Mercenário – parte 3

De volta ao lar

 

 

Quanto tempo fazia que eu estava longe de casa? Mais tempo do que havia me prometido o oficial do exercito que foi até a minha vila para recrutar jovens valentes para lutarem contra os terríveis bárbaros do norte. O tempo parecia voar quando estávamos em batalha, mas quando estávamos fora dela, invariavelmente viajando de um lugar para o outro, nas famosas manobras militares, ele parecia se arrastar miseravelmente. A quanto tempo estávamos em marcha e para onde? Para fazer o que? Por que? Bom, eu nem mesmo sabia.

Naquele dia de verão, quente como apenas os dias de verão podem ser, o meu velho sargento mandou chamar por mim. Especificamente por mim entre todos os homens da tropa. É claro que ele sabia dos nossos nomes e deus sabe como ele fazia para guardar o nome de cada home que já servira ao seu lado, numa memória digna do melhor dos pesquisadores. Ainda assim, que chamasse por mim, algo que nunca acontecera antes.

Entrei na sua tenda, pouco mais que alguns farrapos de lona pendendo precariamente sobre estacas de madeira verde recém-cortadas, sobre o piso lamacento da estrada. Eu parei e fiz continência. Ele me saudou brevemente e pediu que eu me aproximasse.

– Você é da região de Bree, não é? Conhece bem a região?

– Sim senhor – respondi rápido – com a palma da minha mão. Cada trilha e cada contorno do rio.

– Bem garoto, eu preciso de um mensageiro para levar esta mensagem até o alto comando que esta na sua cidade natal por uns dias. Estamos aqui – ele mostrou no mapa – Bree fica depois destas colinas, para o sul.

Casa. A simples pronúncia do nome, a possibilidade de rever minha mãe e quem sabe alguns dos meus velhos conhecidos encheu o meu peito com uma sensação de antecipação que eu não sentia a muitos anos. Me sentia como na véspera de um aniversário, observando os presentes dispersos em volta da lareira, esperando a hora da festa.

– Aqui estão as ordens. Não espero retorno delas. Se o alto comando desejar você está livre para ficar à serviço deles, o que eu duvido – ele acrescentou – tem um cavalo à sua espera.

Montei e cavalguei como um louco. Aprendera a ler mapas fazia algum tempo, mas nunca tinha lido algum com tanta informação realmente útil. Depois das colinas, como o sargento dizia, lá estava a curva do rio que levava a fazendo do velho Rockie. Era pleno verão e as macieiras exalavam o cheiro gostoso dos brotos. A fazenda, assim como a estrada estava abandonada. Ninguém nos campos, vários trechos da cerca rompidos. Abandonada. Todas as fazendas. Pensei em passar em casa, mas ela ficava mais ou norte. Tinha de passar primeiro pela cidade. Mas quem ia saber? Eu poderia simplesmente pegar alguma trilha beirado o rio e sair nos campos de trigo do velho Neil. A idéia de ver minha casa, minha mãe depois de tantos anos foi mais forte do que qualquer ordem e quando dei por mim estava passando pela velha casa da árvore.

Era o nosso forte. Eu e uns amigos o construímos para viver “grandes aventuras”. Parecia tão pequeno agora, tão diferente dos largos salões que minha memória me recordava. Tão pequeno e vazio. Apertou-me o coração o que eu vi do lado dele. O túmulo de Tim. Era um grande amigo. Morreu com o pai numa das primeiras invasões. Nunca recuperamos o corpo, mas resolvemos enterrar ali seus brinquedos favoritos para que ele pudesse brincar com eles na outra vida. A tabuleta de madeira estava seca e desgastada pelos anos. Quase não conseguia ver o que havia escrito nela. Desci do cavalo e reforcei os escritos com a minha faca. Parecia o justo a fazer.

Cavalguei até perto da minha casa. Os campos estavam igualmente abandonados. A horta repleta de ervas daninhas, com os tomateiros crescendo sem controle sobre as outras verduras. A casa não estava em melhores condições. Fora abandonada a julgar pelas condições do lugar. Será que evacuaram Bree? Onde estava a minha mãe. Vasculhei a casa em busca de alguma indicação. Nos fundos da casa, escrito em carvão sobre uma parede que um dia foi de argamassa branca estava uma mensagem de minha mãe. Não, não era dela. Minha mãe não sabia ler. Era de outra pessoa.

Querido filho. Tivemos que abandonar Bree.  A guerra se aproxima velozmente. Estamos sendo relocados para o oeste, é tudo o que eu sei. Se estiver vivo, se ler isso, venha me procurar.

No meu ombro a mochila pesou. As ordens pesavam como nunca. Era o peso do dever com o exército, com o meu país, com o meu sargento, contra o desejo da minha mãe. Talvez seu último desejo, como saber? Eu já havia contrariado seus desejos antes quando me tornei um soldado e saí de casa contra a sua vontade, sem a sua bênção. Era a hora de tomar a decisão. Ir para a cidade e entregar a carta ou deixar tudo ali, esquecer a vida de soldado e seguir para o oeste em busca de minha família. O que fazer?

Fui até a cidade e entreguei a carta com o cair da noite. Menti sobre a posição de nossa tropa e disse que estávamos a dois dias de onde realmente estávamos. Disse que precisava descansar e que precisava de roupas civis para uma outra missão. “Que missão?” recordo que alguém perguntou… Secreta, respondi enquanto selava um cavalo descansado. Numa guerra ninguém questionava a palavra de um soldado, especialmente um que servia de mensageiro.

Sai de lá em direção ao oeste, roupas civis e algumas armas de confiança comigo. Eu a encontraria, mãe, ou morreria tentando.

 

 

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Arquimago
    mar 08, 2011 @ 10:41:43

    Começo interessante.

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