Mercenário – capítulo 1

Mercenário – capítulo 1

O contador de Fracassos

Existem coisas sobre as quais a maioria das pessoas não fala. Guerreiros comentam sobre seus sucessos militares, magos sobre suas ascendências nas artes místicas e assim vai. Mas ninguém, pelo menos ninguém que eu conheça ou que eu já tenha visto ou ouvido gosta de falar de seus fracassos. Especialmente em praça pública, na frente de dezenas de pessoas que passavam de um lado para o outro. Talvez por isso aquele andarilho maltrapilho tenha me atraído tanto a atenção.

– Eu sou um tolo, um fraco e um covarde! Traí companheiros em batalha, fugi de meu posto e para salvar minha vida, escondi-me sob a carcaça do cavalo de um general. Lá fiquei por dias em meio à podridão, saindo apenas á noite, para pilhar os meus companheiros mortos em busca de comida, bebida ou qualquer coisa de valor!

Apesar de atrair para si todas as acusações que fariam guerreiros valentes corarem de vergonha o homem continuava bradando tudo o que tinha feito de errado ao longo de toda a sua vida. Nada parecia ser “indizível” para ele. Suas palavras bufavam pelo ar, com brados cada vez mais altos, até que sua voz sumia num murmúrio rouco, para recomeçar em poucos minutos. Era um espetáculo grotesco, que atraia a atenção das pessoas que passavam. Mulheres castas cobriam os ouvidos das filhas, homens adultos cuspiam em direção ao homem e uns poucos viajantes apiedavam-se do coitado, dando-lhe uns trocados. Os comerciantes, no entanto achavam que aquele homem espantava os clientes e não era incomum que um ou outro viesse tentar calar o maltrapilho.

Por alguma curiosidade mórbida eu não permiti que um dos comerciantes calasse o homem. Queria ouvi-lo falar mais sobre si mesmo. Afinal de contas eu não sabia, mas as palavras daquele homem poderiam salvar minha vida. Barrei o movimento do vendedor de cutelos, e ele voltou-se para mim com uma faca longa e afiada.

De minha parte, jovem e profundo desconhecedor dos desígnios do mundo tinha acabado de sair da academia militar e estava apenas aguardando o meu primeiro combate. Não vou aborrecer vocês com detalhes sobre quem, o que ou onde, mas fato é que a força opositora á minha havia se fixado no alto de uma montanha, perto de um lago que havia sido represado e, segundo o meu sargento, era nosso dever libertá-la. Aquele vendedor de cutelos era agora o que me separava da minha missão.

Até então eu nunca tinha entrado em combate pela minha vida. Era bom no uso do sabre e do escudo pequeno, e manobrava o arco com um pouco mais de precisão. Sabia disparar pistolas e rifles embora não tivesse soldo o bastante para comprá-los ou mantê-los. Não era tão bom com a lança, entretanto. E era isso que me deixava mais apreensivo com a batalha, pois foi designado para o destacamento dos lanceiros.

Saquei meu sabre e o homem gemeu ao perceber que lidava com um soldado mercenário. A turba, no entanto, o incentivou com gritos e urros e ele avançou. O golpe foi desajeitado e brutal e nada lembrava as técnicas de luta que eu aprendera na academia. Esquivei-me de qualquer modo, jogando o corpo para trás, como um maldito amador. Quase cai por sobre um monte de cestos de vime e o povo a minha volta riu. Corei de vergonha, mas me recompus, com o rosto ainda vermelho e desferi um ataque contra o vendedor. Ao contrário do dele que foi brutal e desajeitado o meu foi preciso e calculado. Uma manobra que eu já executara tantas vezes que deveria ser natural para mim quanto respirar ou mesmo caminhar. Uma manobra que deveria apenas arrancar a faca das mãos do homem, mas acabou arrancando também alguns de seus dedos. O homem caiu de joelhos, o sangue jorrando de sua mão e eu simplesmente embainhei o sabre e segui em direção do acampamento. O contador de fracassos não estava mais em seu canto e me senti um tolo por defender um prazer tão fugaz e impróprio.

No acampamento contei sobre o maltrapilho e do combate que eu travei. Não contei como quase cai sobre o vime e fantasiei um pouco sobre o tamanho do vendedor de cutelos e a sua faca. Uma conversa perdida na noite fria que antecipava o combate do outro dia.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

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  2. Arquimago
    jan 15, 2010 @ 09:25:42

    Gostei do conto.

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