Diário de um sobrevivente: Capítulo IV

Capítulo IV: Na garagem do Combão.

O Maciel disse que sabia dirigir moto, e não mentiu. Pilotava bem pra cacete e esquivava com facilidade dos zumbis que encontramos rodando nas ruas. Engraçado que sempre que eu ia para algum lugar conhecido, como o Gama ou as cidades de Santa Maria e Pedregal eu sempre encontrava com zumbis vindo em minha direção e nunca em sentido contrário. Era estranho. Mesmo quando eu voltava para casa era como se os bichos estivessem sempre vindo no meu encalço, na minha direção. Nos primeiros dias eu nem me importei muito, mas com essa movimentação toda eu comecei a ficar cabreiro.

O nosso destino era uma garagem de ônibus. A garagem da Viplam ficava no setor de indústrias do Gama – quase uma hora de moto, na avenida principal da cidade. Entramos pelo portão dos fundos, em busca de um carro especial. Estava em busca de um carro de reboque. Um carro de reboque era uma peça especial: uma mistura de ônibus e caminhão reboque que podia arrastar sem problemas um ônibus inteiro. Ou seja, tinha muita força e potência, caso precisarmos arrancar alguma coisa como carros ou destroços. E mesmo que eu não precisasse usar toda aquela força e potência poderia rodar com ele a 120 por hora – coisa que nenhum trator ou retro-escavadeira poderia fazer. No mais, tinha espaço para mais de seis pessoas sentadas e um sem número em pé. Poderia não ser ecologicamente correto, mas era a peça que eu precisava, já que não tinha nenhum tanque M-4 na região. A minha idéia era ir na cabine, pilotando, com a Maria como navegadora e o Maciel como artilheiro, na carroceria. Era um bom plano e tinha boas chances de dar certo – se sairmos vivos da cidade.

Deixamos as motos na calçada e seguimos pelo portão aberto. Passamos o pátio de entrava e por um corredor lateral ganhamos a garagem. Descemos da moto. Pouco mais de dez zumbis ali. Falei pro Maciel dar fim neles sem fazer barulho, no estilo corre e bate. Ele concordou, apertando o cinto. Corri pela direita, com um taco de baseball que eu sempre trazia na moto, golpeando o primeiro zumbi na altura dos olhos. O bicho convulsionou no ar e caiu no chão com a cara partida e o nariz esmagado. Por garantia dei mais duas bordoadas no porta-chifres dele até que o miolo espalhou no chão. Um a menos. Maciel estava se saindo bem, macetando com um cassetete e um martelo, numa técnica bem interessante: ele pinava o bicho contra a parede com um golpe de cassetete e depois descia a martelada na cabeça. Era rápido e mecânico, como uma jogada ensaiada, dessas que o cobrador de falta fingia o chute e outro cara cobrava para o gol. E para a nossa sorte os zumbis faziam uma defesa mais lesada que a do corinthians. Levou pouco mais de dez minutos para que detonássemos todos os zumbis dali. Perguntei pro o Maciel se ele estava ok e ele disse que sim.

Corremos ao encontro do carro. Era como eu havia descrito, só que todo amarelão. Com um enorme guincho de aço na carroceria e um pára-choques de respeito. Imaginava que dava para fazer um estrago e tanto com qualquer coisa que fosse beijar essa beleza quando ela estivesse a 100 por hora. Entramos na cabine, mas estava sem chaves. Resolvemos nos dividir e procurar. O Maciel não se afastou de mim mais do que vinte passos quando eu dei para trás e mudei de idéia. Não vamos nos separar não – eu disse. Ele respondeu: Beleza… Valeu cara, estava cabreiro de andar por aí sozinho.

Perambulamos pelo escritório. O chão tava imundo e estava tudo revirado. Tinha uns cadáveres apodrecendo num canto: ao que parece não viraram zumbis. Estavam apodrecendo normalmente, entende o que eu digo? Quer dizer, a praga dos zumbis começou faz tempo e tem zumbi do começo da praga solto por aí, se decompondo muito devagar. Devagar mesmo. Seja lá quem eram aquelas pessoas mortas naquela garagem, nenhuma se levantou com fome de intestinos. Eram os primeiros que eu via assim.

Passamos pelo departamento pessoal e encontramos o cofre da empresa arrombado. Vales-transporte e dezenas de notas de cinco e dez reais espalhados pelo chão. Hoje não me dão vontade de nada. Sei que o mundo não vai voltar ao normal e papel daquele jeito que estava não servia nem para limpar a bunda. Mas tinha algo que me chamou a atenção. Um saco cheinho de moedas de cinco centavos. Deveria pesar uns cinco quilos ou mais. Aquilo eu tinha de pegar. A liga das moedas de cinco centavos era boa e fácil de derreter. Poderia fazer muitas balas de espingarda socadeira com aquele monte de cobre. Lá fora o sol começava a passar do meio dia. Daqui a pouco o sol ficar mais quente o que fazia os zumbis ficarem numa agitação doida. Nos apressamos ainda mais nas buscas. Achamos uma escada bloqueada para o segundo andar. Cheia de móveis e cacarecos empilhados, com dois zumbis estribuchados no chão, cabeças perfuradas por armas de fogo. Começamos a desmontar a barreira, pois as chaves se ainda estivessem na empresa só poderiam estar lá em cima. Foi quase duas horas antes da gente conseguir um cantinho apertado para subir. Subimos.

Lá em cima estava tudo mais ou menos organizado. Parece que alguém se refugiou lá em cima por uns tempos. Imagino que tenha sido o vigia do lugar e mais alguns motoristas, pegos quando a bomba de merda estourou. Uma das paredes estava marcado com aquela “caixinha” que ajuda a marcar o tempo. Você sabe, faz um traço para cada dia fazendo um quadrado e no quinto dia faz um traço em diagonal. Pelas minhas contas os pobres diabos agüentaram ali em cima mais de seis meses. Água eles tinham de sobra, por causa da caixa d’água do prédio, mas o que comiam? Não vi latas de comida ou sacos de salgados em parte alguma. Encontramos um quarto fechado por dentro. Na porta dele tinha um cadáver seco de um homem mediano vestindo uma puída roupa de vigia. Nas mãos uma espingarda calibre 22 e na cintura uma revoler 38. Peguei os dois, mas antes de passar a mão no material do cara dei-lhe uma bela tacada na cabeça. Prevenir nunca é demais.

Arrebentamos a porta. Caraco, nada do que eu tinha visto até agora tinha me preparado para aquilo. Deveria ter umas dez, dozes pessoas penduradas em ganchos como se fosse carne no açougue. Algumas estavam semi-devoradas, mas todas apresentavam mordidas. O cheiro de defumado me atingiu a cara. Puta merda! Algum desgraçado salgou esse pessoal como se fosse carne seca defumada e começou a devorar aos pouquinhos. Merda! Tinha crianças ali, crianças! Era um bando de salame defumado em forma humana!

Sai de lá fazendo força para não vomitar. Despejei tudo o que tinha no estômago e mais três vezes o eu não tinha pela sacada do segundo andar. Virei pro cadáver do vigia e comecei a socá-lo. Não havia técnica ou precaução. Eu só queria destruir aquele filha puta e todo o resto dos malditos que estavam com ele. Só parei de bater quando o Maciel me puxou. Calma cara! Ele gritava…O cara já passou desta pra melhor. Vamos procurar as chaves e dar o fora daqui. Eu me afastei. Mas que bosta. Passamos para a segunda sala. Lá estava cheio de roupas e com um monte de garrafas sobre a mesa, a julgar pela sala ali era onde o vigia e seus amigos canibais ficavam. Sacos de sal grosso estavam estocados ali, ajudando a oxidar tudo naquela salinha infecta. Tinha um molho de chaves numa estante perto. Pegamos e descemos. Cara, como eu odeio gente. Se havia um motivo plausível para deus ter nos esquecido no meio desta pocilga, um dos motivos pelo menos, estava lá em cima.

Estávamos chegando ao caminhão quando ouvi o alarme da moto disparar. Não era nenhum “car system”, mas no meio daquela tarde de derreter asfalto ai chamar todos os zumbis das redondezas. Corremos na direção da moto e foi quando vimos: era uma moça de moleton, com uma touca ninja, com uma espada japonesa nas contas. Sério. Ela parecia uma versão paraguaia de Kill Bill, com aquele modelito. Ou pelo menos alguma otaku que se salvou. Ficamos naquela troca de olhares tensos, num silêncio desconfortável, em meio ao alarme da moto.

Olhei para ela e ela olhou para mim. Momentos longos de silêncio, interrompidos apenas pelo barulho da moto e pelo som ensurdecedor da minha respiração e do meu coração batendo. Por fim ela disse: desculpe, não sabia que a moto era sua. Ok, eu respondi, desligando o alarme.

Eu sou Mina, ela disse. Nome bonito, Mina. Filha de japonês com brasileira. Eu já a tinha visto alguns anos atrás na TV: ela era campeã brasileira de kendo ou coisa que o valha. Na época tinha 14, cabelos curtos, pele pálida e nenhum peito. Oi, eu disse, sou… mas não deu para dizer. Fui interrompido pelo grito do Maciel.

Maciel vinha logo atrás de mim, com o cassetete em punho. E tinha um zumbi atrás dele. Correndo. Eu nunca tinha visto essas coisas correrem. O bicho era rápido e ágil como um corredor de Le Parkur. Parece que a farda do Maciel tinha despertado algo no zumbi, sei lá. Alguma coisa ruim. O bicho pulou por cima do Maciel, ficando entre ele e nós. Ele atacou com um facão de cortar mato. Era só o que me faltava: um zumbi que corre, pula e ainda usa um facão.

O Maciel esquivou do primeiro golpe. O segundo resvalou no cassetete dele, arrancando uma pontinha. O bicho sabia como usar aquele facão e o facão estava afiado. Peguei o taco de baseball e acertei nas costas do bicho. Juro por deus, parecia cena de anime: o golpe jogou o zumbi para o lado e ele caiu de quatro no chão. Cuspiu sangue como um cavaleiro do zodíaco e fez força para se levantar. Ela me olhou com raiva, como se um olhar pudesse arrancar minha cabeça fora. É, era “ela”. Uma mulher com roupas de ginástica e corpo tão musculoso que pensei que fosse “ele”. E pulou para cima de mim, com os dentes pontudos e arreganhados. Me pegou de surpresa. Era o meu fim…

Ou outra cena de anime. A Mina saltou, dando uma finta para a frente de desferindo um golpe vertical com aquela espada dela. Resultado: um quarto de zumbi caiu de lado se estribuchando no chão. A outra metade caiu em cima de mim, ainda se debatendo. Sério: gritei feito fã de Zezé de Camargo em show ao vivo tirando aquela nojeira de cima de mim.

Acertamos que a Mina ia com a gente. Levamos as motos para dentro e colocamos em cima do caminhão. Ligamos o que eu batizei de expresso 666, uma alusão ao expresso Gama/Plano Piloto 2666 que eu nunca conseguia pegar para ir ao trabalho na asa sul todo santo dia. Pegamos a estrada. Só por garantia eu passei o truck por cima da bombada corredora da academia. Não tinha mais nada a perder…

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Janary Damacena
    ago 31, 2009 @ 21:09:49

    Muito bom Valberto, cada vez mais a história fica interessante! To gostando um bocado viu, ainda mais que você postou duas partes bem “juntinhas” se é que me entende. Continua assim!
    Abs

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