E se não existisse o Batman?

 

Um dos poucos momentos de lucidez que tive com o meu pai a respeito de assuntos “geek” veio à minha mente hoje. Eu e meu pai tínhamos pouca coisa mesmo em comum: amor à família, gosto pelo estudo de história e o fato de passarmos horas um ao lado do outro, em silêncio, assistindo televisão. Era uma das poucas coisas que fazíamos com muita freqüência. Ficar em silêncio ritual, guardando nossas opiniões – que quase sempre batiam de frente. Mas, como eu já disse num desses poucos momentos memoráveis, o meu pai soltou a seguinte pérola enquanto assistíamos a série clássica do Batman (Adan West, anos 60): “Esse programa é mesmo esquisito. Quem roubaria um banco enfiado numa saia do Egito? Só existe bandido fantasiado nesse programa porque o xerife também veste uma fantasia doida“. O meu pai se referia ao Rei Tut (Victor Buono) que tentava assaltar o banco de Gothan. Hoje as palavras do meu velho soam extremamente lúcidas. Lúcidas demais para o menino que gostava de Changeman que estava sentado perto dele.

Outra coisa que parecia completamente absurdo para o meu pai era a incompetência premente das forças policias de Gothan. “Esse gorducho aí só serve para fazer caretas” referindo-se ao chefe O’hara (Stafford Repp)
e o outro velho não faz nada além de usar um telefone. Poderiam ao menos contratar uma telefonista bonitinha, que nem a do James Bond.”

Eu já mestrei uma aventura que versava justamente sobre a morte de Batman, mas nunca pensei na “não-existência” do Cavaleiro das Trevas. O que poderíamos dizer sobre a vida “Geek” que conhecemos sem o bom Cruzado Embotado?

Primeiro que não teríamos um contra-ponto para o Escoteiro Azul, o Super Homem. Segundo que não teríamos alguns dos mais fantásticos vilões de todos os tempos: Coringa, Senhor Gelado, Chapeleiro Louco, Charada, o Mestre do Tempo… todos eles tem alguma relação com o Batman. Muitos foram criados pelo próprio morcego em suas tentativas de trazer justiça ao mundo.

A maior de todas as contribuições do Batman é mostrar que o “cara comum”, low level, apenas humano, sem nenhum super poder além da inexpugnável força de vontade e treinamento incessante poderia ser um dos maiores heróis da terra. O morcego faz a ponte entre a super-humanidade da Liga da Justiça e o mundano exacerbado do resto das pessoas. Ele serve para nos mostrar que nem só de visão de calor, laços mágicos e anéis de energia cósmica se fazem os heróis.

 

Anúncios

3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. nanorpg
    ago 22, 2009 @ 12:49:51

    “Ele serve para nos mostrar que nem só de visão de calor, laços mágicos e anéis de energia cósmica se fazem os heróis.”

    Não mesmo. Como diria um diálogo do Justiceiro, com um médico do mercado negro tirando uma bala do corpo dele:
    “Vai ser sem anestésico. Você agüenta?”
    “Tenho ódio pra agüentar mais uma vida inteira de dor.”

    Teu pai é caracu com ovo, Valberto, hahahahaha, home é trú.

    Ah, avisando também que foi lançado agora no site NanoRPG (Pronunciá Nanoerrepêgê, manhê!) o suplemento Invocadores, primeira obra/suplemento de Danilo Lima, com um lindíssimo layout e um novo sistema de magia para mesa baseado nas carats de Magic! Agora você pode usar seu baralho numa mesa de RPG!

  2. Arquimago
    ago 23, 2009 @ 20:47:39

    Realmente ele é uma ponte, o justiceiro também, mas o Batman é diferente ele está muito mais no meio do caminho. E também está mais ligado ao imaginário de “herói sombrio”.

    O justiceiro é mais um tipo de “efeito colateral”.

    Não li muito dos dois, me baseio mais em filmes, e artigos da internet. Me corrijam se preciso, assim falarei com mais base da próxima vez que uma discussão com os dois surgirem.

  3. Tio Lipe "Cavaleiros"
    ago 26, 2009 @ 00:10:12

    Olá!
    De fato eu não me imaginar gostando de outro herói que não seja o Batman, em parte pelo que vi nos filmes dos anos 90 e em parte por tudo aqui que o Batman representa nas suas diversas mídias. Acho que sem o Batman eu não teria a menor relação e interesse pelo mundo dos quadrinhos. Por isso agradeço ao fato dele existir como ser complexo que ele é (e não a galhofada da década de 60).

    Até and Bye…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: