Reinventando a roda…

Ou complicando para ser diferente.

 

Faz algum tempo – não saberia precisar quanto – eu escrevi um artigo que dizia que o RPG tem de se reinventar se quiser continuar existindo. Assim como os filmes e os videogames, o RPG deveria encontrar uma fórmula mais moderna e atrativa para se comunicar com o seu público e mesmo assim ser atraente financeiramente. Eu me lembro de ter citado na época o termo “agregar valor” ao produto do RPG em si.

Bem essa revolução começou nos Estados Unidos, onde a 4ª e mais recente encarnação do maior RPG de fantasia medieval que já rolou um d20 sobre a mesa da cozinha de alguém praticamente abandonou a venda de livros escritos e passou para o mercado de PDFs e acessórios especiais virtuais. Fichas on-line, programas de organização e cartografia e até uma prometida mesa virtual. É uma vertente para o futuro. Você paga para ter acesso ao conteúdo fixo igualzinho paga para acessar a sua conta no Ragnarok ou World of Warcraft. Esse conteúdo, por sua vez, é atualizado de tempos em tempos: as famosas atualizações.

No Brasil esta mudança de paradigmas começou com um livro e uma editora: o Era Perdida RPG, da editora Revistaria Digital. Eu ainda não tive a oportunidade de ler o livro, mas uma coisa que eu li no reduto do bucaneiro atiçou a minha curiosidade sobre ele e praticamente me fez despejar este artigo na tela do computador.

A premissa é a mesma de jogos como Ragnarok. Você paga para acessar o livro no site da editora. Você precisa de conexão para ter acesso ao SEU livro e de um programa especial para ler o tal livro. Até onde eu entendi você pode imprimir o livro, mas não pode “fazer uma cópia de segurança” (HD) do seu material em casa.

Se você pensar bem podemos estar diante do futuro das mídias com o avanço da internet: você não teria mais nada no seu computador e nem compraria CDs ou cartuchos de videogame: basta pagar uma taxa, baixar e jogar seu jogo favorito. Pode ser um problema em locais onde a banda larga de qualidade ainda não esta disponível (99% do território brasileiro), mas é uma opção para o futuro.

Um dos problemas disso, óbvio, é que você assina o conteúdo do livro e não é seu dono. Existe uma diferença. Eu tenho o meu Rules Cyclopedia e posso levá-lo onde quiser, emprestá-lo para quem eu entender e fazer com ele o que me der na telha. Eu posso simplesmente esquecê-lo na estante pelos próximos dez anos, e depois tirar a poeira e chamar os amigos para jogar. Mas será que eu poderia fazer o mesmo com este livro? Que garantias reais eu tenho que dentre dum certo período de tempo a editora simplesmente feche as portas? Uma coisa é você ter um RC em casa, virtualmente para sempre, e outra é assinar para ler um livro para ler on line quando a editora deixar.

Outro ponto: quando eu tenho um livro eu gosto de rabiscar nele. Escrever anotações, sublinhar textos e puxar setas indicativas de coisas importantes. Poderei fazer o mesmo aqui?

Não vou entrar no mérito do sistema do livro aqui. Se ele é, como eu li, uma mistura de CODA com Storyteller, bem, não cabe verificar sua veracidade neste artigo. Fica para quem quiser.

A meu ver, mesmo por R$5,00 reais, se eu compro algo, quero que ele seja meu. Ou pelo menos que tenha mais o que fazer do que ler na tela do notebook, gastando a minha conexão com a internet, quando eu posso jogar RPG na tela do computador em jogos livres, com direito a trilha sonora, gráficos bacanas e monstros animados. E não como a ilustração que eu vi, lá no reduto.

Se este é o futuro das mídias, espero que ele demore um pouco mais para fazer sua estada no Brasil. Não me agrada ter de depender da internet para jogar RPG… deixe-me ser dependente da internet para ler notícias, falar com os outros ou ver pornografia. Jogar RPG é coisa simples. Dados, livro e folha de papel. E só.

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5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Reduto do Bucaneiro
    fev 13, 2011 @ 14:43:15

    Opa….obrigado por ter comentado sobre nós na matéria.

  2. Arquimago
    fev 14, 2011 @ 08:51:54

    Concordo com você, mas acho que talvez esse só seja o futuro do RPG, quando for o futuro dos livros, e ainda sim teria a forma “física”.
    Acho que seria como um TV paga, você teria por mês muita coisa, mas se quisesse algo teria os especiais que você iria comprar depois, ou se tu não paga por mês, teria que esperar sair esses especiais para ter acesso ao conteúdo.

  3. Trackback: Tweets that mention Reinventando a roda… « Lote do Betão -- Topsy.com
  4. rsemente
    fev 14, 2011 @ 14:18:56

    Valberto, o pessoal da retropunk parece que também vai vender uns livros on-line, livros pequenos e tal, mas em PDF, liberando sem problema, assim como a Secular que vai fazer isso com o Busca Final.

    E acredito que o pessoal do era perdida deve ter tido um certo custo para proteger o livro e que na verdade não tem proteção nenhuma (basta tirar printscreen da tela e fazer o PDF do livro, ou no pior caso se o programa não permitir printscreen basta imprimir e escanear).

    É trabalhoso mas bem menos do que piratear livro impresso.

  5. Janary
    fev 15, 2011 @ 16:57:22

    Betão, vez por outra um grupo de jogadores ou algum mestre começa uma discussão perto de mim sobre o futuro do RPG com notebooks e equipamentos eletronicos afins… uma serve pra trilha sonora, outro pra rolar dados, outra isso. Acho que o RPG é realmente bem simples e apesar dessas mudanças serem legais ou só interessantes, não é preciso transformar o jogo em algo burocrático, elitizado ou criar complicações que dificultem a diversão.

    Imagina um grupo de amigos que simplesmente resolve jogar RPG num dia a tarde, embaixo de um bloco aí rola o comentário “ah, mas falta notebook, ou internet ou minha senha ficou bloqueada”. Será que o jogo acontece? Acho que só existe liberdade mesmo com material à mão, seja impresso ou mesmo pdf no pc.

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