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A lei da oferta e da procura

 

 

Uma das coisas que eu tenho me interessado muito nos últimos dias é a questão dos mercados. Não, não estou falando do mercado de RPGs. Esse realmente cai na minha linha de interesse a cada dia que passa. Já tenho os livros e os sistemas que quero e não me vejo mais parte do mercado como eu costumava fazer.  Estou mais interessado nas leis de mercado que regem a nossa economia.

Por que? Simples. Os escritos sobre Dédalos estão avançando paulatinamente e um dos itens que me causou mais fascínio foi justamente a economia do lugar. Tentar descrever como funciona ou funcionaria uma economia humana sem o papel decisório de uma moeda corrente foi um desafio interessante. Muito mais do que isso, imaginar como funcionaria a economia que estamos acostumados a vivenciar em mundo de fantasia é um desafio que vem deixando de ser uma mera curiosidade de game-designer para ser algo bem mais instigante.

Toda essa elucubração gira em torno das teorias de Adam Smith, o pai da economia moderna. Filósofo iluminista foi um dos teóricos mais influentes da economia moderna, responsável pela Teoria do Liberalismo Econômico. É o pai da lei de oferta e da procura.

Gabriela Cabral, pesquisadora, do UOL educação nos conta que “A Lei da Oferta e da Procura (Demanda) busca estabilizar a procura e a oferta de um determinado bem ou serviço. Oferta é a quantidade do produto disponível em mercado, enquanto procura é o interesse existente em relação ao mesmo. A oferta depende do preço, da quantidade, da tecnologia utilizada na fabricação entre outras coisas relacionadas aos produtos e serviços. A procura é influenciada pela preferência do consumidor final, a compatibilidade entre preço e qualidade e a facilidade de compra do produto”.

Na fantasia medieval costumamos colocar estas questões de uma maneira bastante “fast-foward”. Existem apenas uns poucos tipos de moedas genéricas (ouro, prata, bronze) e os preços são relativamente os mesmos. Jamais vou esquecer da cara feia que um jogador fez quando foi comprar uma espada longa numa cidade costeira e viu que o preço estava bem acima da tabela do Livro do Jogador. “Ei, eu não faço as armas. Eu as importo. Esta espada está comigo a pelo menos dois verões sem que alguém queira comprá-la. Mantê-la em bom estado, por conta da maresia é um desafio para mim. Se quiser, este é o preço. Tenho de receber de volta pelo menos o investimento que fiz nela”. A explicação do vendedor não chegou a convencer o jogador , mas como ele precisava da arma, ele a comprou.

Não levamos em consideração também a relação entre as economias das nações envolvidas. Muita gente simplesmente ignora essa questão. Por que eu vou comprar uma espada vinda do mar das espadas, quando a outra espada vinda das terras dos vales são muito mais em conta? Será que os nobres de Waterdeep não fariam algum tipo de embargo as mercadorias vindas de Narfell, pelo seu preço excessivamente baixo?

Poucos são os RPGs que lidam com o assunto. No próprio Forgotten Realms, 2ª edição, um aparte escondida do livro fala das dezenas de tipos de moedas existentes no mundo. Vi umas poucas linhas no RPGQuest da Daemon, com uma regrinha no mínimo interessante: Quanto mais longe da capital, mais caro e raro o item fica.

Isso pode ser visto mais especialmente em jogos eletrônicos, como World of Warcraft. Na cidade de Stormwind existem vendedores saindo pelo ladrão. Professores, mestres de classe e lojas para onde quer que se olhe. Basta que nos afastemos um pouco para Goldshire ou Westfall e vemos que as coisas vão rareando. Aliás, neste tipo de jogo é que você pode ver como a lei da oferta e da procura agindo como em poucos outros.

Existe uma série de profissões no WoW. Elas vão desde minerador ao herbalista, passando por encantador ao alquimista. Mas uma coisa interessante é que todas as profissões se relacionam entre sim: um ferreiro faz armas e armaduras formidáveis, mas precisa de matéria prima que apenas mineiros podem conseguir; encantadores e alquimistas precisam das plantas colhidas que lhes servem como matéria prima; uma pessoa que precise de couro tratado deve ir a um “peleiro”. Nem posso imaginar os alfaiates de WoW sem uma boa quantidade desse pessoal por perto.

Assim, itens que não valeriam nada ou quase nada quando vendidos a NPCs, podem alcançar valores astronômicos quando vendidos em casas de leilão. Neste caso é levar o que eu quero vender (ofertar) para as pessoas que podem querer adquiri-lo.  20 unidades de “pele leve” (light leather) valem pouco mais de 15 moedas de cobre. Mas, colocadas numa casa de leilão, mesmo com a concorrência, podem chegar facilmente a 50 moedas de ouro. Imagine isso. Eu já vi cobrarem até 150 moedas. E isso vale para qualquer coisa! Uma espada encontrada na viagem pode valer pouco mais que algumas moedas de ouro, mas colocada a disposição de pessoas que realmente a queiram, pode chegar até algumas centenas de moedas. E nem estou colocando na roda os itens mágicos.

Continua Cabral: “Nos períodos em que a oferta de um determinado produto excede muito à procura, seu preço tende a cair. Já em períodos nos quais a demanda passa a superar a oferta, a tendência é o aumento do preço”. Esse é o básico da lei do mercado. Se existe muita gente atrás de um determinado produto é normal que o preço deste produto suba. É o caso das passagens de coletivos irregulares. Durante a semana eles não custam mais do que o preço do ônibus regular. Mas em dias de chuva, ou quando há greve do ônibus regular o preço vai lá em cima. É o tal do lance: você quer ir ou não? É importante para você? Quanto vale para você? E se não for uma passagem de ônibus e sim um remédio que pode ser a diferença entre a vida e a morte de alguém?

Outras empresas fazem questão de manter poucos produtos no mercado para manter o preço dos que já estão nele altos. É o caso da Toyota: ela produz menos picapes do que tem gente querendo comprar. Dessa forma o preço nas concessionárias é sempre alto e mesmo quando alguém vai vender a sua usada o preço está lá em cima. Outras preferem ganhar na quantidade. Foi o caso do Playstation 2 e atualmente das impressoras jato de tinta: você paga muito pouco pelo equipamento e quando vai repor as peças, elas custam caro. Com o preço de 4 ou 5 CDs originais do PS2 você compra um PS2 novo; em alguns casos você precisa desembolsar mais pelos cartuchos de tinta da sua impressora do que pela própria impressora!

Não podemos esquecer que a lei da Demanda não depende apenas da disponibilidade do item. Outros fatores que podem influenciar o preço são os desejos e necessidades dos compradores; o poder de compra; a disponibilidade dos serviços – concorrência; existência de produtos complementares ou substitutos; a capacidade das empresas de produzirem determinadas mercadorias com o nível tecnológico desejado, entre outros. Ou seja, nem sempre o mais barata será preferido. Não é como Diaz a Ricardo Eletro: Preço não É tudo. De minha parte eu não troco os serviços de uma empresa que me atende superbem para outra, apenas porque ela é mais barata. É por isso que eu não troco minha banda larga da GVT e é o mesmo motivo de eu querer me livrar urgentemente da desgraça que é a Sky (não assine, é roubada!).

Se você tiver isso em mente vai perceber que determinar os preços é muito mais divertido do que consultar os preços nas tabelas dos livros de jogo. É o momento de você colocar em prática os conhecimentos que você tem do mercado e movimentar a sua mesa.  Afinal, você não acha que aquela última poção de antídoto na loja perdida no meio do fim do mundo vai custar a mesa coisa que da última vez…

 

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5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Arquimago
    nov 17, 2010 @ 17:27:40

    Legal essa abordagem e principalmente ser um a “cria” do projeto Dádalus.

    Acredito que muitos poucos pemsam nisso porque “não faz parte da aventura”, é algo secundário, por isso que é melhor seguir o que tem no livro e ir logo para parte interessante.

    Mas acho que cenários de mercenários como Shadowrun já dariam maior importância para isso.

    Mas também se o mestre utilizar, é uma das coisas que dá “vida” gosto ao cenário e deixa ele mais verossímil, a não ser que vivemos no mundo comunista, onde ou tem e é tudo o mesmo preço, ou o mercado negro é bem forte!

  2. Trackback: Tweets that mention Quanto você disse que isto custa? « Lote do Betão -- Topsy.com
  3. guiguimn
    nov 17, 2010 @ 18:15:11

    Frequenta o TV Tropes? O que você escreveu ecoa maravilhosamente as ideias do artigo “Adam Smith hates your guts”.

  4. valberto
    nov 17, 2010 @ 20:23:31

    Infelizmente eu não conheço. Poderia me mandar o link?

  5. Savyo
    dez 02, 2010 @ 09:12:00

    Eu jogo Warcraft e sou viciado em Desert Operations!

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