Diário de um sobrevivente – Capítulo XII: Sem meias palavras.

Capítulo XII: Sem meias palavras.

 

Acabei de lembrar de novo do McGyver. O cara era capaz de transformar um tubo velho de pasta de dentes, um macaco hidráulico, duas pilhas e uma florescente queimada numa bomba atômica. Era de um desses que eu precisava agora. Estava de volta na pista que dava acesso ao plano, num desvio lateral feito para atender as necessidades crescentes dos novos condomínios verticais que ali se instalaram. Era uma pista bem larga, mas estava anoitecendo. E anoitece muito rápido em Brasília. Tudo o que eu não precisava era de um bando de zumbis na minha cola no escuro. Não sei como, mas os malditos sacos de ossos enxergam muito bem à noite.

Resolvi que aquele posto em construção abandonado poderia ser um bom lugar. Tinha muito entulho perto e nenhuma casa nas quadradezas. Estacionei a moto dentro de onde deveria ser o escritório do engenheiro responsável pela obra e finalmente dei uma boa olhada na mulher. Era loira e baixinha. Magra, cabelo liso e curto, desses que dá trabalho cuidar quando ficam mais longos. Meia idade. Chuto uns quarenta e cinco para cinqüenta anos. Ela pegou um pedaço de papel no chão e com um taco de carvão escreveu: “obrigado”. Perguntei se ela era muda. Ela disse que não. Então perguntei o que rolava. Ela abriu a boca e mostrou que não tinha língua. Alguém tinha arrancado a língua dela. Perguntei se eram os zumbis de pus. Ela disse que não com a cabeça.

Não vou destrinchar em detalhas a nossa conversa pelo MSN movido à paredes, pedaços de papel e tocos de carvão, mas pelo que eu entendi seu nome era Kátia, ginecologista, chefe de algum hospital. Ela estava com um grupo de sobreviventes indo para o Nordeste quando captaram pelo rádio uma mensagem de sobreviventes… na 504.

Foram atacados por rapinantes e um deles, de brincadeira, resolveu arrancar sua língua. Ela ficou rodando por dias até ser capturada, junto com seu colega de saco, pelos purulentos. Purulentos foi o nome que ela deu. Quase não consegui ler. Esses zumbis resguardam boa parte da capacidade humana de pensar, mas estão sempre sob o efeito de fortes emoções: raiva, medo, ódio… que maravilha – pensei – zumbis alimentados pelo lado negro da força. A Kátia não queria, de forma alguma voltar a chegar perto daqueles caras. Eu não a recriminei, claro. Quem diabos ia querer estar perto do cara que lhe arrancou a língua? Mas fato é que querendo ou não eu tinha de pagar aos “rapas” uma visita.

Ela me disse que os cativos são levados para um lugar chamado “o poço”, não muito longe dali, numa das estações abandonadas do metrô. Ela me disse também que tem poucos zumbis na área porque os rapinantes, bem armados e bons de mira, matam qualquer coisa por ali, meio que limpando a área.

Minha idéia não era das mais espertas. Seguir até o metrô, salvar a Maria e o Maciel e de alguma forma sair com eles dois e mais a Kátia de volta até o Gama.

Vasculhando posto não achamos nada de muito útil. Algumas ferramentas de pedreiro, plástico preto e material de construção vencido. Algumas latas de querosene e garrafas de coca serviram para uns coquetéis molotv. Eu sabia que os zumbis eram imunes, mas eu esperava que os rapinantes não estivessem com roupas anti-chamas.

A noite transcorreu como sempre: assustadora. Havia luz elétrica nos postes que ainda estavam intactos e várias vezes eu tive a impressão nítida de ouvir um motor de carro passando ao longe. Patrulhas rapinantes? Duvido muito.

O amanhecer trouxe uma surpresa chata: a moto estava quase sem gasolina. Tanto melhor. Julguei que seria mais sensato deixá-la ali, escondida no posto. Veja bem, ela não tinha gasolina para ficar rodando feito uma besta procurando algum lugar, mas tinha algum gás: o bastante para chegar ao pontão do Lago Sul. O negócio era sair meio que camuflado. Mas como é que se camulfla em Brasília? Alguns meses atrás bastava sair com cara de emo e fim de papo, mas hoje em dia não rolava.

Conversei com a doutora. Ela não estava mesmo a fim de ir, mas desenho um mapa aproximado de onde ela achava que seria o poço. Ela ficou lá. Vasculhei a mochila em busca de algo para ela. Achei um revólver baixo calibre com quatro munições intactas. Deixei bastante comida para ela e recomendações de como proceder se ela precisasse sair dali em segurança. Ela me agradeceu.

Sem camuflagem mesmo resolvi sair.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. João "joaoecb" Brasil
    out 06, 2009 @ 12:28:33

    Next, next, next, next!!!!!!!!

  2. Alexandre Fnord
    out 06, 2009 @ 22:49:59

    A conversa deles deve ter sido demorada pacas. E ela sem língua deve ser algo realmente nojento de se ver.

    E eu nunca me afastaria de meu único transporte disponível facilmente.

    Bacana. Em stand-by para o próximo capítulo.

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