Diário de um sobrevivente: Capítulo FINAL

Chegamos ao fim da série “Diários de um sobrevivente”. Espero que tenham gostado.

 

 

 

Capítulo XV: Game Over

 

Voltamos ao posto de gasolina encontramos a Doutora escondida numa barricada. A mulher tinha transformado o lugar num quase-bunker. Seria preciso uma quantidade besta de zumbis para pegar qualquer um que se enclausurasse lá dentro. O meu ouvido melhorou o bastante para que pudéssemos traçar um plano. A idéia era bem simples – pelo menos na teoria era bem simples: pegar um carro e tocar de volta ao Parkway. De lá bater um papo com a Pâmela e explicar a situação. Depois disso, limpar o Parkway em busca de suprimentos e tocar para o mais longe do DF que pudéssemos seguir. Era um bom plano e ninguém discordou dele.

Acabamos por achar uma Caravan 79, dessas de colecionador perdida ali por perto. Era um carro capaz de levar a todos, estava de tanque cheio e surpreendentemente funcional. Maciel explicou que apesar de velha e de beber gasolina como fã de anime bebe muppy a lataria era muito resistente. Se tivéssemos de atropelar alguém, doeria mais neles do que em nós.

A viagem até o parkway foi tranqüila porque o Paulo conhecia só tudo ali em volta das imediações do plano. Ele era Office-boy antes do mundo virar uma merda e conhecia estradas e caminhos que não estavam em qualquer mapa. Rodeamos a área dos zumbis purulentos e chegamos ao Parkway antes do fim do dia. Aliás, andar à noite era uma das coisas mais estúpidas que você poderia fazer. Eu já estava desacostumado com as luzes dos postes de luz acesas á noite, mas sabe Deus como ainda havia luz elétrica naquele pedacinho do DF. Chegamos na casa e ficamos esperando a ligação.

Estávamos meio que num Big Brother da vida ali. Sem poder sair, sem poder fazer barulho mas ao mesmo tempo, ainda muito excitados com os acontecimentos. Maciel me puxou para um canto e contou como foram pegos. Dei pouca atenção. Meus olhos estavam grudados em Maria e no modo como ela conversava com a Doutora. Parecia que estavam colocando toda a fofoca de uma vida em dias, mas com alguma coisa a mais que não pude desvendar o que era. Paulo preparou o jantar. Um quase yakisoba com tudo que ele pode encontrar na cozinha e misturar com o macarrão instantâneo. Não estava ruim, longe disso, mas não era exatamente o que eu escolheria como última refeição.

Engraçado falar disso agora. Se eu soubesse que aquela seria provavelmente a última vez que eu comeria macarrão não teria deixado o moleque preparar. Eu mesmo faria com molho de qualquer coisa com tomate.

Não muito depois do jantar a porta estourou. Dúzias de zumbis cambaleantes entraram porta adentro. Uma inundação de zumbis. A doutora correu para o andar de cima, seguida por Paulo. Maciel correu para os fundos da casa e fui com ele e Maria. Fechávamos as portas atrás de nós, na débil esperança que elas pudessem segurar os bichos. O quintal da casa era largo e espaçoso, com grama alta, seca e mal cuidada. Algumas ferramentas de jardinagem estavam largadas ali. Pegamos o que podíamos para nos defender. Eu estava com a espada da japinha, Maciel descolou uma pá e Maria uma ripa de madeira. Armas e mantimentos, estava tudo na sala infestada de zumbis. Ouvi um grito do andar de cima da casa. Pelas pequenas janelas pude ver o jogo de sombras e gritos do ataque dos zumbis. Minutos se passaram e então reinou o silêncio. Só o som arrastado de dezenas de pés vindo pelo corredor em direção ao quintal. A porta não iria suportar uma leva muito forte. Maldita mania de gente rica de economizar na porta dos fundos! Olhei o muro. Alto demais para ser escalado e com aquele arame farpado especial sobre ele.

A situação parecia com uma reportagem que eu tinha visto alguns anos antes de uma família que teve de abrir um buraco no muro para escoar a água acumulada de uma grande enxurrada. Guardei a espada e pequei o que se parecia com uma marreta e comecei a macetar o muro. Maciel sacou a intenção na hora e começou a me ajudar, dando golpes com a ponta da pá. O muro não era muito grosso e dava para a rua de trás, que parecia limpa o bastante para uma funga rápida. Maria escorava a porta com tudo o que podia arrumar, mas era uma questão de tempo até que a infestação chegasse até nós. Eu já suava bicas, o macarrão pseudo-japonês me virando as tripas quando abrimos um buraco de um metro e meio de diâmetro mais ou menos. Grande o bastante para passar um por vez. O primeiro a sair foi o Maciel. Sacando a espada eu me preparei para ajudar quando a barricada da Maria estourou. Mandei ela correr para o buraco e eu corri na direção dela dando uns golpes nos primeiros zumbis. Eu já estava mais confiante coma espada, e com aquela quantidade monstro de zumbis não era difícil acertar um golpe. Cada vez que a lâmina balançava pedaços de carne podre voavam para cima e para baixo.

Comecei a me afastar golpeando esperando que Maria e Maciel estivessem protegendo a minha retaguarda quando eu saísse de lá. De repente aproveitei que os zumbis caíram como dominós e dei o pinote para trás correndo feito louco. Atravessei o buraco no muro quando algo me agarrou por trás. Eu chutei o quanto pude e só me livrei por que o Maciel me puxou.

Estávamos numa dessas ruazinhas laterais que quase nunca eram usadas. Sem carros á vista, mas pelo som, sabíamos que à esquerda havia um porrilhão de zumbis prontos para nos pegar. O lance foi correr, meio sem rumo para o que parecia ser o sul e rezar para não encontrar nada morto-vivo no caminho.

Corremos até que não deu mais. Então andamos, arfando em silêncio madrugada a adentro por ruas desertas. Carros eram sumariamente deixados para trás: aquele pedaço espacialmente estava cheio de carcaças de veículos abandonados. Qualquer carro não avançaria mais que três quarteirões até ser parado por uma carcaça. Não poderíamos perder tempo. Desembarcamos numa velha estrada de ferro e seguimos na direção dos trilhos que se afastava do parkway.

Já era quase de manha quando encontramos uma abandonada estação de trens. Deveria ser uma estação de manutenção de trilhos e locomotivas. Num canto um desses carrinhos de bombeamento manual estava sobre os trilhos, oleado e pronto para rodar. Ao que parece esbarramos na rota de fuga de alguém. Havia mantimentos, armas e até uma moto num canto. Tudo pronto para ser usado. Um mapa dava a entender que o trilho levaria para fora do DF, numa viagem de muitos dias para o litoral. A terra prometida como dizia o mapa. Eu não tinha certeza, mas não tinha nada melhor.

Foi quando eu percebi. A minha perna estava ardendo muito na corrida pensei que tinha me cortado no muro, mas eu recebi mesmo uma dentada. Não sabia quanto tempo eu ainda tinha, mas tinha de sair dali rapidamente. Maria me viu inspecionando a ferida e começou a chorar. Maciel me olhou com pena. “quem sabe podemos amputar a sua perna” ele sugeriu. Eu morreria de qualquer jeito. Já dava para sentir a infecção tomando conta de mim. Abracei os dois e peguei a moto. “Para onde você vai?” perguntou Maria num soluço. “Vou prum lugar especial” respondi sem jeito, tentando limpar as lágrimas dos olhos.

 

EPÍLOGO.

 

Faz duas horas que eu cheguei. Já não sinto dor nem febre. A moto esta num canto do bar, gasolina espalhada por todos os lados. No som, Luiz Gonzaga canta “A Morte do Vaqueiro”. Nada mais apropriado. Não sinto mais a cerveja esfriando na minha mão. Estou quase bêbado, mas sóbrio o bastante para ver a pequena multidão cambaleante se aproximar devagar. Muitos passam direto por mim, outros me cheiram, rosnam e seguem viagem. Ali, no bar, ao lado da estrada para o Gama eu vejo meus últimos momentos. Pego minha garrucha. É uma decisão difícil. Encosto no ouvido e penso em tudo o que fiz na vida. Na mesa tem um epitáfio escrito mais ou menos assim: aqui jaz um sobrevivente. Não deixa de ser irônico. Eu puxo o gatilho e a arma faz click, sem disparar. Merda.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Julio Oliveira
    dez 16, 2009 @ 05:22:44

    Que que isso, muito bom, adorei todos os capitulos. Final classe A, parabéns Betão!

  2. ellayne
    jan 03, 2010 @ 16:19:51

    muito bom!

    você tem talento, deveria tentar roteiros pra cinema! acho q essa saga daria um ótimo filme

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