Recordações.

 

Eu me lembro quando chegamos em Dédalo. Londres estava arrasada pelos distúrbios civis e o meu pai gastou as últimas economias para que eu e minha irmã viéssemos para cá, no compartimento de carga de um avião da Microsoft.

Mesmo cheia como estava à época a cidade ainda era linda e ainda dava para sentir o cheiro do seu esplendor. Descemos no aeroporto da zona oeste – difícil pensar que hoje aquelas pistas são a vila do aeroporto: uma zona controlada pela milícia dos Greenies.

Nestes últimos 25 anos que vivo em Dédalo eu vi muita coisa acontecer. Vi a cidade mudar. Mas sempre que ela muda, muda para pior. Eu perdi a conta das vezes em que eu e a minha irmã fomos expulsos de alguma zona. Hoje, ironicamente, vivemos perto dos portões que dão acesso á zona de guerra. Quase ninguém quer viver aqui, mas fica perto de onde eu trabalho.

Eu sou um catador. O meu trabalho é visitar a zona de guerra em busca de partes úteis. Peças cibernéticas de soldados abatidos, armas, munição, qualquer coisa que dê para ajudar. Um bom braço cromado pode valer um mês de água potável ou mais. Um chegado meu, o Tim, achou um pendrive com mais de 150 músicas de boa qualidade do assim chamado Pop dos anos 2000. Dizem que ele comprou tanta água que deu para tomar banho de banheira nela. Juro.

Claro, os riscos são grandes, de verdade. Minha irmã não me acompanha nessas “viagens de trabalho”. Ela esta terminando o curso de medicina da clínica da rua Rudd. Ela vai ser uma “doutora”. Mesmo que ela ainda não seja, todos os dias batem à nossa porta para algum tipo de atendimento. Eu mesmo já aprendi alguns truques, como estancar sangramento com pasta de algas estragada e como usar a cachaça da destilaria como anestésico.

Apesar de morar num lugar perigoso, o meu bairro é classificado como zona branca. Ou seja, sem o domínio das milícias. É bom por um lado, já que eu não tenho de pagar proteção para ninguém, mas também é ruim porque não tenho a quem recorrer caso alguma coisa dê errado. Costumo fazer favores aos vizinhos, esperando que no dia que eu precise, eles saiam de suas tocas para me ajudar.

Engraçado tocar no termo “toca”. Eu achei que era nisso que viveríamos quando chegamos aqui, dois anos atrás. Mas nada disso. Vivemos num contêiner-apartamento. Um lindo modelo High Cube 12 por 3. Do chão ao teto tem quase 3 metros. O nosso é o azul 3-21. Ruim são subir as escadas, mas descer pelo poste é legal. É uma boa coisa ter um azul. Eu não gosto dos vermelhos. Fizemos duas escotilhas no ano passado para usar como janelas. No nosso bloco, o 3, têm aproximadamente 43 contêineres modelo High Cube Azul. Todos ocupados. Não temos água encanada, mas a energia dos painéis solares é abundante o ano todo. Tanto é que o Mário do 3-42 vive de recarregar baterias. Sempre que posso pagar peço para ele recarregar o meu i-pod: a prioridade é o meu GPS. Não dá para ir ao trabalho sem um GPS carregado e funcionando.

Claro que não vou na zona de guerra sozinho. Eu não sou louco. Vou com o resto da minha equipe. Associados talvez seja a palavra certa. Sim, vou lá com os meus associados. Sem uma equipe é meio que suicídio entrar lá… especialmente com as equipes de segurança entrando e saindo o tempo todo. Não que com uma equipe seja risco zero. Na última viagem perdemos dois “Soldados” e um “da Pesada”. Uma pena, a minha irmã gostava do Tom.

Mas o que sinto mais falta mesmo é de ver TV. Existe um cinema de cabines no fim da rua Oliveira, mas tem muita prostituta e travesti por lá. Eu sinto falta dos desenhos do Tom e Jerry. Tá na minha hora. Eu não sei se essa filmadora vai funcionar, mas se assim o fizer, quem sabe eu não consigo copiar alguns desenhos para o meu i-pod.

 

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4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Trackback: Tweets that mention Recordações. « Lote do Betão -- Topsy.com
  2. Rafael G.C.
    out 20, 2010 @ 13:31:09

    Catador, arquétipo exclusivo do cenário, huahua.

    Achei interessante a classificação das zonas por cores. Seria bom se tu postasse em outro artigo sobre ela. Fica a sugestão!

    Rua Oliveira!? Deve ser uma região de brasileiros!
    A ilha pelo jeito é uma miscelânia de culturas.

  3. Arquimago
    out 20, 2010 @ 16:29:32

    Bem interessante, já está me dando mais vontade de jogar e já deu para ter uma boa pegada de como as coisas funcionam.

  4. rsemente
    out 28, 2010 @ 21:46:15

    Estou imainando o cenário para GURPS :)

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