Por que maduro e adulto não podem ser sinônimos?

 

Hoje estava tentando explicar Watchmen para uma amiga que foi ao cinema e detestou o filme. O argumento dela era bem simples. Por que era um filme de super heróis, se, em primeiro lugar, não havia nenhum herói em cena? É um tal de estupro pra cá, violência gratuita para lá, assassinato aqui e ali… quer dizer, como é que um filme que lida com a os conceitos arquetípicos de heroísmo pode não ter nada de heróico?

É um filme adulto – respondi dando a resposta padrão – O cara que escreveu, um tal de Alan Moore é um pirado. Deve ser a visão de como o mundo reagiria se houvessem heróis de verdade correndo para cima e para baixo no mundo de colantes e cuecas de couro por cima das calças.

Daí ela me disse uma coisa que me derrubou qualquer argumento. Val, é assim que você educa o seu filho? Para ser um estuprador violento? Quer dizer, você educa o seu filho para ser um adulto, certo? Bom, se ser um herói adulto é ser aquilo ali eu prefiro ser criança com o Super Homem de Cristopher Reeve.

O ponto dela tem toda razão. Educamos os nossos filhos para serem as melhores pessoas possíveis. Melhores que nós, pelo menos. Tentamos ensinar o perdão, o trabalho duro, a responsabilidade. Ensinamos sobre heróis e vilões, mocinhos e bandidos, sobre certo e errado, ético e antiético, esperando que quando eles se deparassem com esses dilemas, sejam sensatos o bastante para dizer ‘não’ ou para simplesmente colocar uma camisinha enquanto a sua parceira fica se masturbando.

Mas depois vem um filme com caras vestidos como se tivessem fugido da última Comic Con de San Diego fazendo tudo aquilo que não queremos nem para nós e nem para os nossos filhos com um bando de outros esquisitos dizendo que Alan Moore é um Deus ou que aquilo são Super Heróis para audiência adulta ou madura. Pergunto: o que tem de maduro em Watchmen? O que tem de tão fantástico em sua história torpe e sua narrativa descartável? Nada, a não ser o mito moderno de que super-heróis são apenas super e não heróis. Incomoda-me o fato de termos uma geração que acha que a coisa mais legal do mundo é fatiar os outros com garras de metal inquebrantável ou sair por aí dando porrada e tiros em bandidinhos mequetrefes sem que houvesse um novo dia?

Desculpe, mas não engulo essa maturidade travestida em licença para fazer coisas erradas. Heróis têm que inspirar e não que sair por aí fazendo o que bem entendem. Sei que o mundo é um lugar cinza e violento, mas cabe também a nós a missão deixá-lo um pouco mais alegre e aproveitável.

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17 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Matheus
    maio 11, 2009 @ 04:02:32

    Cara… é um verdadeiro alívio, consolo, saber q tem gente no mundo q ainda pensa assim. Obrigado. Apoio e dou fé.

    Saudades da Carvena do Dragão onde crianças sabiam valorizar mais a vida e a honra que os adultos de hoje…

    Grande abraço!
    fique com Deus!
    boa semana!
    té +!
    Math

  2. Ivan
    maio 11, 2009 @ 12:50:39

    Acho que Watchmen foi feito para ser bem diferente das HQs padrão de super-heróis. Quando vemos o filme, logo temos um aviso em letras vermelhas explicando isso: Censura 18 anos. Eu não levaria minha filinha para ver Watchmen, assim como não levaria para ver “Spawn, o soldado do inferno”. Além de todos esses elementos que você citou, a história é um tanto complicada para qualquer criança, (agravado por não ter vivido na época da guerra fria, ficando difícil pegar o clima da época do filme).
    Acho que Watchmen cumpre bem a proposta que foi desenvolvido, mostrar um lado real e decadente do que seria ter super-herois no mundo.
    Assim como temos pessoas com “super-poderes” nas favelas, matando quem não concorda com o tráfico. Pessoas com “super-poderes” roubando muito dinheiro que deveria ser direcionado para saúde e educação de sua pátria. Pessoas com “super poderes” que abusam de autoridade. Isso tudo no mundo real, e apenas com os “super poderes” de seu cargo.
    Temos mil e uma histórias de super heróis que nos dá orgulho, inspiração e vontade de mudar o mundo. Watchmen não é uma delas, e não acho que foi feita para ser.

    Concordo com seu ponto de vista a respeito da educação que damos aos nossos filhos, e sei que a criançada curte muito mais o desenho “Avatar” (que é heróico), do que o Watchmen. E se o filme saiu com a mesma censura de um de “entretenimento adulto”(se é que vc me entende…) acho que não é uma boa deixar a criançada assistir.

    Um abraço, e parabéns pelo blog de qualidade!

  3. Ismael
    maio 11, 2009 @ 13:40:59

    Desculpe-me, Valberto. Mas isso me pareceu mais a mesma história dos nossos pais quando temem aqueles livros esquisitos que o filho carrega pra cima e pra baixo e se reúne com um bando de amigos cabeludos, esquisitos e que se vestem de preto. É apenas medo do desconhecido. No teu caso, medo do que esse tipo de mídia possa influenciar na criação dos teus filhos. A resposta é muito simples: nada. Ora, o que influencia os filhos são os pais. Todo mundo cansou de jogar RPG, jogou Mortal Kombat na infância (7-9 anos de idade) enquanto deliciava-se arrancando cabeças e corações do adversário. E ninguém se tornou pior (ou melhor) por conta disto. Tu tens um filho e é compreensível teu medo. O mundo se torna mais violento a cada dia. Mas nada disso é ligado a quadrinhos, videogames ou RPGs.

    E quanto a Watchmen. É válido não gostar. Realmente é impossível agradar a Gregos e Troianos. Mas o Watchmen não tem a intenção de jogar nas cinzas o mito do herói, é apenas uma história contada de uma perspectiva diferente. Onde todos, até mesmo heróis podem se corromper em algum momento. E como é uma história que lida mais com o lado dramático da coisa e é mais parecida com o mundo real, por isso o sucesso de crítica. Os personagens são super-heróis, mas isso é só uma demoniação dada por nós. O mundo realmente é muito menos maniqueísta. Me divertir muito com Homem-Aranha, me diverti com Watchmen. O clima é apenas diferente. Tal qual como quando escolhemos ver um filme de comédia e um de terror. O clima é diferente e não esperamos as mesmas reações. Mas há quem prefira comédia e quem prefira terror. Nada de errado nisso. Mas acho pretensioso se por acaso exista alguém que acha que mídias de entretenimento violentas torne alguém violento. É procurar culpar as pessoas erradas.

  4. SandBaby
    maio 11, 2009 @ 15:14:31

    A violência ficticia não chega nem perto da violência real. O filme, é apenas um filme, e os super-herois, não inspiram nada, nem ninguém, a não ser a alienação azul-vermelha.
    O watchmen é uma crítica. A violência é um reflexo deturpado. Heróis não existem, e se existissem seria bem próximo a watchmen, muito poder nas mãos de poucos para decidir o que fazer.Apenas corrupção.
    Watchmen não é para educar, nem wolverine, nem Super-man, são apenas para entreter. Educação parte da análise critica de tudo q nos rodeia até do entretenimento.
    Um bom exemplo dos que os hérois são é descrito na HQ PRO do Garth Ennis.
    Cada um curte oq quiser, e se algo lhe incomoda, não precisa consumir.
    Ah…watchmen não é uma historia de hérois, é uma graphic novel que satiriza os hérois, altamente politizado no contexto de guerra fria da época, e mesmo assim no final o mundo se unifica EUA e URSS, mesmo não sendo hérois eles salvam o mundo…a duras penas e com muito custo.

  5. valberto
    maio 11, 2009 @ 16:09:44

    Chapola, vc não entendeu. Minha crítica não tem nada a er com o que c citou. Ora, eu jogo rpg com o meu filho e sei bem diferenciar as coisas. O que me cheteia é essa estranha tendência de colocar para os adultos tudo o que não presta. Se é assim por que estou educando o meu filho para ser um adulto que tudo o que o mundo adulto tem a oferecer é lixo? Eu não gosto mesmo da obra citada e gosto menos ainda da endeusação que acomete sobre ela. A impressão que dá é que esta história não é mais real ou ionteressante que a de Ghandi ou a de madre Teresa.
    minha bronca é colocar aquela história de caras que não são heróis, são super seres como se fosse a mior de todas já contada.

  6. Ivan
    maio 11, 2009 @ 18:46:51

    Esse assunto é interessante de se pensar.

    Não acho que Watchmen é a melhor revista de super seres, até porque isso é bastante relativo. Eu gosto muito dela, assim como gosto muito de Sandman. As duas são mais indicadas para adultos, pois adultos tem a vivência necessária para entende-las (e a capacidade de não gostar do que entendeu, como você fez).
    Da mesma forma, muitos filmes de segunda guerra são indicados para adultos por serem violentos, mas tem o bem contra o mau muito bem definido.

    Eu acho que TUDO que é feito pode ser consumido pelo público adulto, desde Harry Potter, até O Exorcista (diferente do público infantil, que fica protegido de muita coisa pesada).
    Conheço muitos adultos (como a minha irmã) que odeiam filmes (e HQs) como Watchmen, e preferem os mais maniqueístas onde o bem vence o mau, onde os bons são incorruptíveis e sempre prevalecem no final.
    Questão puramente de gosto.

    Eu conheço ótimos filmes adultos que falam muito bem de que as pessoas devem manter seu bom caráter. “Homens de Honra”, “O resgate de um campeão” e “Os Intocáveis” são alguns deles.

    e ainda em tempo: Em Watchmen temos heróis sim, fantasiados que deixam de lado sua vida cotidiana para fazer o que acham certo para o mundo. O que não podemos achar é que todos os personagens são heróis. Alguns deles (como o Comediante, com a sua visão de mundo distorcido) são vilões, e estão lá para corromper os heróis.

  7. Kleverson Neves
    maio 11, 2009 @ 23:03:00

    Essa paranóia está na nossa cabeça. Ninguém sai por aí esfaqueando, explodindo, atirando e matando só por ter visto tom e jerry ou o pica pau quando criança, desenhos violentíssimos. Não podemos esquecer ou deixar nossos filhos esquecerem que essas obras são apenas quadrinhos, livros, filmes, desenhos animados e outro tipo de ficção, não realidade. Essa percepção do que é realidade e do que é produto de nossa criatividade, imaginação. Daqui a pouco vamos ter medo de pesadelos, como se pudessem influenciar a forma como vamos viver.

  8. valberto
    maio 12, 2009 @ 01:01:45

    Acho que estamos perdendo o foco. Todo mundo aqui sabe o que é um herói?

  9. valberto
    maio 12, 2009 @ 03:23:08

    Vc já teve a impressão de dizer que quer frango com batatas e ver o garçon anotar “peixe grelhado com molho tártaro”? E depois receber macarrão à bolonhesa com molhe de pequi?
    Estou sentindo isso agora lendo algumas respostas. Talvez seja a hora de lapidar melor o texto…

  10. Léo
    maio 12, 2009 @ 10:27:21

    Penso que os personagens supers de Watchmen são anti-heróis. Assim sendo, fica mais fácil de compreender a atitude deles. Creio que a ideia da HQ, bem como a do filme é a de apresentar heróis por meio dum prisma diferente; se encararmos a coisa por este viés, acho a ideia dos caras bastante válida.

    Como já foi dito aqui, existe espaço para tudo; tanto para o maquineísmo, tanto para os filmes que preferem trabalhar sem este tipo de conceito. Acho importante ter essas duas modalidades.

  11. Alexandre
    maio 12, 2009 @ 12:27:07

    Acho que o Valberto está criticando a inversão de valores que vivemos.
    Como quando ele cita o Wolverine, por exemplo. Fatiar pessoas não devia ser uma coisa “legal”.
    Assim como matar trocentas pessoas com a desculpa de salvar o mundo também não deveria ser aceitável.

    Em que momento trocamos a diplomacia para resolver as coisas com um monstro gigantesco?

    Antigamente, os heróis lutavam contra monstros e a natureza. Só que hoje os monstros são pessoas.
    O Wolverine sai fatiando policiais e todo mundo diz “cool man”.

    Realmente, hoje vivemos um tempo em que heróis e adultos são aqueles que fazem coisas erradas. E talvez seja por isso que Watchmen é para adultos.

    Porque, sob certas circunstâncias, os adultos precisam fazer coisas erradas, sabendo que as estão fazendo.

    Essa é a vida real:
    O embate do moral contra o necessário.

    Também não curto Watchmen. Longe de ser uma obra ruim, mas eu só acho que não há nada de tão fantástico lá.

  12. Jagunço
    maio 12, 2009 @ 16:09:36

    “Cada um curte oq quiser, e se algo lhe incomoda, não precisa consumir”.
    Seria realmente interessante se as coisas fossem assim. Mas não são, não é? Quero dizer, algumas mídias criam “normas”, modas, etc. E, o que penso que algumas determinações de “adulto” as vezes geram é a noção de

  13. Jagunço
    maio 12, 2009 @ 16:18:58

    (Meu post “foi” antes da hora… Vou continuar:)
    …que “herói” é algo ingênuo, não-adulto.
    As enormes e constantes referências críticas ao maniqueísmo fazem parecer, vez ou outra, que é possível viver sem referências morais ou sem indicativos éticos. Será?
    Gostei do filme como entretenimento. Mas, de fato, entendo ele como uma crítica ao mundo moderno e como uma variação na perspectiva (positivo porque original). Não penso que a idéia seja “mais real” do que algumas leituras de Homem-Aranha ou mesmo Batman (é o filme manjadão). Por que? Porque lutas morais e resistências à corrupção são coisas “bobas”, impossíveis? Não acho. Acho que há dramas reais e que o mundo pode ser sujo como no cenário em questão… Mas… ele não é menos fictício por isso. Apenas coloca a lupa em outro lugar, “exagerando” conspirações e até mesmo tendências à corrupção.
    Ele coloca, claro, algumas questões sobre certo e errado, sobre os sacrifícios necessários ao heroísmo, sobre algumas relatividades desse processo, mas não é, por isso, mais adulto ou mais competente. Watchmen é uma boa literatura, porque faz pensar… Mas não é mais verossímil por isso. Peter Parkers são tão possíveis quanto Coringas (você, como leitor, pode escolher se por ingenuidade ou força moral, não importa)
    Bom texto, Valberto.

  14. valberto
    maio 12, 2009 @ 20:40:40

    Ah bom… heheheh…
    pensei que eu precissaria psicografar o resto…

  15. Heitor
    maio 13, 2009 @ 00:00:10

    Bom, o título da obra é “Watchmen”: seus personagens não são “heróis”, como o Superman; são somente vigilantes, foras-da-lei, insanos e com uma visão deturpada de mundo, devido a algum trauma; o tipo de gente que quem tem juízo que não se mete. E não é 100% uma obra “madura”, mas pode ser considerada 100% adulta. Conteúdo adulto simplesmente é aquele que não deve (ou deveria) se visto por crianças, por conter violência e sexualidade gratuitas; mas que no final das contas podem ter roteiros dos mais fanfarrões.
    Material “maduro” simplesmente é aquele que trata os assuntos abordados com a seriedade exigida; é aquele em que ninguém (normal) vai ver todos como demônios ou estrupadores que riem de suas vítimas.

    Tendo isso em mente, não há desculpa alguma para se surpreender com as atrocidades do filme (que tem classificação 18, né?). Mas se a amiga do Valberto foi ao cinema guiada somente pelo hype da mídia sobre “supers adultos” ou “maior HQ de toddos os tempos” (ou “direção do Zack Snyder”…), o erro foi dela, que não se informou. Ou seja, o Valberto não tinha nada que se constranger por não ter um argumento para retrucar à sua distinta amiga. Afinal, se você loca um filme pornô em uma locadora, sem prestar atenção na capa, porque achou que era uma COMÉDIA devido ao título ambíguo…

    (E Alan Moore com certeza É doido. Rorschach é doido (sem comentários); Manhattan é inumano; Espectral é maníaca depressiva; Ozymandias é megalomaníaco; Comediante, louco varridíssimo; e o Coruja…, bem, se só gonsegue ter prazer com fantasia de super…; CONCLUSÃO: os personagens são desdobramentos da personalidade do “Deus dos “Quadrinhos”…)

  16. Rob Ville
    maio 17, 2009 @ 16:40:51

    Só posso dizer que você saiu do assunto…

    Watchmen não é para inspirar, é para pensar. É para que você pense: poxa, tem um cara vestido de máscara que sai na rua todo dia destroçando os bandidos, será que ele é um cara bom? Por que ele faria isso? O que ele ganharia com isso? Se ele não dorme à noite, deve dormir durante o dia, então como ele paga suas contas?

    Watchmen é uma história para quem está cansado de ver uma realidade perfeita todo dia nos quadrinhos dos supers (tá, não é mais assim…). É para quem entende que o mundo é imperfeito, e que se os supers fossem reais, eles seriam imperfeitos.

    E se você foi convencido pelo argumento de sua amiga, então você está tendo preconceito contra os quadrinhos, achando que quadrinhos são coisa de criança – ou pior ainda, devem ser apenas coisa de criança. Quadrinhos é uma linguagem que existe, e qualquer um pode usar esta linguagem para fazer o que quiser, inclusive propaganda de cigarro.

    Watchmen realmente mostra várias atrocidades, mas a história faz isso, por um motivo muito simples: esta era a intenção – e foi muito bem executada.

    Mas se você ainda estiver preocupado com o futuro de seu filho, aqui vai uma dica: não deixe ele ler/assistir Watchmen, Sandman, Preacher… Talvez nem seja bom ele assistir Yu-Gi-OH!, porque tem pacto com o demônio, ou Tom & Jerry, porque incita a violência…

  17. valberto
    maio 17, 2009 @ 21:34:49

    A contagem dos que não entenderam a mensagem subiu para +1.

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