo domingo para falar do que aconteceu e se alguém tinha notícias do mundo exterior. As reuniões eram ao mesmo tempo maçantes e aliviantes: se por um lado era legal ver que todo mundo estava vivo e bem, por outro era um saco ver sempre as mesmas pessoas falando as mesmas coisas. E mais saco ainda saber que nada havia mudado.

O nosso mundinho parecia intocado até que numa sexta feita um avião caiu perto da fazenda do Marcondes. Marcondes era um macaco velho do exército, major e desertor antes da crise dos zumbis. Foi ele que deixou o rifle lá em casa e num aniversário meu me presenteou com uma Makarov 9mm e três pentes de munição. A regra era não sair de casa em busca de problemas e eu imaginei que o Marcondes fosse fazer isso mesmo. Me enganei: ele e a esposa saíram em busca dos sobreviventes do avião. Pensando nisso hoje eu acredito que se o Marcondes não tivesse se metido a salvador da pátria estaríamos nos reunindo todo domingo ainda. No avião um dos sobreviventes estava mordido por um zumbi e deve ter escondido este fato. Marcondes nem percebeu e o levou para casa. De noite, o “sobrevivente” virou zumbi e atacou Marcondes e a esposa. No domingo nenhum dos dois apareceu. Daí foi preciso mais uma semana e mais um casal sumido – desta vez a Priscila e a sua namorada lésbica para a gente perceber que estava em apuros.

Organizamos um grupo de caça: metade de nós foi á casa do Marcondes e a outra metade foi na casa da Pri. Foi o nosso maior erro. Não devíamos ter nos separado. A equipe “P”foi estraçalhada pelos zumbis e a nós da equipe “M” ficamos rodando horas sem saber de nada. Quando fomos ao ponto de encontro e não vimos ninguém soubemos que a merda tinha fedido. À noite, apesar do perigo, peguei uma moto e voltei na casa do Marcondes. Peguei tudo que era arma e munição que eu achei no lugar e voltei pro ponto de encontro. O lugar já estava um caos. Não deu para salvar nada. Toquei a moto para casa e me tranquei lá.

Levou mais uma semana para a zumbizada descobrir ou relembrar o caminho do meu sítio murado. Eu achei que haveriam uns dez deles, mas só haviam oito: Marcondes vinha na frente, todo pálido e sujo de sangue, seguido pela esposa que estava apenas de calcinha e soutien. Atrás vinham a Pri, a namorada, e mais o resto do grupo. Lá no fundo eu vi um bicho que eu não conhecia, com roupa de âncora de jornal. Ele foi o primeiro a tombar com um tiro de espingarda nas fuças. Depois saí descarregando o rifle no pessoal. Dizia para mim mesmo que não eram mais meus amigos, que eram monstros, que se eu não fizesse aquilo iria morrer e que mesmo como zumbi os peitos da Ana eram deliciosos. O cano da minha CBC F-22 ficou em brasa quando eu terminei. Desci as escadas e peguei uns litrinhos de gasolina. Tinha de terminar o serviço. Antes de tocar fogo revistei a galera em busca de algo bom. Nada de interessante, até que cheguei no maneco de terno. Era um bosta dum deputado. Mijei nele antes de tacar fogo. Ele mereceu. É engraçado como os deputados conseguem foder com gente mesmo depois que o governo caiu.

A partir daquele ponto fiquei isolado e sozinho de novo. Resolvi trocar minha fiorino velha por uma Picape Toyota que achei numa das minhas explorações nas quadradezas. Eventualmente minha comida acabou. Levaria muito tempo para que a minha horta produzisse algo decente para comer. As viagens em busca de comida e água acabaram me levando de volta à cidade.

Crianças zumbis estavam paradas nos parquinhos olhando para os brinquedos inertes. Zumbis com roupas transadas ocupavam lan houses a muito desativadas e alguns até estavam sentadas frente aos computadores destroçados. A maior concentração estava em volta ao Gama Shopping: eles circulavam e grunhiam uns para os outros. Eu não sei quem teve a idéia cretina de que um shopping seria um bom lugar para se esconder, mas se ele seguiu o próprio conselho deve estar grunhindo em algum lugar por aí. Uma devastação só.

Rodei por mais ruas cheias de zumbis até escutar tiros. Era uma galera que tinha ficado presa num sobrado. Resolvi engraxar as rodas da picape com pasta de zumbi e passei por cima de duas dúzias de bichos mortos. Os sobreviventes eram tudo o que sobrou do nono batalhão de polícia militar do Gama: dois sargentos, uma tenente e um cabo. Eles queriam ir até o quartel do nono batalhão, no setor sul, se reabastecer de armas, munições e com alguma sorte pegar um caveirão do Bope para cruzar a fronteira em direção ao Nordeste, onde parece, existe um foco de resistência humana. Concordei em levá-los até lá, em troca de um colete à prova de balas e uma escopeta municiada. Consideraram uma troca justa.

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7 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Agatha Guedes
    maio 01, 2009 @ 19:17:17

    Quais tipos de erros que devemos achar?

    Acho que a vírgula do “mas bem, resistente” está demais, mas pode ser que eu esteja vendo coisas.

    Outra parte que me intrigou, pareceu um erro mas posso estar perdida, é “Por mim, passei várias semanas olhando por cima das minhas muralhas”. Não seria “passaria várias semanas”?

    Sexta feita? (quando o avião cai).

    A crase do “metade de nós foi á casa” está trocada por um acento.

    Caso esteja falando de impressões sobre o texto, eu já havia gostado dele da primeira vez, e agora continuo gostando. Acho muito legal essa idéia de infestação de zumbi, é legal ver como seria caso acontecesse.

    (caso sua intenção não fosse a correção, só apagar o comentário que eu posto outro só com minha visão sobre o texto). Obrigada e abraços.

  2. valberto
    maio 01, 2009 @ 19:29:26

    Esse tipo de comentário esta perfeito. :)

  3. Heitor
    maio 01, 2009 @ 21:09:32

    Get up, come on get down with the sickness!

    O melhor “meme” dos últimos tempos não podia morrer de vez; tinha que “zumbizar” um pouco mais…

  4. Beholder
    maio 03, 2009 @ 13:11:16

    Li a serie de textos no outro blog… vão ter novos capítulos? volte a postar os sobre o cara q cobrava as almas de quem as vendia para o inferno… serie mt boa aquela tb…
    ps: vc da aula pra minha namorada o.O

  5. valberto
    maio 03, 2009 @ 15:52:08

    Na verdade vai ter capítulos novos sim. Hoje eu fechei o capítulo X, mas não deve ser postado antes de algumas semanas. Quanto ao cobrador, estou com uma idéia de conto com ele – mas não posso dizer nada agora.
    Como é o nome da sua namorada? ela é daqui do Gama ou é de Taguatinga?

  6. beholdercego
    maio 04, 2009 @ 06:19:35

    Jessy o nome dela… de tagua =)

  7. Alexandre Fnord
    jul 31, 2009 @ 11:47:10

    Mudanças no texto parecem meio que desnecessárias, pois trata de algo escrito por um cara que simplesmente sobreviveu. Ele não precisa ser bem escrito, por que no Brasil pouca gente sabe escrever corretamente mesmo.

    Quanto ao conto. Muito bom. Só falta saber se esses loucos chegaram até o nordeste. Bem que poderia continuar com o diário desse personagem.

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