Diário de um Sobrevivente – Capítulo IX: Problemas serão problemas

A cabeça doía como o inferno. O cheio de fumaça me sufocava e enchia meus olhos de lágrimas. O corpo inteiro doía especialmente a perna esquerda. Senti alguma coisa me puxando e me afastando de um calor com cheiro de óleo dissel. Desfaleci. Por um momento achei que fosse daqueles meus pesadelos, mas era algo pior. Era de verdade.

Quando dei por mim estava encostado num tronco de árvore, ao longe o Urutu queimava numa coluna de fumaça que dava para ser avistada a quilômetros de distância. Merda, pensei tentando me levantar. Mas que porra tinha acontecido? A tontura me fez voltar ao tronco da árvore e eu fechei os olhos tentando relembrar as últimas coisas que tinham acontecido. Eu me recordava apenas de termos pego a estrada para a W3 passando pelo Aeroporto. Quando estávamos chegando ao balão do aeroporto tudo virou um flash e uma concussão.

– Que belo estrago hein?

Ouvi de longe a voz da Maria. Ela encostou alguma coisa na minha boca e engasguei com o sabor de azedo. Soda tônica quente e provavelmente estragada.

– Que porra que aconteceu? – perguntei ainda de olhos fechados.

– Eu não tenho certeza – ela disse tomando outra dose da água tônica – acho que batemos numa mina terrestre. É a única explicação. Numa hora estávamos na estrada e na outra estávamos rodando e capotando.

– Quem me tirou do carro? Foi você?

– Foi o Maciel. Ele saiu de moto para conseguir alguma coisa.

– E a japa? – perguntei, finamente abrindo os olhos e firmando a cabeça.

– Tá morta. – ela respondeu – tá bem ali, amarrada na outra árvore. Eu não tive coragem de dar cabo dela. Daqui a pouco ela vai virar zumbi. Era ela quem tava dirigindo. Bosta! – ela chutou um pedaço de pedra numa placa de transito. O som ecoou dentro do meu ouvido.

Nossa situação não era nada boa. Uns dez quilômetros atrás da gente tinha um estouro da boiada de zumbis. Na frente tinha um campo minado. O nosso carro estava agora contribuindo para o fim da camada de ozônio e junto com ele queimava nossas armas, munições e alimentos. Tomei mais um gole da água tônica. O gosto estava melhor. Levantei e fui em direção da árvore. Maria me olhou com espanto. Mas depois se acalmou. Saquei a makarov e engatilhei. Cheguei perto da japinha. Ela já tava quase virando. Cadáver fresco que morria de pancada demorava mais para virar zumbi – pensei. Apontei a arma na direção dela. Mas não tava certo. Dei uma olhada em volta. Apontei de novo. Não tava certo mesmo. Guardei a arma e voltei.

– Você também não teve coragem não é mesmo? – nem respondi e continuei procurando – não faz mal. Olha. Deixamos ela aí… as cordas que eu usei são fortes. Ela não vai sair dali. Eu também gostava dela.

O choro parecia que ia surgir no rosto da Maria a qualquer instante. Dava para ver os olhos mareados. Mas aquela tigresa jamais choraria… Rodei mais um pouco ouvindo a Maria se justificar. Até que achei o que eu queria. Voltei até a japa. Olhei para ela. Tinha terminado de virar. Ela abriu os olhos brancos leitosos, a cara cheia de veias saltadas e machada de sangue pisado e rosnou com os dentes estourados. É… a pancada tinha sido feia mesmo. Saquei a katana dela e dei um golpe de cima para baixo, em diagonal, tentando cortar o pescoço dela. Errei feio e tirei fora metade da cabeça dela, mais ou menos da altura do nariz para cima. Coloquei a espada de volta na bainha e disse baixinho: Banzai, japinha.

De longe deu para ouvir o motor da moto. Era o Maciel voltando. Tava mais que na hora de colocar um ponto final nessa bosta de missão resgate. Peguei a makarov e pus no coldre e a espada na cintura. Pensei em deixar a arma para a japinha, mas pensando bem a espada era afiada pra dedéu e fala sério… se eu fosse morrer, que fosse ao menos estilosamente, com uma espada de quatrocentos anos na mão.

Maciel parou a moto e desceu com alguns mantimentos e roupas. Tudo roubado da fila de veículos que começava a se formar mais um quilômetro na direção do aeroporto.

– Tem uns carros lá que a gente pode usar. Nada blindado e tudo com pouca gasolina, mas vi uma 4 por 4 que aprece em boas condições. Ta entre uns outros ferros velhos mais com algum trabalho podemos liberar a danada em uma hora ou duas. Tem um caminhão da coca cola mais abaixo, abandonado. Bastante refri.

– Tá e depois? – perguntei seco, de saco cheio dessa merda toda.

– Como assim, depois?

– Depois. Depois de pegarmos a caminhonete e os mantimentos.

– Vamos para o plano piloto. Tem gente lá ou será que você esqueceu? – disse Maria.

– Quer saber de uma coisa, dona? Poderia ter a Pámela Anderson lá, peladinha numa cama de motel me esperando que eu não dava a mínima. Quer saber, estou com vontade de pegar a minha moto e voltar pro Gama. Tenho um sítio perfeitamente seguro que eu posso ficar mais um tempo.

Ninguém disse nada. Olhei de novo. E fui montar na moto. Daí o Maciel perguntou:

– E depois?

– Depois eu morro lá, de fome ou de sede, ou mordido por uma praga dessas. Mas nem a pau eu dou mais um passo em direção a essa porra de Plano Piloto.

– E como você vai passar pelo estouro da boiada? – perguntou Maria, me olhando como se eu tivesse brochado na lua-de-mel.

Olhei em volta e apontei para o setor de mansões que passava bem do lado da pista que estava impregnada de zumbis. Eu já tinha pensando naquele plano de fuga. O Urutu não passaria por ali, mas com a moto eu tinha grandes chances de conseguir.

– Vou pelo mato. Se quiser vir comigo, Maciel, ta de boa. Ajudo a arranjar outra moto pra você. E pra você também Maria. Mas nem de graça eu vou pro Plano Piloto.

– Então é um adeus – disse Maria com um boné do Bope na mãos – Então leva isso. É para dar boa sorte.

Aceitei o boné. Maciel estendeu a mão. Apertei forte. Era a despedida. Antes de sair recuperei algumas coisas do Urutu que não virarm cinzas retorcidas. Liguei a moto e segui beirando a cerca de arame farpado. Não olhei para trás. Não havia sentido. Era o começo do fim.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. João "joaoecb" Brasil
    set 21, 2009 @ 19:34:21

    Quando isso vai virar roteiro de filme???

    Muito bom mesmo!!!

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