Diário de um Sobrevivente – Capítulo XI: Hora de caçar.

Olá meus poucos leitores de Diário de um Sobrevivente. Hoje entramos nos cinco últimos capítulos da saga. Sendo assim por causa dessa especialidade toda eu pretendo colocar apenas 1 capítulo a cada duas semanas. Sei que é um pouco chato esperar, mas é o tempo que eu preciso para finalizar a saga.

Então, sem mais delongas…

Era incrível como os seres humanos são capazes de pegar qualquer coisa á sua volta e usar das formas mais diferentes. De certo quem é mais velho como eu, se lembra de uma série de TV chamada profissão perigo onde um carinha chamado McGyver transformava todo tipo de coisa em todo o tipo de outra coisa. E era com o espírito do ator (deus o tenha em bom lugar) que eu bolava o que tinha de fazer. Não tinha mais laptop com o mapa do lugar, mas eu tinha ainda os catálogos telefônicos. Arranquei cada página de mapa e tracei a melhor rota até à 504. Isso, partindo do lugar onde deixei Maciel e Maria. Com sorte e com a Ecosport eu poderia chegar neles antes que caíssem nas mãos dos rapineiros.

Juntei o mapão com fita crepe e segui viagem. O caminho era pior do que eu imaginava. Não tinha como saber se eu estava no rumo certo – não havia qualquer indicação de que o caminho estava correto. Até que eu vi que estava no caminho certo.

Seguindo pela pista do aeroporto, passávamos sobre uma ponte que ficava ao lado do zoológico. Quando digo passamos era isso mesmo. A ponte não existia mais. Havia sido dinamitada ou coisa que o valha. Do lado de cá um 4×4 em boas condições repousava ao lado de uma fogueira de dois dias e restos de miojo. Passaram por ali, com certeza. Abandonaram o carro, cruzaram o rio a pé e seguiram viajem. Mas por onde atravessaram o rio? Rodei por mais de 40 minutos de um lado a outro, procurando um lugar para passar com a moto quando achei uma pontezinha de madeirite apodrecendo num canto. Ela levava de uma trilha do meu lado do rio a continuação desta trilha, mato a dentro, do outro lado. Era uma boa opção. Não dava para confiar que eu encontraria uma moto do outro lado ou um carro em condições. Tinha de ser rápido.

Passei a ponte sem problemas e segui pela trilha de barro. Desbanquei num amontoado de barracos de medeirite e lona. Uma invasão. Invasões eram comuns no DF: pessoas que não tinham casa ou moradia invadiam um pedaço de terra, loteavam e construíam. Viviam por lá até serem despejadas pelo governo ou até serem regularizadas. Cidades e bairros no DF nasceram como invasões, como é o caso da Vila Telebrasília. Mas eu não tinha tanta sorte de estar num lugar assim tão exclusivo como a Vila Telebrasília. Parecia mesmo que eu tinha era entrado numa grande ratoeira. O lugar era um silêncio só. Coloquei a moto em baixa rotação, aproveitando o declive para ir silencioso, com a embreagem puxada. Foi quando eu ouvi os sons. Eram característicos de uma boa surra.

Num canto quatro homens surravam sem parar um quinto homem, caído no chão, amarrado dentro de um saco, só com a cabeça de fora. Os quatro eram negros e tinha feições animalescas. As roupas estavam apodrecidas e esfarrapadas, coladas sobre a pele manchada de vergões purulentos. Mais a esquerda uma mulher loira, amarrada num saco em mesmas condições gritava silenciosamente, como se não houvesse mais som para sair de sua garganta. Gelei sem saber o que fazer. Puxei a makarov, arrumei o boné do BOPE, desliguei a moto e gritei: Polícia! Todo mundo parado. Dois deles correram instintivamente. Um ficou me olhando com cara de besta e outro partiu para cima de mim. O tiro da makarov arrancou um pedaço de carne do ombro dele. Eu não queria matar. Afinal de contas era outro ser humano. Bom, era o que eu pensava. Não deu outra: o ombro explodiu como se fosse um saco de pus deixando o osso branco à mostra.

Dei mais dois tiros antes de me esquivar de seu ataque. Um na barriga e outro na altura do peito. Uma makarov 9mm é uma das pistolas mais confiáveis do mundo. Seu stopping power é comparável a uma ponto quarenta. Mesmo assim o bicho ainda arfava, babava e vertia pus por todos os buracos que fiz nele. E pior ainda vinha na minha direção. Um soco bem dado dele me fez voar por cima de uma lona fedida jogado minha pistola para longe. Levantei com custo, para levar outra muqueta nas fuças. Puxei a espada e balancei como um menino brincando com uma espada de plástico. É engraçado. Eu tinha visto mais de um milhão de filmes de Chambara, Kill Bill e até uns animes de samurai, mas nada disso transparecia no jeito que eu segurava a espada. Era como se um bobo da corte bancasse o cavaleiro. Bom, bobo da corte ou não a espada estava afiada demais e um dos braços do bicho foi embora em outra explosão de pus. O segundo golpe veio com mais estilo e a cabeça do zumbi – eu acho que era um zumbi – rolou longe.

Virei para o lado que estava o outro, mas só achei um canto limpo. Era a minha deixa: fui checar o cara, que infelizmente já tinha passado desta para melhor – ou para pior, já que os olhos leitosos significavam uma coisa apenas… Fui até a mulher. Eu a tirei do saco. Ela estava lanhada pra cacete, mas sem nenhuma mordida ou arranhão. Ela tentou falar e eu disse que era melhor não. Vamos pegar minha moto e dar o fora. Peguei a makarov e subimos na moto.

Acelerei com ela pelas ruas recheadas de barro e sujeita até que vi um asfalto brilhando de longe. Era a saída. O problema era a multidão de sacos de pus correndo atrás de mim. Alguns com vergões tão extensos e tão cheios que espirravam como suor a cada passo que davam. Mas uma coisa que eu aprendi é que nem Carl Lewis é mais veloz que uma moto. Não ia ser um bando de zumbi que ia me alcançar assim. Passei tunado por sobre outra ponte de madeirite, que separava a invasão do resto do mundo. Peguei a espada e de um talho só a ponte foi ao chão. Um zumbi ainda tentou pular, mas caiu no barranco provocado pela erosão e a água da chuva. Enquanto me afastava, juro que ouvi algo como “fiadaputa” sendo gritado. Deve ser só a minha imaginação.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Barney
    set 29, 2009 @ 04:03:34

    Puta cara, que decepção… huhuh
    Já havia visto esses contos, faz uns 10 dias… aí eu pensei… vou esperar um dia propício (quando eu tivesse paciencia) e ler um monte juntos. Resultado: acabei com todos em uma hora, tou numa adrenalina louca pra passar a espada em um zumbi e descubro que vou esperar umas 2 semanas pra ler a outra parte? Assim voce acaba comigo, cara!!
    Mas, brincadeiras a parte, está muito bem escrito. Como eu disse, passa bem o clima de paranóia que o Chuck Norris brazuca aí deve estar sentindo…
    Abraços, Betão!!!

  2. João "joaoecb" Brasil
    set 29, 2009 @ 12:55:11

    Ótimo….

    Vai ser uma tortura esperar duas semanas!!!

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