Verdades Escondidas – Desvendando Dédalo

Verdades Escondidas

 

A iluminação na sala de interrogatório parecia não vir de lugar nenhuma e mesmo assim estar em toda parte. Não havia sombras. Duas cadeiras brancas, uma mesa de ferro e um grande espelho que ia de um lado a outro da parece eram os únicos móveis do lugar. Estava lá a algum tempo, não sabia precisar quanto. O braço latejava onde havia sido ferido por um tiro rebelde, mas o curativo feito pela equipe de evacuação parecia estar segurando bem. Teria sorte se não infeccionasse.

A porta abriu e um senhor de idade, careca, com grandes óculos de leitura entrou na sala. Ele era magro, mas com uma barriguinha saliente, como o alguém que fez muito exercício na juventude, mas agora a força parecia fugir dos músculos. Nas mãos trazia uma pasta de arquivos, com um case com dezenas de pendrives e um PDA enorme. Ele sorriu, mostrando os dentes perfeitos e disse ao sentar-se:

– Boa noite tenente Cyrrus. Desculpe por mantê-la aqui todo este tempo, mas estamos com pouco pessoal. Sou o Investigador Morel.

“Estar com pouco pessoal” deve ser a desculpa mais manjada de toda cidade alta quando alguma coisa atrasa, pensou Cyrrus. Ela tentou perscrutar o homem em busca de alguma dica do que ele ou ela estavam fazendo ali, mas não conseguiu nada. Ele deveria ser bem mais do que aparentava.

– Tenho apenas algumas perguntas – continuou ele, num tom metódico e cordial – e assim que terminarmos terei prazer de levá-la até a ala prata do hospital central. Não queremos que este ferimento a bala infeccione, não é mesmo?

Cyrrus não respondeu. Não sabia o que responder. Apenas ficou olhando quando ele abriu o PDA e colocou um pendrive. Abriu alguns arquivos, espalhando-os pela tela com a ponta dos dedos ossudos. Depois se recostou na cadeira e pegou uma caneta ótica para fazer anotações.

– Diga seu nome, cargo e parâmetros da última missão para os registros, por favor.

– Martha J. Cyrrus, 23 anos, Tenente, classe prata III – ela hesitou por um momento e olhou para o Sr. Morel que fez um sinal afirmativo de incentivo com a cabeça e continuou – eu e minha equipe estávamos numa missão de patrulha na zona fronteiriça mais ou norte da ilha. Relatos falavam de rebeldes que estavam ocupando prédios perto de uma estação retransmissora de energia. Era para ser uma missão padrão: entrar, limpar o prédio e sair. Mas alguma coisa deu errado.

– Deu errado? Explique por favor.

– Essas missões não são uma ciência exata como o pessoal da Intel gosta de pensar. É sempre arriscado entrar em território rebelde ou ocupado por rebeldes. Descemos a duas quadras do lugar e deixamos o nosso piloto circulando a área, pronto para nos resgatar se fosse preciso. – ela tomou fôlego e continuou – Chegamos ao prédio e encontramos forte resistência. Com muito custo conseguimos rechaçar os invasores.

– “Com muito custo” é como você se refere as baixas do sargento Ramirez e do Cabo Kristopherson?

Cyrrus engoliu um seco. A morte dos colegas ainda estava recente. Eles haviam voado juntos em mais de 40 missões e todos tinham voltado para casa. Foi uma fatalidade o que aconteceu com eles. Ela sentiu remorso e deixou-se abater por um instante.

– Sim, falo destas baixas – ela tentou parecer profissional – O prédio já estava seguro quando solicitamos resgate. Foi quando recebemos um recado da central para investigar o prédio mais a fundo. Um operador chamado Murdock nos guiou.

– Allen P. Murdock, cabo-operador de segunda classe, lotado no 2° comando da Intel, da zona norte. Operador classe prata V. ele deu ordens para vocês vasculharem o prédio em busca de alguma coisa específica.

– Eu não diria específica – disse Cyrrus, tomando um gole de água – diferente foi o que ele usou para se referir “aquilo”.

Ela apontou para o PDA onde uma imagem da “coisa” estava lá. Parecia um enorme cilindro. Uma espécie de incubadora. Ou câmara criogênica. Não saberia dizer. As ordens eram pegar aquele material e trazer de volta á todo custo.

– Mas alguma coisa aconteceu no caminho de volta, não é mesmo?

– Sim…. – disse Cyrrus como se não fosse capaz de entender o que aconteceu – Parece estranho, mas começamos a ouvir vozes na nossa cabeça. Eu ouvia vozes. Algo como um comando, que dizia que estávamos em grande perigo. Que não deveríamos confiar em ninguém. Dali o Soldado Matos sacou sua arma e nos atacou.

– Acredita que Pedro C. Matos poderia ser um traidor infiltrado?

– Não.

– E tem alguma explicação para o que aconteceu?

– Não.

O homem escreveu no PDA. Longos minutos de silêncio onde o único som que Cyrrus ouvia era sua própria respiração e o som da caneta arranhando a tela do PDA.

– Um dos disparos fez a caixa que estavam carregando abrir, certo?

– Sim, está correto.

– Você viu o que saiu de dentro dela?

– Não. Mas nossas câmeras nos capacetes devem ter gravado.

– Sim, elas gravaram. Mas você chegou a ver as imagens?

– Não. Quando acordei, Charles Berkley, nosso piloto já tinha me resgatado. Além de mim ele é o único sobrevivente da equipe.

– Você fala dente Charles Berkley?

Cyrrus olhou incrédula para o monitor do PDA. Era uma gravação de uma câmera de segurança. Um homem muito parecido com Morel o estava interrogando. De repente o homem sacou uma pistola e atirou nele à queima roupa. Ela tentou se mover, mas estava pesada demais para isso. Como se estivesse drogada.

– Sim, a água tem um anestésico forte, ativado pela adrenalina que você esta despejando no seu sistema nervoso agora. Você não tem idéia no que se meteu, mas é melhor assim. – Ele engatilhou a arma e apontou para a cabeça de Cyrrus – Tudo daria certo se você não tivesse deixado o espécime alfa escapar. Agora vou ter de mandar uma equipe de segurança de verdade até a zona rebelde em busca dela.

O som do disparo foi longo e ecoou pela sala.

————————————————————–

Epílogo: O ombro ainda doía, mas o Dr. Samson fez um bom trabalho com ele. Já fazia uma semana que Cyrrus estava vivendo entre os rebeldes.

Esse pessoal da Intel deveria ler melhor as fichas. Cyrrus tinha uma deficiência metabólica: ela queima anestésicos como uma criança transforma açúcar em energia.

O trabalho como segurança do Hospital na rua Rudd não era mais complicado que trabalhar nas forças de segurança. E além do que, ela poderia explorar com calma o PDA e os pendrives que ela tomou. Existia muita coisa que ela não entendia ainda sobre o projeto  Atena Minerva, sobre os Alfas e os Betas… mas ela ia descobrir. Cedo ou tarde.

 

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Arquimago
    nov 14, 2010 @ 18:39:11

    Cada vez mais interessante! Alma final? Próximo passo na evolução, a projeto inicial da ilha, antes do fim do resto do mundo? Seria o “final” do mundo real? Seria isso o que causou o fim?

  2. Alexandre Fnord
    nov 15, 2010 @ 10:28:41

    Cyrrus deve ser uma ótima personalidade entre os rebeldes, depois que a Intel tentou fazer a queima de arquivo…

    Continua ótima a descrição do cenário.

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