Vampiro bom é vampiro morto

O centro de velho de São Paulo pulsa como um coração de um doente termina de câncer ao fim do dia. As pessoas vão embora para suas casas, assustadas, deixando em seu lugar uma fauna quase tão primordial como o medo. Prostitutas, mendigos, traficantes e pessoas desafortunadas tornam a note do centro velho um lugar recheado de crime, morte e pecado. Um lugar onde o mal espreita a cada curva da rua mal iluminada, a cada banco vazio do cinema pornô 24 horas, a cada seio desnudo de travesti.

Se eu fosse uma criatura sobrenatural como um vampiro ou lobisomem eu adoraria morar ali. Poderia dormir de dia num dos inúmeros apartamentos fechados e á noite, caçaria. As mortes seriam atribuídas a outras feras da noite, bem mais temidas e “reais” que vampiros. O que eu teria a temer? Traficantes? Prostitutas? Sem teto? Bom, deve ter sido exatamente o que este vampiro ali pensou quando deixou o velho mundo para vir morar aqui. Ele tomou para si uma região perto da estação Luz do metrô e está usando o lugar como campo de caça. Não me apresentei ainda. Sou Demóstenes Maçaranduba, ou simplesmente “demo” para os amigos que eu não tenho. Delegado de polícia civil, eu fui prematuramente “aposentado” quando comecei a investigar casos como este. Engraçado como tem certas sujeiras que fedem muito mais quando você mexe com elas.

Engraçado foi como eu dei de cara com esta situação. Estava lendo alguns contos publicados por uma autora americana chamada Marcia Litman. Ela descreve as aventuras de uma dupla de caçadoras do sobrenatural “Julia e Clair”, cruzando os Estados Unidos à bordo de um Ford Corcel GT – 1972. Eu não sei de onde a menina tira as idéias para as suas histórias, mas os detalhes são vívidos demais para ser apenas ficção. Na verdade, ela poderia ensinar uma coisa ou duas para alguns autores de livros do oculto. De qualquer forma, uma de suas histórias, “O amor do Crepúsculo é apenas uma noite e nada mais” contava a história de um vampiro que se muda para o centro devastado de Nova Orleans, logo depois do Furacão Katrina e continua morando lá por anos, matando pessoas.

Eu não precisei ser mais espero que um garoto da 5ª série para juntar os pontinhos. Comecei a chegar as taxas de homicídios “estranhos” no centro e descobri alguns dados interessantes. Estes dados me levaram a me hospedar num motel de pulgas na Avenida São João. Alguns dias investigando e cá estava eu presenciando uma nova vítima do filho da puta. Era tarde demais para salvar o go-go-boy que se esvaía em sangue. Mas eu poderia seguir o maldito até a casa dele.

Segui o maldito de longe procurando impedir que ele me visse. Mas o miserável estava bem à vontade. Ele nem olhou para trás nem uma vez. Ele era o caçador supremo daquela selva de pedra. Nem sequer passava pela sua cabeça que houvesse algo ou alguém capaz de ameaçar o seu reinado. Pois bem, aqui estava eu não era só o reinado dele que eu queria por abaixo. O cara mora num prédio de apartamentos na santa Efigênia. É uma boa escolha se querem saber. Durante o dia o movimento de gente é brutal demais para um ataque e mesmo à noite era perigoso esbarrar num viciado em crack que perdeu a noção da realidade. Sem falar que encarar um vampiro que acabou de se alimentar é como tentar sair no braço com o Mike Tyson depois que ele se aqueceu. Tá certo que eu não sou nenhum franguinho. Tô em forma física excelente para um coroa de 50 anos, mas não tenho velocidade sobrenatural.

Achei que o melhor horário para dar cabo dele era durante a “mudança de turno”. É quando a cracolândia deixa de ser cracolândia para ser centro comercial durante o dia. Claro que os viciados não vão embora, mas pelo menos diminuem o ritmo. Cinco da manhã a minha chave mestra abre a porta do prédio. O posto de vigia tá vazio. Subo para averiguar os outros andares e preparar uma surpresinha na caixa d’água do prédio. Desço pelas escadas até o apartamento 012. Como sei que é o dele em meio aquele monte de lugar abandonado? Porta maciça e dobradiças novas.

Espero dar dez pras seis para abrir a porta do apartamento dele. Abro de leve, não quero despertar a bela adormecida. Entro com o rosário enrolado na mão, uma pistola makarov 9mm com 4 balas de prata no pente e a lanterna na outra. Atravesso a sala e dou de cara com um caixão. Como se fosse uma escultura de cera lá estava o maldito. Enfio a estaca no peito dele e marreto com o cabo da pistola. Sangue voa do ferimento aberto. Sangue demais para um vampiro. Antes de tirar a estaca percebo que estava atacando a geladeira do cara. Um decoy feito para enganar gente como eu. Não era á toa que ele andava como o dono do pedaço. Ele era o dono do pedaço.

O golpe me jogou através de uma velha porta de fórmica apodrecida para dentro de um dos quartos. A estaca e a pistola voaram para longe. A lanterna caída num canto iluminou o bastante do quarto para saber que seria melhor que ela tivesse quebrado na queda. Parecia que eu tinha entrado numa sala de torturas medieval. O corpo doía como se estivesse moído. Levanto com dificuldade quando uma nova pancada me acerta. Sinto como se fosse uma bola de fliperama, sendo acossada por todos os lados. Ele para. Os dentes à mostra. Ele não fala. E chega perto de mim. O hálito cheira a sangue, a podridão, carne estragada, suor e dor. “bem vindo caçador” ele diz se aproximando ainda mais. “Eu o vi me seguindo a dias atrás. Não achei que me encontraria tão rápido. Eu tinha preparado esta sala para o nosso encontro, algo longo e romântico, mas pelo visto, vou ter de contentar com uma rapidinha”.

Isso, vai falando miserável. Fala e me dá tempo de pegar um frasquinho especial que eu peguei a caminho daqui. Ele chega perto e o spray de pimenta voa na cara dele. Ele se afasta surpreso e lambe o spray do rosto.

“Pimenta? Não me afeta, seu tolo. Apenas estragou uma camisa nova”. É mesmo eu penso enquanto faço o sinal da cruz e me concentro nas palavras em latim. Quando termino de pronunciá-las a água do spray de pimenta vira água benta. É um feiticinho maneiro, sabe? Ele urra de dor quando a mancha no seu rosto. Eu levanto e acendo o meu isqueiro bic. Ele ri. “Não tenho medo do fogo. Isso não vai te salvar, maldito”. Não. O isqueiro vai. E levanto o isqueiro até o sistema anti-fogo do apartamento. O alarme não demora a soar e a casa de inunda com água da caixa d’água. Água benta agora, graças ao feiticinho. O bicho começa a se retorcer no chão. Eu caminho até a sala e encontro a minha espaça e a makarov.

Chuto o bicho para que sua carcaça fique de peito para cima e me preparo para martelar.

“Você não sabe como é”, ele sibila “viver sem o calor humano e sem a luz do sol. Ver os entes queridos nascerem, crescerem e morrerem. Não ter amigos. Viver esta meia-vida em meio á podridão da sociedade”. Tirando a parte do sol eu sei como é. Não que eu faça muita questão de um bronzeado. A estaca bate seco no peito do bicho. Corto a cabeça fora, colocando hóstias por cima de tudo. Não dá para não pensar numa versão Ana Maria Braga de caçadores de monstros. Então você pega o vampiro recém-estacado e sem cabeça e cobre com hóstias. Coloca assim para ficar bem bonito. Depois joga fluído de isqueiro ou querosene. Aqui usamos querosene javali diria aquele maldito louro. Depois se afasta e acende o fogo. Vampiro ao ponto.

Saio pela porta do prédio quando os bombeiros vão chegando um deles parece com o meu filho. Puxo o celular e penso em ligar. Para dizer o que? Nada. As padarias estão abertas. Será que descolo um pão quentinho com uma média e manteiga?

 

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7 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Onor
    jul 29, 2009 @ 03:42:56

    Bom texto!! Parabéns!

  2. Dr. H
    jul 29, 2009 @ 15:59:22

    MUito bom valberto!!

  3. Alexandre Fnord
    jul 31, 2009 @ 10:42:20

    Valberto, ese texto é seu mesmo? Muito legal…
    Isso é o Valberto atacando de escritor…
    Cuidados Dois Contos…

  4. valberto
    jul 31, 2009 @ 11:24:38

    Sim, o texo é meu mesmo. Escrevi um dia desses e está cheio de erros de digitação, que pretendo corrigir em breve.

    Eu tenho outros contos publicados aqui no Lote. Pode procurar que você encontra.

  5. Alexandre Fnord
    jul 31, 2009 @ 11:26:52

    Beleza, vou dar uma lida. Esse ficou realmente ótimo…

  6. MUITO BOM A TE DE MAIS
    ago 07, 2009 @ 21:58:22

    EU GASTE POREM FALTOU MAIS EXPICASAO SOBRI VANPIROS PARA MIM FALTO EM MAGEM KE DA MAIS UMA SERTA CURIOSIDADE MAIS EU GOSTARIA KE VC MIM FALASI QUEM ESCREVEU O FILNE CREPUSCULO PARA MIM ESTE FILNE E MUITO EM TERESANTE E PARA VC

  7. valberto
    ago 08, 2009 @ 02:21:08

    O filme Crepúsculo foi escrito por Stephenie Meyer. Nasceu em Hartford, Connecticut, filha de Stephen Morgan e Candy. Ela cresceu em Phoenix, Arizona, com cinco irmãos: Seth, Emily, Jacob, Paul, e Heidi. Ela frequentou a escola Chaparral High School, em Scottsdale, Arizona, e cursou inglês na Brigham Young University, em Provo, Utah, onde se formou em 1995. Meyer é membro d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Ela conheceu seu marido Christian, mais conhecido por “Pancho”, quando era pequena, casou-se com ele em 1994. Juntos, eles têm três filhos: Gabe, Seth e Eli.

    Crepúsculo (Twilight nos EUA), é o seu primeiro romance. Depois da sua publicação, Stephenie foi escolhida como um dos “novos autores mais promissores de 2005” pela a Publishers Weekly.

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