Se não puder ter o mais caro, divirta-se com alguma coisa que você possa pagar

 

Engraçado como a vida nos prega peças e nos ensina preciosas lições no nosso dia-a-dia. Preciosas e fugazes. Tão breves que se você piscar o olho vai perder. E hoje, justo hoje eu consegui ficar sem piscar para poder aproveitar.

Domingo teve jogo aqui em casa. Mutantes e Malfeitores. Meu filho e sua trupe. Mais cedo eu fui convocado para pegar o meu Beto-mobile e ir até o mercado comprar provisões para a festança dos jogos. Chegando lá eu pensei em comprar uma Coca-Cola, mas o preço meio que me tirou de órbita. Daí eu vi uma Skin Cola por menos da metade do preço. Nem pensei muito e coloquei a danada na cestinha. Peguei também umas pipocas de microondas e estava pronto para voltar. Custo da brincadeira? Baratinho.

Chegando em casa o meu filho chiou pra caramba o fato de eu não ter comprado Coca-cola. “Isso tem gosto de água oxigenada” dizia ele. “Você não pode servir isso aos meus amigos! É uma vergonha”. Por fim, com a minha costumeira paciência e bom humor eu disse: “Faz assim, tu bebes água enquanto eu e teus colegas bebemos isso. Eu aposto que se eu colocar num copo a skin e a coca você não ia saber quem é quem”. De fato, no jogo ele ficou sem beber, por mais ou menos dez minutos e depois se rendeu. Os colegas dele comentaram que tanto faz o refri, desde que tenha refri. Pipoca e refri genérico descem bem e ajudam a manter o jogo divertido.

E qual é a grande lição? Você não precisa gastar 2,99 numa Coca-cola quando pode pegar 1,40 numa Skin Cola. Não precisa, porque no fim das contas a diversão vai ser a mesma. Aliás, para que comprar Coca-cola? Por que a propaganda disse que o resto era “refrigereco”?

E isso é uma coisa que se aplica a muitas coisas da nossa vida: eu sei que eu não preciso do livro mais chique, mais novo ou mais moderno para jogar. Posso usar só o que eu já tenho que já é coisa para catete. Meu pendrive genérico funciona tão bem quanto o Sony do meu colega. O meu SRD tem as mesmas regras do D&D. O meu M&M pode ser em preto e branco, mas ele esta aqui e em português – não devendo em nada para o seu primo “gay” em inglês.

Mas e o padrão de qualidade? Não estou pedindo para que ele seja ignorado. Só estou pedindo para que as pessoas dêem uma boa olhada no que já tem ou no que podem ter acesso com pouco ou virtualmente nenhum custo. Você não precisa do D&D 4E ou de qualquer outro livro novo para ter pessoas rindo em torno da sua mesa, se divertindo. Use o que já tem. Já está pago, não vai a lugar nenhum.

Acredito que assim como o resto do mundo, que também é uma produção humana, o RPG sofre com o problema da grife. Não basta usar um sapato bonitinho: tem de ser Nike, mesmo que seja Nike, comprado na feira dos importados por 50 reais. Não basta ser funcional, tem de ser comprada na feira de Ceilândia com a marca “Diessel” costurada no rego. Não basta ser RPG: tem de ser RPG de grife – mesmo que seja piratão PDF baixado da internet.

Tem muita coisa que você pode fazer com o que já tem. Aproveite.

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15 Comentários (+adicionar seu?)

  1. ByteWolf
    maio 18, 2009 @ 18:25:36

    Concordo totalmente!
    E digo mais, nem é preciso ter livros/pdfs, fichas e regras para se jogar um belo de um RPG. Basta ter um grupo de amigos e um pouco de criatividade que a diversão está garantida.

  2. Leonardo T.
    maio 18, 2009 @ 18:51:31

    Realmente, o pessoal acaba se prendendo muito no que pode consumir e se esqueçem do que podem aproveitar!
    Excelente post, Walberto!

    PS: Estou um pouco enrolado mais já, já, termino a edição o West Daemon! ^^v!

  3. Leonardo T.
    maio 18, 2009 @ 18:55:09

    *Valberto

  4. Ágatha Guedes
    maio 18, 2009 @ 20:27:12

    Não basta ser um evento de RPG, tem que ser o EIRPG. Esse ano acredito mesmo que esse rótulo vá ficar para trás.

  5. Mamangava
    maio 18, 2009 @ 22:44:28

    Sempre me lembro de um provérbio chinês:

    “Lamentar pelo que não temos é desperdiçar o que já possuímos.”

  6. Daniel R
    maio 19, 2009 @ 00:17:41

    Posso nem falar muito, já que tenho frescura com estética e qualidade. Mas que existem alternativas de qualidade mais baratas, sempre, isso é inegável. Por isso não largo meu D&D 3.5 e meu sistema próprio. =P

  7. d.darkangellus
    maio 19, 2009 @ 01:46:09

    Posso nem falar muito, já que tenho frescura com estética e qualidade.[2]

    Resumidamente, é isso que eu penso.

  8. fernandofenrirx
    maio 19, 2009 @ 02:47:36

    Posso nem falar muito, já que tenho frescura com estética e qualidade.[3]

    Qualidade para mim é essencial, não precisa ser “marca”, tem que valer o que estou pagando. Se o produto não oferece esse requisito, dispenso por outro, sendo caro ou barato. Se fosse para ter um RPGzinho barato e funcional, comprava o 3d&t… hehehheheh

  9. Jagunço
    maio 19, 2009 @ 16:35:51

    Só discordo do exemplo da Coca-Cola.
    Não tem comparação.
    E nem sou viciado. Bebo há 20 anos e nunca aconteceu de me viciar (a piada é velhinha, mas nós também somos, né Valberto?). XD

  10. valberto
    maio 20, 2009 @ 02:55:37

    Velho? As vezes me sinto um Matusalém.

  11. Remo
    maio 20, 2009 @ 04:08:13

    Um adendo em relação a roupas — a roupa bonita (um dos objetivos dela; se fosse só cobrir, um saco de batatas serviria) não precisa ser necessariamente de marca cara. Tem uma marca local de calças jeans daqui que, em termos de design, dá um pau na Diesel — e, de quebra, não machuca a conta bancária. Pagar pelo que diz na etiqueta, e não pelo design — e materiais e acabamento — é estupidez.

    Em relação aos RPGs, se pode dizer a mesma coisa. O D&D é “o melhor”, com seu impressionante livro colorido e, o que deve impressionar *realmente* a maioria, a marca. Enquanto isso, bem perto, temos livros como o Blue Rose, com sistema de regras e ambientação infinitamente mais interessantes e cujo livro, a despeito de ser P&B, é lindo de morrer (a vantagem de ter sido feito para ser bonito *em P&B*). É um livro que poderia ser traduzido aqui sem perder em nada a qualidade — ah, mas lhe falta “o mais importante”, a marca famosa.

  12. Trackback: O Poder da marca e da propaganda! « Pergaminhos Dourados
  13. rsemente
    maio 20, 2009 @ 11:46:49

    Ia comentar aqui, mas o comentário ficou grande e cmplexo, então vejam o comentário aqui: http://guerrasdraconicas.wordpress.com/2009/05/20/o-poder-da-marca-e-da-propaganda/

  14. ivanprado
    maio 25, 2009 @ 18:07:39

    belo post! Valberto vs. Branding.
    .
    .
    .
    nike por 50 reais?

  15. Nordestinus
    maio 26, 2009 @ 00:00:56

    Acho que esse post retrata tudo que eu penso em um jogo.

    Diferente do Daniel R, Darkangellus e do Fernando, eu analiso, em último lugar, a estética de qualquer coisa antes de comprar. Não acho errado, só tenho um pensamento diferente.

    Os livros que mais gosto da minha prateleira, são velhos livros de Gurps. Estou, inclusive, recomprando os que não tenho mais. Se um dia eu tiver a 4º edição de Gurps em português, vou usar todos os meus suplementos sem nenhum pudor. São feios? São sim, mas já paguei por eles e eles me devem diversão até que se acabem… hehehe

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