Heróis, vilões, anti-heróis e porque Watchmen não é um filme sobre super heróis.

 

Faz alguns dias escrevi um post descrevendo porque eu não achava que Watchmen era “maior estória de quadrinhos de super-heróis já contada”. Na ocasião recebi muitas questões e comentários – alguns dos quais, tenho certeza, não entenderam a mensagem que eu queria passar. Sendo assim resolvi escrever este segundo texto mais como um apêndice ou glossário de idéias da primeira parte do que efetivamente um post novo.

Para começo de conversa, precisamos separar alguns termos e defini-los à guiça de compreensão. O primeiro deles é sem dúvida a terminologia que envolve o vocábulo herói.

Do grego ‘hrvV, pelo latim heros, o termo herói designa originalmente o protagonista de uma obra narrativa ou dramática, caracterizando este protagonista como uma figura arquetípica que reúne em si os atributos necessários para superar de forma excepcional um determinado problema de dimensão épica. Ou seja herói é aquele sujeito que consegue transpor obstáculos que a maioria de nós não consegue fazer. Muito além de ser meramente dotado com capacidades sobre-comuns, o herói desempenha um papel de exemplo dentro de uma cultura, uma vez que ele será guiado por ideais nobres e altruístas – liberdade, fraternidade, sacrifício, coragem, justiça, moral, paz – a busca pelo Graal, empreendida por Sir Percival exemplifica bem o herói arquetípico virtuoso clássico. Em algumas situações histórica-literária-estéticas temos pessoas dotadas que buscarão objetivos supostamente egoístas (vingança, por exemplo). Entretanto estas motivações serão sempre moralmente justas ou eticamente aprováveis, mesmo que ilícitas. É o caso de heróis como Robin Hood que subverte as leis “tomando dos ricos para dar aos pobres”. Aqui é preciso observar que o heroísmo caracteriza-se principalmente por ser, como diria Kant, um ato moral. Não podemos esquecer de um terceiro tipo de herói que foge ao arquétipo clássico de herói que reza uma pessoa de grande força ou habilidade: é o herói ocasional, acidental ou comum: uma pessoa que faz algum ato estranhamente espetacular, sem possuir nada de espetacular em si mesmo. O herói, em qualquer dos casos é retratado como dentro de uma grande relação ética quando aponta para o cuidado para com os seus pares.

A contra-parte do herói é o vilão. Inicialmente apenas uma pessoa que morava numa vila medieval o vilão ascendeu no ramo literário como a antítese do herói. Enquanto que o herói é coberto de predicados favoráveis o vilão não tem nenhum. O vilão clássico é representado por alguém ardiloso, desprezível, feio, fraco, maligno, covarde, manipulador e cruel. O exemplo mais patente que eu posso pensar desses dois lados da moeda de herói e vilão são respectivamente He-man e Esqueleto. Seu embate de forças fica claro de seus nomes até suas aparências e comportamentos.

Entre o herói clássico, lindo, bonito e joiado e o vilão clássico, feio, sujo e mal situa-se o anti-herói. O anti-herói é o termo que se emprega para alguém que protagoniza atitudes referentes às do herói clássico, mas que não possuem vocação heróica ou que realizam as façanhas por motivos egoístas, de vaidade ou de quaisquer gêneros que não sejam altruístas. Ou seja, é alguém que tem sim um poder acima da média, mas o usa como bem entende. O conceito de anti-herói surgiu após vários autores modernos de Literatura e Cinema apresentarem vilões complexos, com características que criam empatia com o leitor ou espectador. A grande diferença destas criaturas para os vilões ou os heróis é que eles são muito mais próximos do ser humano comum. Não são bondade encarnada de Jesus Cristo e nem a malignitude feita em carne na figura de Satanás.

Muitas vezes é difícil traçar a linha que separa o anti-herói do vilão; no entanto, note-se que o anti-herói, diferente do vilão, sempre obtém aprovação, seja através de seu carisma, seja por meio de seus objetivos muitas vezes justos ou ao menos compreensíveis, o que jamais os torna lícitos. A malandragem, por exemplo, é uma ferramenta tipicamente anti-heróica. Outro tipo de forma é a matança desenfreada – quando há um motivo.

Ao que parece o livro de Maquiavel, o príncipe, é o livro de cabeceira de qualquer anti-herói, uma vez que eles empreendem a filosofia do “fins justificam os meios”. O mais famoso anti-herói dos tempos modernos – e um dos maiores responsáveis por sua popularização é o personagem de quadrinhos chamado Wolverine (cujo mote é: sou o melhor naquilo que faço e aquilo que faço não é nada agradável).

Foi bom ter tocado no assunto do baixinho invocado. Isso nos leva a uma nova definição dos termos. O prefixo super. Até a década de 30 a expressão super herói não existia. Veio ao mundo provavelmente em relação a alguma outra coisa “super” que no fim das contas emprestou o sufixo para quase todo mundo: de supermercados até super petroleiros: o último filho de Kripton, Kal-El, ou como nós conhecemos, Super Homem.

O Super Homem inaugura uma era de super coisas. Não bastava ser um herói, mesmo que fosse um escolhido ou filho dos deuses olimpianos. Você tinha que ser super. Os quadrinhos norte-americanos da chama era de ouro e de preta deram as cores e as regras para se fazer super heróis e super vilões.

Foi com a chegada de novos heróis, na década de 60, que o mundo teve mais um pega com esse lance de supers: a super família não perfeita (o Quarteto Fantástico), o super herói azarado e com problemas para pagar o aluguel (o Homem-Aranha) entre tantos outros. Foi um alonga caminhada desde que a primeira teia do Homem Aranha fosse lançado e que a primeira vítima “justificável” do Wolverine caísse sem vida ao chão.

E o que essa explicação toda tem a ver com Watchmen? Simples. Ele não é um filme de super heróis. Ele é um filme de um super ser, cercado por um bando de anti-heróis e vilões fantasiados. Na verdade, se existe alguma coisa que W faz bem é nos levar a questionar com mais atenção o paradigma do tio Bem (Stan Lee): “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. A questão a ser tratada aqui vai bem além da questão semântica da terminologia assertiva a heróis e vilões. Vai para aonde estamos deixando o mundo ir. Se você esta de boa como as coisas estão, sem problemas. Mas se você está incomodado, vai entender porque eu não suporto que coloquem no mesmo patamar heróis (como Thor, por exemplo) com sanguinários justiceiros com um estranho senso de justiça e moral, desprovidos de ética (Wolverine, o Justiceiro, o Comediante…)

Espero que desta vez eu tenha me feito entender com mais clareza.

 

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4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Matheus
    maio 16, 2009 @ 22:45:50

    Bravo! Bravo!
    Queria conseguir dar corpo assim aos meus pensamentos.
    braços!
    fica com Deus!
    té +!
    Math

  2. RIta
    jul 01, 2009 @ 15:23:30

    Parabéns! Sou professora de Literatura para o Ensino Médio e precisava de um texto assim, claro e de linguagem acessível, para auxiliar meus “pequerruchos” a entenderem estes conceitos.

    Obrigada.

  3. Gabriel henrique
    dez 10, 2012 @ 20:10:04

    Eu concordo.

  4. rafaella
    out 29, 2014 @ 14:34:52

    AMEIIIII TD

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