Diário de um Sobrevivente: Capítulo 3

Capítulo III: Compras.

Maria ainda estava meio em choque quando parei o carro na frente dum supermercado de portas arregaçadas. Ela me olhou como quem perguntava “o que estamos fazendo aqui?” comentei que as armas eram legais, mas que não dava para comer pólvora. O lance era entrar no mercado e revirar o que sobrou dele em busca de comida e bebida. Ela parecia relutante, mas concordou. Quem não gostou nada foi o Maciel, mas quando ele visualizou a possibilidade de cravar os dentes numa barra de chocolate, ele concordou na hora. Entrei na loja apreensivo. Ela já tinha sido saqueada pelo menos uma dúzia de vezes antes. Não dava para encontrar lá nada que não estivesse vencido, amassado ou estragado. Assim que entramos o cheiro de carne podre tomou conta do ar. Engraçado como o cheio de carne de gado e peixe decomposto podem ser ainda mais fedidos que um zumbi. Peguei um carrinho e fui colocando coisas nele indiscriminadamente. Se for para fazer uma triagem, faria a triagem em casa, protegido dessas coisas.

Maciel pegou rápido o espírito da coisa e me ajudou a encher o carrinho com facilidade. Maria, de arma em punho, parecia mais interessada em vigiar possíveis visitantes indesejáveis. Eu gostei dela tomar essa iniciativa. Pegamos quase tudo que queríamos quando ouvi alguma coisa caindo sobre uns engradados vazios de refrigerante. Maria tinha acabado de dar cabo de um zumbi com um golpe de pá bem no meio da testa. Mas o danado não estava só; os desgraçados nunca estão. Passei a mão numa marreta que milagrosamente tinha sido esquecida na seção de ferramentas para o lar e corri na direção dela. O golpe foi certeiro e esmagou a cabeça do zumbi contra uma coluna de pedra. Voou pedaços de cérebro e ossos pra todo lado, mas eu não parei. Dei mais uma balançada na marreta e acertei um terceiro zumbi. O impacto levou o desgraçado com roupa de marinheiro ao chão, esmagando também a cabeça dele. Virei para ver como estava a Maria, mas ela já tinha dado cabo de mais dois. Pareciam os últimos. Eles são lentos, comentou ela. Um a um é fácil de ganhar, basta macetar a cabeça. O problema é quando estão em grupo. Movimente-se sempre, não fique parado e nunca se deixe ser cercado.

Terminada a conversa Maciel passou por nós arrastando dois carrinhos cheios de coisas. Viramos tudo em cima da carroceria da caminhonete e seguimos para casa. À medida que avançamos em direção ao meu fortim Maciel mostrou parte do espólio que tinha conseguido: uma caixa de chocolate ao leite que tinha sido esquecida debaixo de uma estante e uma garrafa de vinho esquecida nas mesmas condições. Abrimos o vinho e mastigamos o chocolate. Maciel ligou o rádio. Só estática. Mas sacou um CD de música pop e colocou imediatamente. Quando comecei a ouvir Britney Spears desafinar nos auto falantes do carro foi que me dei conta de quanta falta fazia ouvir música. Mesmo que fosse Britney. Maciel arriscou uma piada. Fraca. Mas todos rimos. Foi a primeira vez que ri em quase um ano.

Pegamos a saída para o Valparaíso e descemos pela vila agrícola. Passamos pelo centro do Céu Azul – um loteamento cheio de casas semi-construídas e barracos abandonados – e depois de dez minutos estávamos na primeira porteira do sítio. Expliquei a eles que o sítio era na verdade uma grande fazenda que foi dividida em sítios menores de 20 mil metros cada. A minha propriedade tinha sim 20 mil metros quadrados e era cercada por arame farpado, mas apenas a casa da fazenda era murada de verdade. Passamos por uns mata-zumbis. “Mata-zumbi” foi o nome que eu dei aos fossos no meio da estrada com lanças de madeira no fundo. Adaptados direto da idéia dos mata-burros que funcionam como porteiras para gado e cavalos. Chegamos em casa pouco antes do anoitecer.

Devo admitir que o tal do Maciel era uma verdadeira fadinha do sorte. Já fazia tempo que eu não ia num supermercado para trazer tanta coisa boa de uma tacada só. Tinha muita comida em conserva, sopas em pó, arroz e feijão bem conservadinho – com poucos vermes e insetos dentro – assim como algumas guloseimas como chocolate e bebidas quentes. Toda a divisão foi feita à luz da fogueira que toda noite eu acendia no terreiro. A fogueira era boa para aquecer, cozinhar e poupar o motor elétrico á gasolina que trabalhava sempre em rotação mínima para manter a geladeira funcionando. Também ajudava a economizar gás. Só usava o fogão quando precisava esquentar alguma coisa muito rápido.

Fizemos uma divisão rápida do material e colocamos um canjão no fogo. O cheiro dos temperos envolveu o ar e jantamos. Maciel arriscou mais algumas piadas mas não foi tão bem sucedido. Percebi que Maria não desgrudava os olhos de um rádio de ondas curtas que eu tinha sempre na varanda. Não era um modelo novo, mas era um rádio amador semi-profissional de ótima qualidade. Dava para captar e comunicar com qualquer rádio amador no Brasil e com alguma sorte, no mundo todo. Mas desde que o fornecimento de luz tinha sido cortado ele estava mudo. Expliquei para ela que a peça funcionava sim e muito bem, mas que eu não usava para poupar o gerador.

Ela perguntou se podia ligá-lo. Eu disse que tudo bem. Fui com ela até o rádio, expliquei como ligar e o que fazer se o motor elétrico emperrasse – coisa que estava acontecendo com uma freqüência amplamente irritante desde a última semana. Ela começou a mexer no aparelho e em poucos instantes já usava funções que eu nem desconfiava que aquele peso de papéis transistorizados tinha para oferecer. Logo o Maciel juntou-se a ela, ajudando a checar freqüências. O negócio era ir de freqüência em freqüência, uma por uma em busca de alguém na escuta. Fiquei olhando aquele monte de “alô, cambio, freqüência 00-qualquer coisa” e logo aquilo me entediou. Dei boa noite pros dois e avisei que quando terminassem era para desligar da tomada.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Janary Damacena
    ago 28, 2009 @ 20:09:43

    Cada vez mais eu curto essa história. Sempre uma situação bem diferente sobre uma catastrofe mundial! Está melhor que a maioria dos últimos filmes que vi sobre o assunto. Betão, vc podia tornar a história mais frequente no blog hein…
    Abs

  2. valberto
    ago 28, 2009 @ 21:03:01

    Quem disse que eu me lembro de escrever e de postar esse troço? O capítulo 12 esta sendo escrito.

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