A escravidão nos jogos de RPG.

Engraçado que a idéia deste artigo surgiu por um jogo nacional que eu nem gosto e nem jogo chamado Tormenta.

Até onde eu sei Tormenta é um jogo de fantasia medieval que trás dentro de si uma verdadeira colcha de retalhos de ideologias e tecnologias temporais: temos a idade antiga representada por Tapista e pelos cubanos polinésios surfistas tatuados de Jhubar; temos a nação nos moldes espartano-hitlerista-russo cujo governante é um tal de Miktov (ou algo assim); temos as nações de foro medieval tradicional (como Valkaria) e temos locais onde a tecnologia e a arte já pendem para o renascimento. Ou seja, num mesmo cenário temos o pensamento pré-revolução industrial e escravagista ao mesmo tempo. Isso não seria um grande problema se o cenário como um todo não fosse visto e demarcado por uma visão moderna da realidade. O papel das mulheres dentro do cenário é um exemplo disso: elas são libertas o bastante para serem aventureiras e ninguém dá muita bola para isso; existe um letramento geral da população – você só não lê se for bárbaro. Existem, entre os conceitos vigentes, a liberdade de pensamento e a privacidade – que no nosso mundo só foram existir de verdade lá pelo século XVII…

Na última atualização do cenário, uma raça de minotauros sencientes tomou de assalto o grupo de nações conhecida como “O Reinado”. As implicações, além da óbvia ascensão do deus dos minotauros (adivinha o nome dele: Tauron) como o novo chefe do Panteão, da reorganização política do cenário e de haver um motivo para “pipocar” minotauros detrás de todas as moitas do cenário é que a cultura desse povo passa a ser mais disseminada.

Bom tocar neste ponto de cultura. A primeira vez que tive contato com esse povo de chifres foi numa revista Tormenta, mil-e-anos atrás. Lembro de ter ficado muito chateado com a picaretagem dos editores na época. Eles simplesmente pegaram o império Romano e trocaram homens por minotauros, trazendo alguma coisa do mito grego do minotauro junto para o pacote (gosto por labirintos). Ou seja, Tapista, a não ser pelos minotauros, nada mais é do que um pastiche do que foi o Império Romano, salpicado de pedacinhos gregos aqui e ali. Outra parte indispensável da cultura minotáurica é que eles servem o deus da força, como já citei antes. O primeiro deus da força do cenário era uma tal de Divina Serpente, que comandava espiritualmente uma tribo de mulheres lagartos com seios, bondagistas, fetichistas e meio sadomasoquistas numa ilha perdida ao longo da costa. O mote para força é que essas guerreiras – e, por conseguinte, seus primos de chifre – tinham uma forma especial de devoção a suas deidades: escravizar mulheres, mantendo-as cativas, sob tortura física, mental e espiritual, como servas ou escravas. Embora o texto não deixe muito claro, a escravidão minotáurica parece ser abrandada com um tipo de “tratamento digno”.

É aqui onde quero começar de verdade o meu texto. Não existe isso de tratamento digno para um escravo. Não existe nada digno em uma prática social em que um ser humano tem direitos de propriedade sobre outro designado por escravo, ao qual é imposta tal condição por meio da força. O dono ou comerciante pode comprar, vender, dar ou trocar por uma dívida, sem que o escravo possa exercer qualquer direito e objeção pessoal ou legal.

As implicações de ordem ideológica e filosófica são ainda mais graves. Quando eu digo que alguém é minha propriedade estou reduzindo este alguém a um status inferior, de mercadoria, de objeto. É como se eu anulasse aquilo que faz dele humano. Uso aqui o termo humano na falta de algo melhor, que englobe todas as outras raças não humanas do cenário, como elfos, gnomos e meio-demônios. A humanidade passa a ser um elemento desumanizador dentro da cultura dominante. Ao invés de trabalhar conceitos de ética e bem estar, ele trabalha normas morais que pretende justificar ideologicamente a escravidão.

No mundo moderno essa justificativa veio por meio da religião. Os negros não tinham alma, segundo a Igreja Católica. E por não terem almas, você estaria fazendo um grande favor a eles, apresentando-os a nosso senhor Jesus Cristo e sua imensa misericórdia. Ou seja, eu atravesso o oceano, invado terras alheias, mato meio mundo de gente, coloco à ferros os sobreviventes, faço com que viagem de volta num navio superlotado, cheio de imundice, alimentando-os inclusive com água estragada e óleo de fígado de bacalhau, para que, ao chegar em terra eu separe famílias inteiras, marque alguns com ferro quente, arrebente sua cultura, mude seus nomes e venda-os como mercadorias apenas para que eles fiquem mais próximo de deus… Muito cristão essa atitude, viu?

No mundo de tormenta a desculpa é a mesa. O deus da força exige como demonstrações de força que você minotauro, cate para si um escravo. Você vai privar essa criatura das coisas mais importantes de sua vida (família, livre-arbítrio, liberdade, direito de escolha…) sob a desculpa de que eles são seres inferiores e portanto merecem e precisam ser protegidos. Ou seja, eu vou escravizar povos inteiros sob o pretexto de que eles precisam ser protegidos. Vou submeter outros povos à minha vontade, exterminar sua cultura, religião, arte, vontade, torná-los menos humanos para que eles fiquem protegidos. Se algum fã de tormenta estiver lendo isso aqui e ver que eu interpretei mal, por favor, me avise.

Não podemos deixar de pensar, inclusive, que os minotauros são um povo parasita. Não existem minotauras ou minovacas fêmeas. A reprodução da raça se dá, mantendo coito sexual com fêmeas de outras espécies: se for menino será minotauro; se formenina será da raça da mãe. Uma explicação um tanto conveniente para que os haréns cresçam exponencialmente, uma vez que nada proíbe um minotauro de ter relações coma escrava que ele mesmo foi genitor.

Na minha opinião, já temos abrandado dentro da fantasia medieval coisas hediondas demais. Abrandamos o assassinato, o sacrifício de inocentes, a guerra. Não precisamos, a meu ver, abrandar o estupro e a escravidão. Povos que escravizam devem ser encarados como os “caras maus” do seriado. É o tipo que vai ser combatido. É o vilão. Se não, daqui a pouco, todo mundo vai achar que a cultura drow não tem nada de mais em que seus filhos pequenos se matem por um pouco de alimento, ou que para pertencer a um exercito “fulado” você tenha de matar alguém da sua família.

Estas são minhas palavras sobre o assunto.

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29 Comentários (+adicionar seu?)

  1. franciolli araujo
    mar 02, 2010 @ 10:06:21

    Excelente artigo, que toca numa ferida de nossa sociedade.

    Mesmo não sendo puritano, como eu, em um evento, explicaria para alguém que estou jogando com uma criatura que tem a escravidão e estupro como meio de vida?

    Acho que a sensação de choque causada em muitos não jogadores, não se estende a quem não joga, mas lê ou acaba entrando em contato com o jogo de alguma forma.

    Imagina um garoto de seus 13 anos jogando Tormenta com um minotauro em sua casa e de repente grita: “Eu estupro aquela vadia. Ela é minha escrava!”

    Acho que não pega bem!

  2. Tek
    mar 02, 2010 @ 10:41:43

    Fácil: “é só um jogo, um faz-de-conta, uma brincadeira”.
    Se fosse assim ninguém jogava de “bandido” no “mocinho contra bandido” ou coisa que o valha.

  3. Danielfo
    mar 02, 2010 @ 14:01:31

    A questão que você abordou é muito pertinente e levanta questões perturbadoras. Certamente quando se esta inserido na sociedade não se percebe com facilidade as barbáries cometidas durante os acontecimentos. Os romanos tinha por ética, deixar no testamento a libertação dos seus escravos, para simbolizar bondade. Muitos senhores, gostavam dos escravos e acabam lhes dando alforria e algum dinheiro para levar a vida.

    O problema de Roma, é que o poder era patriarcal, e muitos homens velhos não eram emancipados enquanto o pai estivesse vivo. Desta forma, mesmo os cidadãos não tinham muita liberdade.

    O direito de punir o escravo, ou usá-los conforme fosse melhor é similar ao direito do marido de restringir os direitos da esposa. Mesmo em sociedades que aboliram a escravidão, as mulheres permaneceram e (ainda continuam) escravas de fato.

    Talvez usar uma raça com este comportamento médio e jogar com um indivíduo que discorde dos preceitos de grupo, seja uma maneira de trazer para o lado bom, uma criatura má.

    E o relativismo que vá pras favas.

  4. pavelieve
    mar 02, 2010 @ 16:03:17

    Caaara muito bom seu post, um dia acabo aprendendo a escrever bem assim! Veja o que eu penso.

    Gosto muito do cenário Tormenta, gosto principalmente pela diversidade. Na verdade nem sei como é jogar com heróis “bonzinhos”, se é que isso existe, no meu grupo todos sempre pareciam uma coisa e eram outra… Tinha o bobo da corte que era um ladrão e assassino, o mercador que na verdade era um aspirante a necromante, que vendia corpos conservados para necromantes em várias regiões de Arton, tinha um fantasma que protegia uma garotinha amaldiçoada, mas ele descobriu beeeem lá na frente que ele tinha voltado mesmo era pra se vingar dela, aí ele recuperou seu incríveis poderes (que nem sabia que tinha) e virou o “vilão” por assim dizer da história, isso na perspectiva dos jogadores, e assim eram os ouros também.

    Como ninguém é realmente bom ou mal, eu pego os extremos e arranco fora da minha aventura, tem coisas que não devem existir em nenhuma campanha! Pelo menos as sortudas das escravas na minha mesa não são estrupadas, não mesmo e ninguém é tão bonzinho que peça “porfavorzinho” para bater no Orc!

    Retirando os extremos (que não descem) é supermegafoda interpretar um cara que subjuga pela força, mata, tiraniza e no final de tudo ainda banca o herói. Tentar entender e interpretar é um desafio, aí que está à graça. O cara bonzinho eu já sou todo dia Uai… Bem, nem sempre. Hauahauhau, até mais!

  5. valberto
    mar 02, 2010 @ 17:28:06

    Tek, vc não quer mesmo equalizar uma brincadeira de polícia e bandido com escravidão e estupro, não é mesmo?

  6. Luiz Fernando
    mar 02, 2010 @ 21:10:36

    Acho o argumento do Tek válido visto que polícia-e-ladrão é o principal comparativo que vemos na maioria dos livros de RPG para explicar como funciona o jogo. No mais o post está muito bem escrito, embora alarde para um problema que está na cabeça do autor e não necessariamente na obra. E no final das contas, quem escraviza (porque estupro não é citado na obra) ou deixa de escravizar são os minotauros ou os jogadores?

  7. Renato Trimegisto
    mar 02, 2010 @ 23:13:49

    Não entendo todo esse espanto.. Ou você acha que só porque outros cenários não deixam aparente, neles realmente não existem escravidão ou estupro? A unica diferença é que em Arton isso fica claro. E é bom lembrar que o reinado NÃO é a favor disso e proíbe essas praticas fora de tapista e que os Minotauros tem uma pessima fama por causa disso, não é uma pratica comum, bem pelo contrário.

    Na verdade gosto de temas “polemicos” em rpg, esse não é um jogo pra crianças (pelos menos dessa vez) e deveria ser tratado como tal, ou seja, com seriedade. Da pra criar cenas e debates extremamente interessantes no jogo com isso, é só uma questão de “visão” das possibilidades e falta de hipocrisia.

    Antes de se importar com a escravidão e estupro no rpg, deveriam se importar com a escravidão e estupros que acontecem na vida real

  8. valberto
    mar 03, 2010 @ 00:27:29

    Olá Renato. Que bom que escreveu.
    O meu espanto se dá tão somente por que a coisa está escancarada. Uma coisa é você saber que existe prostituição e outra coisa é abrir um puteiro do lado da sua casa. Se os outros cenários têm escravos, os escravagistas costumam ser combatidos e não são “core races” do mesmo. Veja Greyhawk por exemplo: lá temos o Iron Ring, uma guilda de ladinos mercadores de escravos. Não existem módulos para que você seja um deles em jogo, mas existem dezenas de aventuras onde o papel dos jogadores é por fim na vilania dos bandidos. Devo lembrar que tapista venceu a guerra contra o reinado e que agora essa lei não deve ser mais assim levada à sério.

    Engraçado… se você olhar os desenhos e o público alvo de Tormenta vai ver que ele é formado em sua maioria por crianças e adolescentes e não por pessoas adultas, capazes de discernir com segurança as coisas. Uma coisa é gostar de módulos como vampiro: a máscara. Outra é mestrar ou emprestar o livro para menores. Coisa que nunca fiz, aliás. Todos os meus jogadores de jogos com temas adultos e polêmicos são SEMPRE adultos. Não premito crianças. Não creio que a situação favoreça debate, e nem que minhas palavras sejam hipocresia. Eu trato meus vistantes com respeito e não os agrido. Acho que mereço o memso tratamento, nespà?

    Sabe Renato eu não sou um cara muito engajado não. Eu sou pai e professor e isso me toma um tempo miserável. Mas não me impediu de participar de audiências públicas e debates organizados exigindo penas mais duras para os perpetradores de estupro e de outras formas de violência, contra ciranças e mulheres. Não me impediu de denunciar ao ministério público um bar que vendia bebidas para menores. Bar que foi fechado, inclusive. Eu e iomporto com a violência do mundo real, mas só posso agir sobre ela dentro do meu espectro de atuação,s eja como mestre de rpg, seja como professor de filosofia. O meu papel social é de alertar e educar e não de correr atras de bandido na rua. Aliás, o que você tem feito para diminuir a violência na cidade onde você mora, ou isso não é lá muito importante para você…?

  9. valberto
    mar 03, 2010 @ 00:31:15

    Desculpe Luiz, mas o problema esta na obra e n/ão nos jogadores. Ocasionalmente um jogador pode insterpretar um minotauro escravagista, mas ele não pode ignorar que o cenário esta cheio deles. Emebelezar a escravidão não faz dela melhor.

  10. Arquimago
    mar 03, 2010 @ 09:34:08

    Tema delicado e achei o artigo muito bem escrito e interessante.

    Porem acho que dessa vez vou ficar dos dois lados do muro.

    É errado o cenário falar que tem escravidão em um dos reinos mais “poderosos” do cenário? Não. É errado eles serem “copia” de Roma? Não. É errado eles deixarem você jogar com um escravagista? Não.

    É certo ter outros reinos que abominem a escravidão? Sim. É certo que os outros reinos parecem mais “civilizados”? Sim.

    Sabe primeiro o livro ainda não saiu então estamos falando de algo que ainda não saiu, de um texto que não foi escrito, isso é o primeiro ponto que deve ser lembrado.

    Segundo ponto eu adoro cenários que levem ao debate e pretendo fazer um TCC onde usaria RPG “como método de ensino”(vejam as aspas) e porque não ensinar ética? Moralidade? Variação de conceitos mediante o tempo histórico?

    Escravidão é errada, ponto final. Você explicou isso bem. Agora é preciso ver se os “novos” autores do cenário vão trazer aventuras onde isso fique claro, e não é porque eles dominam agora que os outros reinos vão achar lindo a escravidão, isso e os minotauros podem ser muito mais odiados já que vão colocar ainda mais as asinhas de fora.

    Assim como seria interessante aventuras ou suplementos onde primeiramente não parecesse que a escravidão e outros temas fossem o debate principal. Já imaginou uma “aventura padrão” onde os minotauros fossem sim os heróis só que a cada tanto o sofrimento dos escravos fosse mostrado para os jogadores? Os minotauros não precisam achar que estão fazendo algo errado, mas os jogadores deveriam perceber que as atitudes dos seus personagens não são corretas do mundo de hoje.

    Os consumidores do cenário são adolescentes? Crianças? Bem para isso que serve a classificação etária atrás do livro, mas umas linhas abordando o tema de forma sutil as vezes na forma de um personagem do cenário que não concorda com isso, assim não quebrando o clima da aventura pode ser o suficiente.

    Bem acredito que é isso. Espero não ter sido muito “teimoso” rsrsrsrsrsrs

  11. Arquimago
    mar 03, 2010 @ 09:35:52

    Ps.: Está em outro comentário porque é informação não confirmada que li em outro lugar… tem as minauras mas ela são “impedidas” de gerar filhos e são muito mal vistas.

  12. Gilson • RPG • Educação
    mar 03, 2010 @ 11:17:45

    Muito bom os temas polêmicos abordados pelo Valberto.

    Eu não lembro ou nenhum professor de história abordou com eficácia, mas segundo as obras fictícias sobre eventos e batalhas medievais de Bernard Cornwell – baseadas em registros históricos – havia escravidão na Europa também. A questão da África deve ter sido por logística.

    Gilson

  13. Gilson • RPG • Educação
    mar 03, 2010 @ 12:01:52

    Sobre o cenário, um produto voltado para o público infanto-juvenil, isso fica bastante delicado mesmo.

    Gilson

  14. Luiz Fernando
    mar 04, 2010 @ 14:38:18

    É um jogo Valberto, e apenas isso. Se os filhos das pessoas virarem escravagistas/estupradores por causa de um jogo, o problema está na mentalidade do próprio adolescente (que já sabe o que é certo e errado) e os pais que não souberam educar. Pôr a culpa em um jogo pelas mazelas da sociedade e dizer que eles é que são a força influente que move os jovens é hipocrisia. Jogo Street Fighter RPG desde os 14 anos e nunca dei um soco em ninguém…

  15. valberto
    mar 04, 2010 @ 15:23:55

    Puxa vida, será que é dificil entender que eu sei que é um jogo? Será que é difícil entender que eu sou contra que mesmo que num JOGO sejam abordados certos assuntos e por achar que seja errado que certos assuntos sejam abordados nuim JOGO eu reclame a respeito, ou será que é muito difícil perceber isso?
    Nunca disse – aliás desafio alguém a mostrar no meu artigo onde eu me preocupava com as pessoas virarem escravistas/estupradores. A globo não conseguiu fazer isso, não vai ser tormenta que vai conseguir. Mas da mesma forma que eu reclamo quanto ao conteúdo de programas de TV eu o faço contra material que eu acho inapropriado.

  16. Gilson • RPG • Educação
    mar 04, 2010 @ 19:56:20

    Luiz Fernando, a questão, como citei acima, é que o jogo é direcionado a um público ainda em formação.

    Gilson

  17. Agnus_the_magi
    mar 05, 2010 @ 11:04:06

    Isso torna o cenário pesado, coisa que até então não era.
    Tormenta, mesmo com a Tormenta, sempre teve um ar bonachão-manga-feliz. Esses minotauros parecem saidos da Era Hiboriana. Em primeiro lugar está destoante com o cenário, que visívelmente sempre foi high fantasy, com um elemento pesado e realista como esse. A não ser que surja um palhaço-mago-sorridente que mata trocentos minotauros com o dedinho do pé… dai sim volta a normalidade.

  18. imiril
    mar 09, 2010 @ 17:08:03

    Tema muito polêmico não? Pena que a maioria parece não ter mesmo entendido o pensamento do Valberto… deixa ver se entendi melhor.
    Usando o Cenário de Tormenta como exemplo queremos focar um problema de muitos RPGs, video games, filmes, livros, etc: a “banalização” (essa palavra existe?) da violência e daquilo que nós, seres humanos, consideramos imoral ou desumano. Isso acontece no RPG quando os autores abordam temas dessa natureza sem a prévia orientação ou consideração sobre o assunto.

    Posturas como: lê quem quer, não é destinado a adultos, tem faixa etária, são meios licitos (legalmente falando) de encontrar formas “politicamente corretas” de publicar o assunto, afinal ninguém quer um processo. Mas, assim como o Valberto, acredito que deve existir nos autores bom senso moral e social ao tratar assuntos dessa natureza. É material desse tipo que dá ao RPGistas alcunha de adoradores do demônios, sociopatas, etc. para não falar de pano pra manga de advogados, delegados e bandidos que querem usar o jogo como álibi pra atrocidades de todo tamanho…

    Infelizmente foi-se o tempo em que as coisas eram preto no branco, bandidos e mocinhos, heróis e vilões. Isso não só no RPG mas na nossa cultura de modo geral. “Tudo depende do ponto de vista” é o que dizem… e ninguém tá nem aí pra o aspecto social ou moral da questão.

    Também sou pai e minha filha tem 5 anos e ainda não joga RPG… mas me preocuparia o fato dela jogar com um minotauro escravagista… preferiria que ela os combatesse e que o RPG, nesse caso, servisse como veículo de socialização e cultura informando e instruindo sobre a banda podre da sociedade. Mas lembro com certa saudade do tempo em que ser um vampiro era uma maldição e lutar contra a Besta pra preservar sua humanidade era o foco principal de certo cenário… onde hoje ser vampiro é o equivalente a ser um popstar; “adeus a Anne Rice, três vivas a Stephanie Meyer…”

    Fazer o quê? Acho que a “geração xerox” está ficando velha e os bons tempos estão passando mesmo. Da minha parte continuarei levantando a bandeira do RPG não somente “politicamente correto”, mas também moral e social. E, senão proibindo personagem malignos na minha mesa, pelo menos mostrando a eles que “o crime não compensa”.

    Gostaria que o “mal” fosse abordado com seriedade e inteligência, não só por autores, mas principalmente narradores e jogadores. Não que não existisse ou que fosse velado ou hipócrita, mas que fosse abordado com maturidade.

    Por fim, Tormenta aqui foi um mero exemplo de um problema mais sério e profundo que atinge em cheio outros Cenários e Sistemas.

  19. rsemente
    mar 12, 2010 @ 21:33:10

    Obrigado Valberto, transformou em palavras meus anseios.

    Sou contra a forma que deverá ser realizada, sempre achei os minotauros deslocados no cenário, e não concordar com isso ;e o certo (até legalmente).

    Para quem não entendeu, essa conversa vem rolando a um bom tempo na lista de blogs, e eu iniciei aqui: http://guerrasdraconicas.wordpress.com/2010/02/26/posters-motivacionais-minotauros-protesto/

    Faço o comparativo desse assunto com a Playboy. Ela não é aceita para vendas de menores correto? Agora veja um RPG que apresenta em seu interior um mundo plenamente jogavel onde vocé pode representar um estrupador escravagista?

    Em nenhum dos dois a coisa é real (a imagem da mulher pelada não é a mulher pelada, e o texto não é o fato), então por que a playboy é proibida (mesmo que a pornografia não seja crime)?

    Agora a escravidão e o estupro sim são crimes, e hediondos!

    Imaginem também se incluirmos um cenário onde o consumo de drogas narcóticas seja a regra e não a exceção, ou o assassinato…

    Nunca gostei dos Minotauros, e pra mim deveriam ficar como estiveram: vilões, monstros. e não heróis.

  20. rsemente
    mar 13, 2010 @ 11:34:31

    O fato é que escravidão + serviços sexuais = Estupro (que é o fato que acho mais pesado de toda a história)

    Ou você acha que o escravo terá direito de escolha em ter ou não ter relações com o seu senhor minotauro.

    Não estou sendo hipócrita, nunca tratei a morte de NPCs levianamente, sempre que possível invoco aquela regra de dano de contusão (-4 no acerto) para não matar.

    Por exemplo, na campanha atual que jogo meu personagem nunca matou ninguém (de quatro seções que joguei).

    Na verdade não queremos proibir nada, apenas chamar atenção, dos RPGistas (e se der de autores), para não tratar desses temas de forma leviana.

    No vindouro RPG Tormenta, é bem interessante que fique bem claro que os personagens jogadores com raça minotauros devam ser contra sua cultura original, talvez rejeitados por Tauron e pela sociedade táurica, a ponto de ajudar as outras espécies contra as praticas vis.

    Claro que o livro indicar fazer uma coisa não impede que jogadores mais maduros utilize-os de forma pesada, inclusive com os personagens o praticando (por exemplo um dos meus personagens já foi estuprado :(, só por que D&D não coloca em nenhum momento esse tema não significa que ele não pode ser incluído pelos jogadores se assim o quiserem).

    O que faço não é o pedido de proibição, e sim o pedido para se tomar cuidado ao usar esses temas, que eles de fato apareçam como temas negativos, que devam ser combatidos e não perpetrados, nem que seja de formaginária.

  21. rsemente
    mar 13, 2010 @ 17:33:22

    Cara, o problema aqui não é a não inserção, e sim a não inserção de forma leviana.

    Se for inserer tudo deve ficar bem claro como coisas erradas, e não normais.

    Geralmente os cenários de “Fantasia Medieval” passam longe do medieval, bem longe… Geralmente são a forma romantizada arturiana, onde todos são iguais e livres…onde o rei e bondoso e combate a tirania…

    Precisa apagar nada não Valberto, estamos na paz.

  22. valberto
    mar 13, 2010 @ 19:02:07

    Eu vou colocar em poucas palavras. Este lote é meu. As opiniões nos artigos são minhas. Eu escrevo o que eu quiser e sim, sou muito chato com o que eu filtro aqui. Se apaguei o que você Danilo (e-mail fornecido: megalomaniaco85@hotmail.com – 187.89.97.XX) é porque eu achei desnecessário E ofensivo, especilmente à minha pessoa. Não vou aceitar ser chamado de proselitista ou coisa que o valha, mesmo num argumento recorrente. Você diz que estou sendo hipócrita e isso sim é uma forma de ofensa. E não vai ficar. Estou apagando o seu comentário, senhor, e movendo qualquer outro seu para a pasta de SPAMS. Tenha um bom dia.
    E que conste: se você se sentiu intimidado, procure as disposições legais.

  23. Remo
    mar 24, 2010 @ 15:53:20

    Valberto, muito bom o seu texto — e, sim, você entendeu direitinho como as coisas funcionam no cenário. Os minotauros são isso mesmo — um pastichão greco-romano que veio para substituir as répteis de seios fetichistas/B&D/S&M.

    O problema começa a despontar quando se junta a cultura escravagista (que nunca é realmente detalhada nos suplementos) com o absurdo biológico dos minotauros — é isso que dá o cenário ser criacionista… –, de *precisarem* de fêmeas de outras espécies para se reproduzirem. Esse fato geralmente traz um tom de — “Vê só? Eles *precisam* de haréns de escravas, caso contrário a espécie será extinta!” (Não sei como são incapazes de ver que a extinção de uma espécie dessas seria desejável.)

    O resultado é o conhecido — uma escravidão “limpinha” (banalizada; usa-se a palavra escravidão, mas parece não ocorrer a quem escreve as implicações que você citou) e um tom perturbador de estupro (escravidão + sexo, que duvido que seja oferecido alegremente e de bom grado pelas escravas “bem tratadas”) e, é claro, a bestialidade (sempre que o livro diz que eles se reproduzem com fêmeas de outras raças*, é impossível não imaginar filmes pornôs da pior espécie — interespécie, no caso).

    *Aliás, salvo engano, essas fêmeas são sempre humanas e elfas — afinal, seria nojento se (e somente se…) fosse uma orc, né.

    Melhor seria se ou eliminassem isso — os minotauros não poderiam querer expandir território por, que coisa louca!, recursos naturais, em vez de ser para foder fêmeas e escravizar outras espécies? Ou que deixassem claro que o modus operandi dos ruminantes é desprezível? Afinal, como você mesmo escreveu, essa justificação pela religião tem mais furos que uma peneira.

    Mas pode haver esperança. Talvez haja o bom senso de, no texto da raça (aquele que os jogadores lêem) deixe claro que o minotauro-jogador é um desertor, um renegado que ativamente repudia toda a sujeira de sua terra natal e que combate, com gosto, todo o horror de Tapista e a religião podre do deus-monstro a que eles servem.

  24. André
    mar 25, 2010 @ 17:16:27

    Bom eu interpretei um elfo, necromante, que não gostava dos deuses. Queria ser imortal e cientista. Sabe de uma coisa? Ele ficou malvado e virou um demônio e eu joguei com ele assim. Engraçado… não acho oque ele fez certo, mas me diverti com o grupo e, bom, já que estou interpretando um vilão vamos fazer isso direito, certo? Ah, e vamos falar de RPG e como tem gente aqui que deve jogar e ver filmes violentos desde pequeno, como eu, e aje normalmente e tem repúdio por ações violentas. (Desculpa o português ainda to acostumando com o teclado do laptop.)

  25. valberto
    mar 25, 2010 @ 20:42:21

    Só por curiosidade, André, quantos anos você tem?

  26. André
    mar 26, 2010 @ 01:04:39

    24 ._.
    E sempre joguei jogos violentos pra descontar a raiva -.-
    Matar gente de mentira e/ou na imaginação é otimo as vezes.

  27. valberto
    mar 26, 2010 @ 02:11:32

    Os gregos chamam isso de catarse.

  28. felipe
    maio 24, 2010 @ 01:08:01

    “Negros não tinham alma, para a igreja católica”
    .
    Parei por aí

  29. Dan
    out 19, 2010 @ 17:45:26

    Quando jogar com um minotauro, tenha consciência de que você é um vilão ou um dos poucos indivíduos bondosos da sua sociedade – esse é o recado (y)

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