A relatividade moderna nos mundos de fantasia medieval.

É engraçado que somos guiados, em parte, por nossas convicções. E por sermos guiados por elas é como se ela fosse um cristal ou lente que fica em nossa frente. Se este cristal é verde tendemos a ver o mundo na cor verde. O leite, que cor tem? Verde claro! Um carro preto? Verde escuro! Assim, essa nossa “lente”, essas nossas convicções nos permitem ver e compreender o mundo segundo o nosso entendimento. E isso não é uma coisa ruim. Permite que tenhamos sonhos, desejos e gostos diferentes dos outros.

O problema é que estas mesmas convicções, estas mesmas lentes que nos permitem ver o mundo também nos negam ver o mundo de outras cores. Se a sua lente é verde não vai enxergar o vermelho, pelo menos não como ele é. Se sua lente é o relativismo moral do século XXI provavelmente você não será capaz de perceber o maquineísmo de outras eras.

Mas até então isso não é um problema a não ser de interpretação. Como eu não tenho mais a opção de interferir na relação entre os homens da Grécia antiga cabe a mim aceitar a homossexualidade que lá existia de acordo com a minha própria visão de homossexualidade. Fato é que ela existia. Poderia ter outro nome e outro contexto histórico, mas que existia, ah, existia sim. Em poucas e boas palavras: o povo queimava o toba naquele tempo, goste você disso ou não.

Mas nos mundos de RPG nós podemos não apenas interferir nas relações dos cenários, como podemos da nossa interpretação pessoal a conceitos de época. E a isso damos o nome de liberdade poética.

Por exemplo, sabemos que a vida do homem medieval era absolutamente suja miserável e sem perspectivas. Não obstante pintamos o medievalismo fantástico com cores do Trovadorismo e do Arcadismo: vilas lindas bem “limpinhas”, com gente do povo bem vestida e corada, sem doenças e bem alimentada vivendo em paz até que aquele bando de orcs fedorentos atacam o lugar.  Pegamos as mulheres, notadamente conhecidas na história clássica por sua submissão e transformamos em cavaleiras, magas, samurais, feiticeiras e só deus sabe o que mais. Introduzimos novas tecnologias, misturamos períodos históricos, adicionamos raças, costumes e enfiam, inserimos até o nosso sistema de julgamento.

E é justamente este sistema de julgamento que nos faz questionar com o relativismo o que se passa no mundo medieval. As pessoas são boas? As pessoas são más? Os monstros são maus? Os paladinos defendem a bondade, a justiça e seu deus? Mas o que é exatamente cada coisa dessas: o que é bondade, o que é a justiça e como funciona o credo do deus daquele paladino? Os fins justificam os meios como dizia um certo Maquiavel, ou  a retidão moral deve ser inquestionável, assim como o bem não se mistura com o mal e vice-versa?

Assim fazemos por que nos é natural. Não é possível ser de outra forma. Na verdade não é que não seja possível, mas nos é soberbamente difícil tentar ver as coisas sob a ótica de outro cristal, especialmente quando não gostamos do que aquele prisma nos mostra.

No mundo medieval existe uma tendência a ver tudo numa cor só. O bom e o mal não tendem a ser conceitos abstratos e sim reais e absolutos. É como se você pudesse cortar um pedaço do mal com uma faca, fritar e comer em seguida.

A minha sugestão é: se você não gosta do maniqueísmo da época, mude. Reescreva, transforme, modifique. Você é livre para fazer isso. A vida é, curta, play it naked!

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4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Arquimago
    ago 14, 2010 @ 18:43:13

    A discussão deve estar boa mesmo em! dois posts!

    Cara isso da visão do outro foi mais que debatido do meu curso de historia e agora na pedagogia.

    Porem no curso de historia nos era ensinado a “não julgar, compreender e só!”

    Agora na pedagogia é “compreenda, e se for ruim, transforme em algo bom para a sociedade”…
    é excelente para dar um nó na cabeça!

    Mas no final é como você falou tem uma lente, mesmo que nos mesmo a troquemos por outra de outro grau e modelo quando queremos…

  2. Talude
    ago 15, 2010 @ 02:39:46

    Eu vi num blog no qual um rapaz postou como funciona um banco e como assaltar ele e tal em Fantasia. Nessa época, não existiam bancos tal qual como existem hoje, mas já existia a figura do banqueiro.

    Uma outra coisa é que o termo não é exatamente Fantasia Medieval e sim apenas Fantasia, há elementos medievais inseridos nela, mas em inglês o termo “Fantasia medieval” é usado quase nunca, apenas Fantasia é usado.

  3. valberto
    ago 15, 2010 @ 11:13:04

    Em cenários “moderninhos” como Ragnarok ou mesmo WoW temos as facilidades de casas de leilão, teleporte, serviço de taxi-aéreo, bancos, entre outras facilidades.

  4. Coisinha Verde
    ago 17, 2010 @ 13:56:34

    Legal a ideia ter evoluido o post anterior para este!

    É natural que haja essa modificação do mundo de fantasia para transformar como você quiser. Não acho nada de errado e acho até mt interessante essas transformações. Eu só acho que estes elementos devem é focar no que o GRUPO quer. Se o mestre quer colocar naves espaciais no cenario de fantasia dele, eu como jogador ficaria decepcionado (assim como filmes… e cito Highlander 2… WTF?!?!)

    Um elemento importante que sempre ocorre em cenarios de fantasia é o capitalismo como o atual, em vez de um feudalismo. Acho que esse é um dos elementos mais dificeis de introduzir para pessoas que não daram uma boa estudada ou não consigam ser capazes de imaginar uma sociedade feudal.

    Mas claro que isso nem é um grande problema. A historia do RPG é para você e seu grupo! Se todos acham legal… ótimo!
    :]

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