Hora de pagar – 2

Antes de começar essa linha de trabalho eu me lembro que fumava. Não sei por que fumava, para falar a verdade. Deixava um cheiro ruim e meu dentista vivia reclamando. Acho que foi por influência dos amigos, sei lá. Vai ver por isso eu sentia tanta pena de colher o pagamento de fumantes e ex-fumantes em estados terminais como era aquele caso.

Renato Dantas, o bombinha. Jogador de futebol. Nasceu pobre, preto, fodido. Mas deu a volta por cima por conta do esporte. O maior jogador desde Pelé, campeão por inúmeros times… Era o que dizia sua biografia não autorizada que eu comprei no metrô a caminho do hospital. Era outro caso de contrato clássico. O cara era o verdadeiro sonho de um sem número de moleques pseudo-jogadores de futebol. Foi descoberto nas categorias de base quando um acidente quase custou-lhe a perna. Foi na época que ele fez o contrato. A carreira dele deveria acabar ali: mas por “milagre” voltou a andar e no mesmo ano foi campeão do Brasil por um timeco que não tinha chances. Fez 52 gols naquele campeonato brasileiro sendo coroado o maior goleador de todos os tempos. Ele deu no meu time favorito de 4 x 0 em três ocasiões seguidas.

Engraçado pensar nisso. Eu já tinha visto uns jogos dele na TV. O cara tinha estilo. Não dava para dizer onde terminava o talento natural do cara e onde começava o contrato. O problema é que o dono do contrato era um verdadeiro idiota. Quantas confusões ele se meteu naqueles quase trinta anos de jogos! Três casamentos, prisão, dezenas de filhos ilegítimos, uma candidatura fracassada e um mandato de suplente de vereador prematuramente encerrado por denuncias de corrupção… mas sempre com o seu cigarrinho de lado. O livro da biografia era tão bom que tinha até uma propaganda dele fazendo propaganda de cigarro.

Entrei no hospital pelos fundos. É engraçado o que um jaleco branco e um crachá xerocado podem fazer por você num hospital depois da meia-noite. Muito além do horário de visita, quando os vigias estão cansados e as enfermeiras só sabem falar d enovelas e big brothers da vida. Essa era a minha hora. A minha deixa.

Entrei no quatro. O cara nem parecia o mesmo. Um farrapo humano, travestido com pele e ossos. Dezenas de tubos ligados nele, faziam com que ele continuasse vivo. Uma dor indescritível. Ele me viu e sorriu. Esforçou-se para se colocar sentado e estendeu a mão.

– Fala mano. Estava pensando quando você ia aparecer. Eu fodi minha vida dessa vez não foi? Jurava que você viria mais cedo, tipo quando a minha segunda esposa me pegou com a empregada e a filha da empregada. Aquela facada ainda dói quando faz frio sabia? – ele tentou parecer cordial – mas sei lá, acho que foi melhor assim.

Me espantei de ouvi-lo falar assim e depois me recordei que só eu poderia ouvi-lo assim. Se eu forçasse a vista poderia velho na cama, todo entubado, babando e balbuciando coisas. Mas mantive a pose profissional.

– Estou aqui para colher o pagamento. – disse tentando parecer profissional.

– Claro, claro. Afinal quem mais quer essa merda? Estou entubado a semanas cara. Não me resta nada. Castigo mesmo era me deixar assim. Tomara que você me leve rapidinho. Duvido que vocês tenham coisa pior para me oferecer lá embaixo.

Não pude evitar sorrir ao pensar no que o pessoal do departamento de punições poderia oferecer. Cinco minutos lá embaixo e ele vai preferir passar os trinta anos ali. Mas deixe que ele descubra isso.

– Basta apertar minha mão, eu disse.

Ele apertou. Ante de sair ele me perguntou:

– Na boa cara, o que eu fiz para isso aqui? Tirando a glória minha vida foi um saco. Só o meu cigarrinho foi o meu amigo esses anos todos.

Peguei o palm e olhei nele. Virei para o cara e disse:

– Lembra-se por que fez o contrato?

– Mas é claro. Arrebentei minha perna num acidente de carro na chuva – ele comentou calmamente.

– Lembra-se por que saiu na chuva aquele dia?

– Saí para comprar ciga…

– Isso mesmo. Por causa do seu vício você ferrou sua vida. Teria sido um bom pai e técnico de futebol, com carreira brilhante para si, mas preferiu o contrato e o cigarro. Pensei nisso quando as meninas do departamento de punições começarem a trabalhar em você, otário.

Eu saí de lá com o som dele se contorcendo na cama. Aquele infeliz morreu antes de eu chegar à recepção. Eu sei que deveria ser profissional, mas ninguém mete de 4 no meu time e fica impune, contrato ou não!

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Arquimago
    fev 23, 2010 @ 13:56:14

    Só para saber porque o “2” em dois contos seguidos?!

    Cara que doido! Isso é que é uma maneira de se cobrar um contrato e de uma boa campanha antifumo!

    Adorei!

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