Chutando cachorro morto

Ou, porque apenas uma meia dúzia de jogadores dinossauros ainda aposta na volta triunfal do GURPS.

 

O ano era 1991, se não me engano. Eu tinha largado de vez os livros jogos da Marques Saraiva e estava em busca de um RPG mais interessante para mim. As opções naquela época não eram muitas: tinha o D&D da Grow, o Demos Corporation (que precisava de calculadora científica para determinar o dano de uma joelhada), Tagmar (eu acho, não tenho certeza), Desafio dos Bandeirantes (mesma categoria do Tagmar) e um tal de GURPS. Segundo o anuncio ele servia para criar jogos em praticamente qualquer cenário. Um RPG genérico, universal. Um livro para anos de jogo. Bom, como a grana estava curta e eu não tinha nenhum dado além dos tradicionais d6’s eu optei pelo GURPS.

Foram alguns anos de boa jogatina, mas o GURPS acabou ficando para trás. Obsoleto talvez seja o termo. Sua mecânica de construção de personagens e regras para quase tudo se distanciavam enormemente da nova proposta de menos regras, mais diversão da linha storyteller. Seus livros não eram tão atraentes quanto os da linha AD&D/D&D. Enfim, o GURPS era um bom RPG, mas acabou que não se modernizou a tempo de acompanhar o mundo em que ele deveria retratar, mais real que a realidade.

A editora que cuidava do sistema no Brasil também não era nenhuma mãe – estava mais para a madrasta da Cinderela para o pobre GURPS. Atrasos sistemáticos de livros acabaram por ajudar a sepultar o sistema. A sua não-presença ostensiva na mídia especializada também ajudou. Você não precisa acreditar em mim, mas antes da internet a opinião das pessoas era muito influenciada por revista de RPG, como a finada Dragão Brasil, que depois de usar o GURPS por anos começou uma ferrenha campanha para dar cabo dele.

Dois dos golpes mais contundentes para o entendimento da morte do sistema foram a constatação de que a marca GURPS não tem mais representação editorial no Brasil e que nenhum lojista de sucesso quer trabalhar com um sistema morto, que só é lembrado por saudosistas dinossauricos.

Mas, eis que vira e mexe, surge na NET alguma enquete/pesquisa/campanha para trazer o sistema de volta à ativa. O mais recente que eu vi foi uma enquete no Orkut, na comunidade RPG Brasil. Reproduzo o resultado da enquete abaixo e me proponho a analisar alguns dos seus pontos.

Enquete:

A RPG Brasil é uma das mais antigas e mais inchadas comunidades de RPG no Orkut. Passa com facilidade dos 50 mil associados, sendo que apenas uma meia dúzia efetivamente comenta as discussões que lá surgem. Vai ver por isso mesmo é que uma enquete encerrada em agosto de 2008 não teve nem 500 votos (menos de 0,01% das pessoas da comunidade).

150 votantes dizem que não tem qualquer interesse no GURPS. É quase o dobro do número de votantes que voluntariosamente se prontifica a comprar todos os livros e todos os suplementos do sistema; é quase o triplo do número de pessoas que diz que quer alguns dos livros e suplementos. Sabemos que não podemos confiar nas suposições de uma enquete feita numa comunidade de RPG do Orkut – que nenhuma empresa séria se fiaria por tais informações, mas não podemos deixar de perceber aqui algumas tendências. A primeira seria de tentar trazer GURPS de volta. Perceber a possibilidade disso era o objetivo do seu criador o Leλndro (lê-se Lelâmbadandro). Outra tendência perceptível seria a de que o GURPS está realmente morto e enterrado.

O que me faz realmente questionar: por que trazer o um sistema morto de volta a vida? Por que insistir num sistema que jamais verá a luz do sol traduzido em terras tupiniquins? Por que simplesmente não seguir em frente com a sua vida? Você não vê esse tipo de atitude com os fãs de Cyberpunk 2020 (que vendeu o mesmo que o clã book Ventrue, segundo Douglas Quinta Reis), nem com os de Shadowrun (que já vai lá em sua sei lá qual edição e virou até um jogo de tiro meia boca do Xbox), nem mesmo com o D&D/AD&D/D&D3.X…

A única explicação que me vem á cabeça é da ordem da nostalgia. Nostalgia é um sentimento que surge a partir da sensação de não poder mais reviver certos momentos da vida.

O interessante sobre a nostalgia é que ela aumenta ao entrar em contato com sua causa e não diminui como o sentimento da saudade. Exemplo: se alguém sente saudades ou falta de um conhecido, este sentimento cessa ao se reencontrar a pessoa, com a nostalgia é exatamente o oposto, ao reencontrar um amigo que gostava de brincar, este sentimento nostálgico irá se alimentar e não diminuir como a saudade.

Então a única explicação que eu vejo é que os jogadores de GURPS não querem mesmo é largar o osso. Querem continuar alimentando um cachorro que já morreu e que apenas eles não sabem que já deve enterrar.

 

 

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