Mercado

Faz algum tempo que eu não falo de mercado. Vai ver eu não me sinto mais tão antenado como antigamente para tecer meus comentários à respeito. Ou quem sabe tenha caído a ficha de que hoje eu sou mais comedido em meus comentários e argumentos. Vai saber. Fato é que eu não sou nenhum entendedor do mercado – aliás, tirando os mercados que eu atuo como profissional (áreas de educação e nutrição) eu procuro manter distância de tendências e coisas assim.

Mas mesmo eu na minha auto-infringida cegueira pude perceber que o mercado está sim se agitando. Podem não ser os lançamentos que eu queria ver nas bancas e livrarias, mas são lançamentos. E todo lançamento – fora, claro, o Seres do Inferno – é um bom lançamento.

O mercado brasileiro não é como nenhum outro mercado no Mundo. Se no passado sobravam apaixonados amadores, hoje escasseiam os profissionais de nicho. Aconteceu alguma coisa que não permitiu que o mercado de RPG como um todo evoluísse. Prefiro não por a culpa em qualquer politicagem do governo.  Seria muito fácil apelar para a meritocracia pura e simples. Eu procuro outros agentes ocultos.

O mercado está do jeito que está hoje porque os jogadores foram educados para serem assim, do jeito que estão. É o velho e cômodo lance de empurrar com a barriga; deixar como está para ver como é que fica. Outra coisa que eu percebi é se ele está do jeito que está e não muda é porque alguém se beneficia desta situação. Assumir a sua parte no pacote de responsabilidades parece muito distante do ideal nacional. Os jogadores de hoje só são ruins porque deixamos que eles sejam. Onde estavam os mestres da “velha-guarda” para mostrar que RPG é mais que mata monstro, usa poder, pega tesouro?

Quando eu digo que o mercado brasileiro de RPG está meio estagnado eu não falto com a verdade, apesar de parecer que eu surtei. Temos poucos lançamentos – se compararmos com outras eras.

A idade média dos jogadores está aumentando, mas o seu número geral esta diminuindo. A cada dia que passa temos menos lojas especializadas, menos locais abertos para o jogo e menos encontros. E mesmo assim o jogador brasileiro nada faz. É claro que eu não faço – pode dizer alguém – eu só compro os livros. Quer movimentação maior do que esta? Bem para ser sincero, eu quero sim. Eu quero agitação, quero mesas de jogos, quero encontros locais, RPG nas escolas, nos clubes, no sesc… Onde você estava quando o pessoal do d30 DF fez seu último evento. Eu estava trabalhando de verdade. Qual é a sua desculpa?

Mas não é por isso que eu vou deixar de fazer a minha parte. E qual é a minha parte? Mexer, sacudir com o mercado. Fazer entender e entender que quem faz o mercado sou eu. Se ele esta ruim é porque eu deixei que ele ficasse ruim deixando de apoiar boas iniciativas ou apenas ficando em casa reclamando do preço. Precisamos de uma proposta combativa para atacar de frente a questão que o RPG se configura nesta primeira década do século 21. Os materiais estão aí: do econômico Mighty Blade ao cartonado em caixa do Dragon Age. Escolha suas alianças e lute por elas.

E quem poderia se beneficiar desta situação? Difícil dizer. Talvez uma meia mão de autores que conseguiram seu lugar ao sol e agora fazem sombra para qualquer um que queira chegar até onde eles estão. Ou mesmo a loja que vende pouco, mas não se arrisca. Reclamar é fácil irmão. Mas levantar a bunda da cadeira e dar combate é uma coisa que nem todo mundo pode ou quer fazer.

Só sei que do jeito que está precisamos nos sacudir, entender que o mercado somos nós e que nós mandamos nele e não o contrário. Conscientizar para não se deixar levar.

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5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Arquimago
    jun 22, 2010 @ 09:56:31

    Bom ver um artigo!

    Concordo com você! E o pior, quanto mais velho se fica talvez seja mais complicado atrair os jovens, eles podem estranahr um “tiozão” jogando.

    Precisamos nos mexer agora!

  2. Rodrigo Elutarck
    jun 22, 2010 @ 11:11:26

    Gostei do post, por ir de encontro com o que penso. Recentemente eu e o Fabio fizemos um encontro de RPG no parque lagoa do nado, foi bom mas poderia ser melhor, o pessoal de BH esta muito acomodado, principalmente os veteranos. O próximo encontro vou focar em divulgar o evento para novatos assim devo ter uma resposta melhor, pelo menos é oque eu penso.

  3. Ellayne
    jun 22, 2010 @ 11:41:54

    o Arquimago tem muita razão. Estamos ficando velhos para brigarmos pelo “mercado” de RPG. Eles é que deviam se esforçar para nos agradar, afinal eu trabalho, sou formada e posso pagar pelo livro/revista que me chame atenção. Eu comento um pouco mais no meu blog

  4. Arquimago
    jun 22, 2010 @ 13:21:06

    Na verdade eu acredito que podemos lutar sim, porem não sozinhos.

    Eu por exemplo adoraria ajudar, mas como fazer? Organizar um evento sozinho? Já que por onde moro não conheço outros RPGistas ativos e todas as tentativas de contado foram um fracasso… Por sorte um amigo da minha irmão pediu uma dicas por meio dela, escrevi em um papel sistemas bons como Mighty Blade,o M&M e até a 4ed mas falei que era cara e a mais famosa, não a melhor.

    Se ele continuar jogando vou ficar muito feliz, mas sinto que podia fazer mais, como o tio Nitro indo a encontros… porem a iniciativa e a propagando principal devem sim ser da editoras, ai concordo com você, mas o auxilio precisa vir do publico consumidor.

    Afinal RPG não se joga sozinho para só com propaganda as editoras sobreviverem.
    E fica legal aparecer em eventos com apoio da editora, daí aquela visão de um cara velho e estranho que joga some, ele vira “alguém que apóia e editora”.

  5. Silverdagger
    jun 26, 2010 @ 01:36:15

    Oi Betao, acompanho seu blog semanalmente. Um dos melhores do genero. Obrigado pela disposicao em continuar escrevendo.

    Sinceramente, acho que existe uma certa paranoia com relacao ao “mercado” – se esta bom, se esta ruim, se vai piorar, por que ele esta do jeito que esta, do jeito que esta nao pode ficar, se ele vai desaparecer, razoes porque ele nao se renova, etc.

    O mercado sao os individuos que consomem os produtos, compram livros, etc. Se existe um publico que consome certo produto, alguem ira ver essa oportunidade e atender essa demanda.

    Voce comentou que:

    “Outra coisa que eu percebi é se ele está do jeito que está e não muda é porque alguém se beneficia desta situação. ”

    Sei la, acho simplesmente que se a situacao nao muda eh porque as pessoas estao satisfeitas com o que tem.

    Por que vao lancar livros se nao ha demanda que sustente o mercado?

    Se houvesse demanda lancariam livros. Se nao lancam eh porque nao ha demanda. Quem vai lancar produtos que nao serao consumidos? Quem vai deixar de lancar produtos que serao lucrativos e bem-recepcionados?

    Acredito que exageramos a importancia do RPG. Eh apenas um hobby, nao deveria ser um “modo de vida”. Gosto do hobby, acompanho as noticias, gasto horas semanalmente lendo varios blogs, compro meus livros… agora, religiao eu ja tenho a minha. :-)

    Se o RPG esta minguando, digamos assim, eh porque o publico nao esta mais interessado. Os individuos mais jovens hoje tem diversos outros hobbies que concorrem com o RPG. Antigamente nao era assim.

    Isso significa que o RPG vai acabar e devemos “lutar” por ele para manter a chama acesa “evangelizando” novos jogadores? Sim e nao.

    Sim, porque devemos apenas fazer aquilo que nos satisfaz – seja la o que for, postar em blogs, acompanhar os lancamentos, discutir sobre o hobby num boteco, organizar eventos, abrir lojas, escrever livros, etc…

    Nao, porque nao precisamos nos sentir obrigados a nada. Se Joao quer organizar um evento ou mestrar/jogar em um, otimo. Se Pedro nao quer pois acha que tem coisas mais interessantes para fazer, otimo tambem. Se Pedro compra um livro porque gostou dele ou quer simplesmente “dar minha contribuicao para o hobby”, otimo. Se Joao acha que tem usos mais interessantes para seu proprio dinheiro, otimo tambem.

    Eh questao de tempo, dinheiro e prioridades.

    Divagacoes apenas. Nao sei se faz sentido. Mas eh isso que da nao ter blog para postar suas proprias ruminacoes – eh preciso invadir os comentarios de outros blogs uheuheuheue.

    Em todo caos, continue com o bom trabalho (mas apenas enquanto voce tiver saco ;-)). Eu continuarei a ler (enquanto meu tempo permitir).

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