Mercenário – capítulo 2

Meu velho sargento de treinamento dizia uma frase que só fez sentido para mim algumas horas atrás. Se você fez e sobreviveu, provavelmente fez direito. Eu estava vivo. Isso significava que eu fiz direito. Significava que eu tinha cumprido o meu sonho de infância, a promessa que fiz no túmulo do meu pai. Eu era um soldado. Eu era um guerreiro. E por minha lâmina, os inimigos do estado tinham caído e perecido. Mas então por que estava sentindo toda aquela agonia? Por que o meu peito se contraía, incapaz de sentir a alegria que agora se manifestava livremente em meus companheiros de armas? Por que o cheiro de sangue me revoltava as entranhas?

Afastei-me um pouco do acampamento. Aos que notaram minha presença e me interpelaram, disse que ira orar aos deuses, agradecendo a nossa vitória. Eles me conheciam, sabiam de minha história e formação, que em muitos pontos, eram a mesma história deles. Sabiam que eu era religioso e não perceberam o pesar em minha voz. Afinal, para se orar aos deuses, a alegria do fim de um combate não é adequada. Fui até os limites do acampamento, onde começavam os restos do campo de batalha. Um batalhão de aves de rapina voava baixo no céu, esperando o momento certo de arrancar a carne e a carniça dos ossos dos inimigos mortos. Ao longe pude ver alguns recrutas em busca de sobreviventes feridos e, claro, dando cabo dos opositores sobreviventes. Era uma guerra aberta e sem limites. Não se faziam prisioneiros naquela região do mundo.

Sentei numa rocha, ao lado de uma poça de água e sangue. Poças assim estavam por todos os lados, como se uma nuvem tivesse sido ferida por uma espada e tivesse engasgado e cuspido sangue em todas as direções. A parca iluminação crepuscular dava espaço para a escuridão da noite e para as bruxuleantes luzes das fogueiras. Retirei meu elmo e olhei para ele. Era um meio elmo de couro e cobre, desenhado para proteger os olhos e as orelhas de seu portador. Como ela pesado e quente. Lembrei dele quase me sufocando no meio da batalha que passou.

Não longe de mim vi um dos oponentes. Era um rapazote como eu. Não deveria ter mais que a minha idade. Era magro e a armadura estava desajustada sobre ele. O talho em seu pescoço não o matou imediatamente. Ele deve ter agonizado, sem forças, enquanto sua vida se esvaía pelo corte por longos minutos. Seus olhos vítreos apontavam para o céu e sua boca entreaberta parecia estar esperando a conclusão de uma prece. Por que ele estava morto? Porque ela era o meu inimigo. Foi gente do povo dele que invadiu nossas terras e forçaram o meu pai para uma guerra sem sentido. Foi o povo dele que assassinou o meu pai em campo de batalha e era o povo dele que ia pagar cada noite de pesadelo que eu tinha tido desde que soube da notícia. Engraçado que a simples idéia de fazer um invasor do norte pagara pela morte do meu pai e de outros tantos pais de amigos meus costumava me encher de energia e coragem. Hoje, aquele pensamento parecia pequeno e sem graça. Afinal, aquele rapazote sem nome, assim como eu, deveria também ter um pai.  E agora estava morto, para além de qualquer redenção.

A espada em minha cintura ficou pesada de repente. Tudo o que eu queria era sair dali, largar todas aquelas ferramentas de morte e continuar correndo até esquecer quem sou. E eu teria feito isso, se não percebesse que estava cercado. Um grupo de quatro sobreviventes do exercito inimigo deu um jeito de dar a volta em nossos recrutas e estava tentando fugir. Em seus olhos sedentos de sangue eu via o desejo de fugir a qualquer custo. Eles teriam de me matar para fugir. Não poderiam correr o risco de que um rapazote como eu desse o alarme. Tenho de vergonhosamente admitir que realmente pensei em deixar que eles cumprissem seu intento. Mas quando a primeira lâmina ergueu-se em minha direção o meu corpo, que ansiava por viver, agiu primeiro.

Foi um conta-golpe rápido, com a minha adaga, aproveitando a brecha óbvia na defesa do inimigo. O corte foi profundo, indo do lado esquerdo do peito, passando por baixo da axila até terminar o contorno do coto do braço. O homem caiu no chão, a vida esvaindo-se pelo corte, e o braço paralisado pelos tendões cortados. Mas ele não gritou. Se gritasse, chamaria a atenção de meus colegas. E ele queria viver. Mas não viveu. Meu braço direito achou em meu cinto o cabo da minha espada e descendi sobre ele golpe fatal. Um estava morto. Três à mina volta.

Eles me rodeavam. Um dele atacou, mas bloqueei com dificuldade. O segundo atacou aproveitando que estava a me flanquear. Defendi-me por pouco, o golpe resvalando nos anéis de ferro entrelaçados de minha jaqueta de couro. O terceiro hesitou. Eu não. O golpe jogou fora sua espada e enquanto ele ainda olhava para a arma perdida, ataquei novamente. A espada atravessou seu corselete de couro batido, perfurando o coração. Eu me abracei com ele, usando seu corpo como escudo. Senti sua respiração ceder um suspiro abafado e triste. Eu o larguei e com ele foi a minha espada, que deve ter ficado presa em algum lugar dentro dele. Estava semi-desarmado, com mais dois oponentes com sede de sangue. Saquei minha adaga apenas para vê-la ser arrancada dolorosamente de minhas mãos com um golpe de maça. Esquivei do segundo ataque do soldado com a maça quando o outro me rasgou o ombro com um certeiro golpe de espada. Minha situação não era boa. Em poucos minutos a minha força seria totalmente drenada pelo golpe nas costas. Eu tinha de ser rápido. Firmei os pés no chão e esperei o ataque do homem com a maça. Como um relógio ele atacou. Avancei, agarrando o seu punho e golpeando o seu cotovelo com um soco forte. O som do osso quebrado foi a deixa. Tomei sua maça e desferi dois golpes nele. O primeiro o fez cair e o segundo arrancou dele parte da cabeça. Voltei-me para o último homem. Ele largou a espada começou a implorar, no indecifrável idioma dos homens do norte. Senti pena dele, mas precisava dar cabo dele. Era o meu dever. Ergui a maça e golpeei. Uma, duas, três… até que senti o cansaço tomar conta da minha vida e eu percebeu que estava golpeando uma nova poça de sangue. A minha volta alguns soldados atraídos pelo som da luta. Eu desmaiei logo em seguida.

Acordei dias mais tarde, o corte quase curado. E uma nova frase de meu sargento surgiu em minha mente: matar fica mais fácil com a prática. E terrivelmente mais saboroso.

4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Allana
    fev 23, 2010 @ 00:00:25

    Adorei o foco, além da descrição do combate. Muito legal. :)

  2. Arquimago
    fev 23, 2010 @ 13:33:26

    Também gostei do combate ser um pano de fundo, mas ao mesmo tempo o motivo da parte que o conto se foca, as reflexões do guerreiro.

  3. Trackback: Liga Narrativa (Fev – Começo): Rito de Passagem « Juca's Blog
  4. Juca 999
    fev 25, 2010 @ 01:47:31

    Joe, gostei disso. Quero ler mais. Ótima descrição do âmago do guerreiro e do que a guerra causa aos homens.
    Fez seu trabalho direito.
    Até.

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