Diário de um sobrevivente – Capítulo VIII: Reflexões sobre o nada.

 

Depois do café da manhã – achocolatado em pó com leite em pó e água da chuva fervida, juntamente com alguns biscoitos de validade indefinida colocamos o pé na estrada.

Eu sabia que a estratégia dos caras era a melhor. De moto eu tinha agilidade para escapar de uma situação como a da turba que vimos ontem. E com o FAL com mira telescopia eu poderia ver bem além e dar todas as coordenadas para os caras. Além do que estava sozinho de novo e de certa forma eu gostava disso. Era bom ter outras pessoas para conversar, mas desde que o pessoal tinha chegado eu ainda não tinha soltado um “peidinho gostoso”. Você sabe. Daqueles peidos “o que morreu nas suas calças?”. Depois de ter batizado a calça nova com alguns “filhos da puta” eu toquei em direção ao Núcleo. Era estranho ver a estrada daquele jeito. Tinha uns carros abandonados no meio do caminho. Populares e pequenos. A maioria com marcas de bala. Lembrei do que Maria me contou. Isso aqui deveria ser uma área de segurança qualquer. Ninguém entra e ninguém sai. Eu sei como militares podem ser chatos com esse tipo de coisa, ainda mais quando o assunto é o perímetro de segurança nacional. E não podia esquecer nunca que eu estava em Brasília: um perímetro dentro do Goiás.

Do outro lado da pista vi a mansão do ex-governador Roriz. Pensei em dar um pulo lá e ver como aquele desgraçado tinha aplicado todo o dinheiro que me roubou esses anos todos. Mas agora, que sentido tinha? Ele morreu, com certeza. Um tipinho daqueles não teria sobrevivido. E a julgar pelo portão arrebentado alguém já tinha tido a mesma idéia. Olhando pelo outro lado eu vi um quiosquinho desses de vender coco gelado à beira da estrada. Estava tudo igual como sempre foi nos quiosques desse tipo: as luzes acesas mesmo durante o dia, a música brega sertaneja tocando no dvd e a geladeira fazendo aquele barulhinho… Peraí! Luz acesa? Música tocando? Tinha eletricidade aqui? Caceta!

Parei a moto e corri para dentro do estabelecimento gritando por alguém. Foda-se se tinha zumbis lá dentro. A Makarov já tinha saltado do coldre para a minha mão quando eu entrei no lugar. Vazio. Abandonado. Mas de geladeira cheia. Cervejas. Dezenas delas, geladinhas, apetitosas, pedindo para serem abertas, derramadas sobre um copo limpo e bebidas. Fazia mais de um ano que eu não tomava uma geladinha. É incrível como certos prazeres se perdem para nunca mais voltar.

Sentei a bunda numa cadeira tirei a porra da música sertaneja e coloquei o único CD de rock que eu achei no lugar ara tocar: “80’s gratests rits”. Mas que se dane. Era rock e eu tinha cerveja. Era o mais perto da normalidade que eu chegava em meses. Tomei duas bem rapidinho, muito antes de me preocupar com a Maria e os outros. Eles veriam o Quiosque, com certeza e parariam para uma geladinha. Mais quatro cervas desceram limpinho pela minha garganta quando eu vi uma premium importada gelando, esquecida num canto. Quando virei de costas lá estava ele.

Era uma droga dum zumbi. Coloquei a mão no coldre e lembrei da makarov em cima da mesa, lá na frente do bar. Desarmado meio bêbado. Só podia ser pior se ainda estivesse tocando sertanejo. Tentei correr para a mesa, desviando do bicho – o que foi bem fácil de fazer, mas quando chego na mesa, tropeço em qualquer coisa e caio. Abro os olhos sonolentos, a canela doendo como se um centro-avante de time de interior tivesse me dado um carrinho por trás e vejo o zumbi vir na minha direção. Caceta, não dá tempo de fazer nada. Mas dae a merda do zumbi continuou andando em direção a minha mesa onde uma cerveja sem rótulo estava esquentando pela metade. Ele sentou na mesa, bateu o pé no ritmo de “send me an angel” do Scorpions e começou a beber a cerveja. Fiquei olhando uns minutos, incrédulo. Dae, abri outra e coloquei na mesa. Ele grunhiu como se estivesse agradecendo. E tantas quanto eu colocasse ele bebia. Sentei do lado dele e comecei a olhar mais de perto, makarov na mão. Ele parecia daqueles tipos que quando em vida eram chegados num happy hour. Terno velho e surrado, sapatos imprestáveis e aquele fedor que só zumbis com o rabo cheio de cerveja podem ter. Tomei cerveja do lado dele e ainda propus um brinde. O desgraçado levantou o copo.

Eu não sabia o que fazer. Poderia ser uma alucinação ou algum espasmo nervoso antes da morte, mas fato é que ninguém ia me acreditar. Ninguém ia acreditar no quiosque com luz elétrica, ninguém ia acreditar no zumbi que toma cerveja e pior, ninguém ia a creditar que eu sei cantar “Rock you like a hurricane” sem errar. Foda-se. Dei um tiro na cabeça do zumbi e derramei o resto da cerveja nele. Desliguei o som e as luzes do bar, tomando cuidado para cobrir as geladeiras com uma manta velha. Se tudo, mas tudo mais desse errado eu já tinha um cantinho para morrer feliz.

Peguei a moto e segui em frente. Pelo radio Maria avisava que tinha de trocar um pneu. Imagino se havia um macaco capaz de levantar aquele blindado. Novidades – perguntou ela. Nenhuma – respondi – só um zumbi que resolveu tomar cerveja aqui comigo. Maria não riu e desligou.

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3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. João "joaoecb" Brasil
    set 15, 2009 @ 17:46:48

    Está ficando cada vez melhor…. Uma que coisa que notei lendo e relendo os capítulos com calma é a evolução da estória. Notei que tu estás bem mais tranquilo e ganhando desenvoltura no transcorrer da aventura. No que está muito mais tranquilo e se permitindo certas pirações próprias de quem está dominando o seu meio sem stress. É gritante a diferença dos primeiros dois capítulos para este último… espero que não sejam apenas 12!!!

    Abração….

    P.S.: Já imaginou se eles, depois de tantos meses, recebessem uma resposta, via radio amador?!?!?!

  2. Tsu
    set 15, 2009 @ 18:34:52

    kkkk esse episódio foi o melhor
    uma ceva gelada é melhor ainda no apocalipse zumbi

  3. janary
    set 16, 2009 @ 17:00:22

    Betão, nem acreditei nesse capítulo…. tu tá tomando aulas com o George Romero? Depois que ele voltou está fazendo algumas coisas bem nesse estilo. De qualquer forma, nunca mais vou “ver” um zumbi da mesma forma hahahahahahaha
    Abs

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