Diário de um sobrevivente – Capítulo VI: Render-se nunca, retroceder quando preciso.

Rodamos mais vinte quilômetros, capengando, o barulho do motor cada vez pior. Esperava que fosse apenas alguma coisa solta que voltaria pro lugar, mas quando o radiador explodiu numa branca nuvem de vapor quente percebi que estávamos encrencados.

Paramos no acostamento, logo depois do meio viaduto que dá acesso ao Catetinho. Ali, às portas do Country Club de Brasília Maciel abriu o capô e olhou não demorou muito para dar a sentença de morte. Esse motor já era. E olha que nem foi a sua pancada. A manutenção dessa joça deveria ser uma bela porcaria. Esse motor tá pedindo asilo desde o fim do governo Collor. Quando ele terminou de falar não pude deixar de pensar que em algum lugar daquele inferno, o desgraçado do Canhedo (dono zumbi da Viplan) deveria estar rosnando para o vazio como um zumbi sem miolos. Aquele pensamento reconfortante durou pouco quando vimos nossas parcas opções.

Primeiro não poderíamos voltar. Lá atrás deveria ter pelo menos uns dez mil zumbis que passo em falso posso bom estariam no nosso encalço. Eles estavam vinte quilômetros lá atrás, mas pelo que eu sei as pragas não param à noite para descansar. E poderia ser que houvesse mais de um macaco de academia naquele mundo de coisas mortas ou algo bem pior. Voltar, sem a proteção adequada, estava amplamente fora de questão.

Segundo, com o carro fora de combate, éramos alvos fáceis. Vá que naquela zona de mansões que estávamos não tinha lá muita gente, mas não quer dizer que estivesse limpa de zumbis. Se demorássemos mais por ali era capaz de cruzarmos com um ou outro daqueles sacos de carne. De rodas tínhamos as duas motos, que se não fossem blindadas, pelo menos eram ágeis. Ágeis, mas não davam conta de desviar de mil zumbis. Outro bloqueio como o que tivemos e não ria sobrar de nós o bastante para encher um dedal de máquina de costura.

Terceiro, não que eu quisesse dar uma de Rambo, mas a nossa munição não ia lá muito bem. Chutei quando disse que tínhamos gastado a metade no combate lá atrás e não estava tão longe da verdade. Sobrou bastante bala de 9mm pras pistolas, mas poucos cartuchos de escopeta. A F-22 também estava com pouca munição e era nossa única arma de longo alcance mesmo. Os molotovs provaram que eram plenamente inúteis, a não ser para acender fogueira.

Quarto e último, o tempo me preocupava. Nos dois sentidos: tempo de horas e tempo de clima. Ia escurecer logo e ninguém queria ficar no escuro cercado por sabe deus lá quantos zumbis. E para piorar a situação, uma pá de nuvens compactas se aproximava. Era assim mesmo em Brasília: numa hora estava o maior “solão” e no momento seguinte caía o maior pé d’água. E era o que estava parecendo. Um trovão reverberando ao longe deu fim à nossa discussão.

Até onde eu posso ver – começou Maria – temos poucas opções. Acho que o ideal é sairmos em dois grupos em busca, principalmente de abrigo e um veículo em condições de nos levar. Pode ser um carro da polícia, um carro forte, alguma coisa fechada e capaz de rodar. Para abrigo qualquer coisa defendível e que nos proteja da chuva; e com saída para os fundos. Cada um leva um rádio e vai para um lado. Qualquer coisa, só chamar. Não tentem bancar os heróis. Queremos chegar ao plano todos juntos e resgatar aquele pessoal.

“Resgatar aquele pessoal”… parecia piada. E quem é que ia nos resgatar? De qualquer forma eu fiquei com a japa numa moto e a dupla M&M foi na outra. Segui no sentido Plano e os dois seguiram sentido Santa Maria. Não esperava encontrar nada de útil, mas fui andando devagar, menos de trinta por hora, olhos atentos na pista para desviar de alguns carros abandonados ao longo do caminho e de alguns buracos que a falta de manutenção provocou. A japa não se agarrava em mim. Ia com as mãos segurando na parte de trás da moto, como se a qualquer momento que precisasse saltar da moto. Eu gostava dessa postura. A menina tinha instinto de sobrevivência e não ia confiar a vida dela a mim sem motivo. Era menos uma para que eu me preocupasse em salvar caso a merda voasse no ventilador – de novo.

Rodamos um pouco e demos de cara com o posto da polícia rodoviária federal. Ou o que sobrou dele. Estava todo abandonado. Parece um bom lugar para começar a procurar abrigo, ou mais alguma coisa. Dei uma volta na construção averiguando se havia algum carro. De certo que sim. Vários. Um verdadeiro depósito de carros abandonados, com certeza apreendidos quando o mundo ainda era mundo. Havia de todos os tipos, a maioria rapinada e com sérios sinais de abandono. Tinha de tudo mesmo, incluindo uma van. A van encheu meus olhos. Era um veículo razoavelmente ágil e robusto, uma van perua kia 2003, com os nomes “esolar” pintado ao lado. O “c” havia sumido. Parei a moto por baixo de um pé de pau e avançamos devagar. Saquei a escopeta e engatilhei. A japa sacou a espada e ficou andando poucos metros de mim, o corpo retesado, pronta para ação. Olhei para a van e puxei o trinco da porta. Fechada. Só podia. A chave ou estava no posto da polícia ou mofando em algum detran por aí. Espero que minha sorte estivesse me ajudando que estivesse na primeira opção.

Seguimos para frente do posto. A porta estava aberta, trancas intactas. O lugar foi abandonado mesmo. Abandonado e saqueado – aliás como todos os lugares que eu entrei desde que a crise começou. O escritório estava todo revirado, mesas e cadeiras destruídas, papéis por toda parte e escuro pacas. Parei na porta, sentindo o ar. Os mortos têm cheiro ruim e dar uma boa fungada na porta pode ser a diferença entre viver e morrer. Dei uma boa fungada e espirrei logo depois. Nada. Ia andando e fungando como um perdigueiro. A japa se continha para não rir, mas ela mesma fazia todo o trabalhão para pisar de leve e com segurança no chão. Chegamos até a sala de depósito com um armário de ferro grande, fechado por trás de uma grade. A grade tava arranhada e uns ferros meio retorcidos – alguém tinha tentado arrebentar o lugar, mas não tinha conseguido. O cadeado era dos bons. Olhei para Mina e disse: Olha, dá para abrir isso com tiro de pistola. O que você acha: arriscamos? Pode ter zumbis em volta e o tiro pode atraí-los. O que você me diz? Ela olhou em volta relaxou a espada e guardou na bainha e olhou no fundo dos meus olhos. Me dá a makarov, ela disse, você atira melhor do que eu. Fica de guarda. A essa distância não posso errar.

Dei a arma para ela, destravada e passei o básico do tiro: mãos juntos na coronha da arma pernas afastadas, joelhos flexionados e puxando o gatilho de leve… ela ouvia com atenção, concordando com a cabeça. Dei uns passos para trás e me posicionei virado para a porta da entrada: se o tiro atraísse alguma coisa eu detonaria com calma e segurança. Na medida do possível, né? Tudo poderia dá errado. O tiro ecoou pela sala, somado ao estampido do cadeado estourando. Segundos de zumbido e de apreensão até que nada aconteceu. A japa chegou para mim e entregou a arma. Deixa que eu assumo, ela disse, vai ver o que tem lá atrás.

Abri o portão de ferro e depois a estante. Foi como eu pensei: tinha coisa importante ali: multas e registros de foto sensor. Tinha também uns pacotes de drogas apreendidos, algumas armas (tudo baixo calibre), um pouco de contrabando geral, mas nenhum molho de chaves. Juntei o que eu achei que ia servir (sabe como cocaína pode ser usada como analgésico se precisarmos fazer uma cirurgia de emergência) e coloquei tudo na sacola. A japa deu uma fuçada na sala e achou um rifle winchester 22. a mira estava fora de sincro, mas com alguma sorte ela funcionaria com munição 9mm. Lá fora a chuva começou a desabar. Verificamos as portas e trancas. Estava tudo funcional. Se a gente não tinha nada para rodar na estrada, pelo menos havia descolado um lugar para dormir. O rádio que a japa carregava começou a chiar. Dava para escutar a chuva do outro lado da linha: Achamos um carro. O chiado era terrível. Como vocês estão? Acharam algo? Mina se apressou em responder que tínhamos um bom lugar para dormir, no posto da polícia rodoviária. Os dois concordaram de pronto em vir para cá e depois de um câmbio final, Mina arrumou uma dessas cadeiras reclináveis e se jogou em cima, se estirando como uma gata.

Ela pediu, depois de uns minutos de silêncio. “Me fale de você, cara” cortou o silêncio desconfortável da sala. A adrenalina da luta já tinha baixado, estávamos cansados e a guarda querendo ceder. Sentei num canto, puxei do bolso um maço de cigarros e acendi um. “O que você quer saber?” perguntei, juntando uns papeis no chão para fazer uma fogueira perto das celas de detenção provisória. “Qualquer coisa”.

Pensei no que dizer. Poderia dizer de como eu cresci com o meu pai, um fino ladrão de carros que passou os últimos dezesseis anos da vida na cadeia, até que morreu no dia de pegar condicional atropelado por um ônibus. Poderia contar que depois de viver com ele e ver o meu pai sendo preso umas dez vezes o meu avô, pai da minha mãe, resolveu me criar num sítio perdido no interior. Foi lá que aprendi a caçar e a usar armas de fogo. Aprendi a sobreviver. Poderia dizer que tinha perdido a virgindade com uma caipira de Caldas Novas, num carnaval “mutcho loco”, à bordo de um fusca 78. Poderia dizer coisas que deixariam a japa de cabelo em pé. Em vez disso, disparei:

– Minha cor favorita é o amarelo, eu torço pelo flamengo e meu signo é libra. Meu nome é… – a porta abriu. Maciel entrou todo encharcado, mas com um puta sorriso na cara. Atrás dele a Maria vinha com mais um.

Não vai adivinhar o que achamos. Começou Maciel…

Anúncios

3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Janary
    set 11, 2009 @ 22:28:42

    Pow Betão, para com isso! Parou um capítulo paracendo cena de “Continuamos no próximo episódio” hehehehehehehehe mas está bem legal, to curtindo bastante a história. Diz uma coisa, quantos capítulos terão, ou você ainda não escreveu tudo?
    Abraços

  2. valberto
    set 12, 2009 @ 01:35:08

    Eu pretendo fechar em 15. Estou escrevendo o 12 neste momento, mas é sem prazo algum para ficar pronto.
    E sim, foi descaradamente um momento “continua no próximo capítulo”.

  3. Tsu
    set 12, 2009 @ 05:24:12

    huahuaa…terminar no suspense é sacanagem.
    também to curtindo a estória

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: