O que fazer quando seus jogadores sabem demais?

Edward Drayton: Remember, you will only have time for just one shot. If you need another, the risk is yours.

Rien: I don’t take risks.

(O Homem que sabia demais)

 

Mestre: De repente, não mais que de repente vocês escutam um rugido feroz, como se cuspido das entranhas da terra. Saindo das sombras, a imensa figura com corpo de urso e cabeça de coruja, garras negras com quase 10cm de comprimento, pingando a sangue fresco…

Suca: Eu sei, eu sei… é um Eaglebeer…

Hypa: Owlbear, owlbear… quantas vezes vou ter que repetir? Hmpf! Mantenham distância e ataquem de longe. Ele tem menos de 60 pvs e não é muito espero.

Sued: É… mas cuidado ele pode fazer um estrago se agarrar vocês! A CA dele é apenas 15. Podemos dar cabo dele fácil.

 

Você não fica meio emputecido quando isso acontece? Cedo ou tarde seus jogadores vão ter acesso ao livro dos monstros e vão devorá-lo. Não fique chateado com isso. Foi o que você fez, assim que teve a oportunidade para tanto. Eles vão decorar cada criatura, cada estatística, vão saber sobre o monstro tanto quando você… e em alguns casos até mais. É um efeito natural do jogo.

Você não pode e nem deve impedir isso. Se seus jogadores estão se interessando pelo jogo, deixe que façam isso. Quem sabe algum deles não se anima a mestrar e você pode tentar aquele meio-ninfo dançarino das sombras que você montou faz tanto tempo?

Mas isso não responde a pergunta da Ellayne, não é mesmo? Como lidar com a situação em que os jogadores sabem sobre todos os monstros do jogo?

 

Conhecimento é poder.

Francis Bacon (Londres, 22 de Janeiro de 1561 — Londres, 9 de Abril de 1626), considerado como o fundador da ciência moderna, preconizava que “Saber é poder”. Se você sabe, você tem poder sobre o mundo. Não existe nada mais valioso que o poder e o poder vem da sabedoria, do conhecimento. Então quando seus jogadores devoram o livro dos monstros o que eles querem é conhecimento. O problema é que conseguindo o conhecimento desta forma eles estão jogando fora a chance de conhecer todas aquelas informações na prática, vivendo cada uma delas.

Uma coisa é você saber os nomes e posturas de todos os golpes do estilo de Kenjutsu Hyoho Niten Ichi Ryu, imortalizado pelo santo da espada Miyamoto Musashi e outra coisa é você ir descobrindo cada golpe, uma vez por aula. Quem descobre assim terá muito mais conhecimento porque sentiu na pele o peso da espada, a postura do kamai e quanto pode ser rápido um “Tsuba-zeriai-de-men”. Quando descobrimos por nós mesmos, sem que nos apontem o caminho pronto a seguir, descobrimos muito mais que as informações contidas nos livros e manuais: descobrimos parte de nós mesmo e quando nos descobrimos nos conhecemos. Quem se conhece, tem poder sobre si mesmo.

Mas vivemos no mundo real, senhor aprendiz de samurai moderno – refuta o rapaz com a blusa do Radiohead – temos internet e conhecimento a nossa disposição. Por que eu não posso usar isso com o meu personagem? Por que ele não pode saber que a arma de prata é a única capaz de ferir lobisomens?

Simples. Por que o seu personagem não viveu isso. Ele não leu o manual dos monstros. Quem leu foi você. O seu personagem não. Você deve interpretar o seu personagem de acordo com o que ele sabe. Como é que um guerreiro que viveu a vida toda numa vila perdida no meio das montanhas vai sair pelo mundo pela primeira vez com sua espada longa, armadura de couro e escudo e julga saber tudo sobre todos os monstros do livro? Desculpa, amigo machine-head, mas não é assim que rola.

O que eu quero dizer é que bons jogadores podem até conhecer o livro dos monstros de cabo a rabo, mas se os personagens deles nunca deram de cara com um Cauchemar ele vai simplesmente fingir que não conhece a criatura e vai tratá-la como um perigo desconhecido. Sim, ele deve tentar armas de ferro contra lobisomens, antes de tentar a adaga de prata, ele deve tentar a flecha de ferro contra o vampiro antes de usar a água benta, sim.

Essa é a primeira solução possível. Peça aos jogadores que interpretem apenas o que os personagens deles conhecem e nada além disso. Claro, um advogado de regras vai dizer que o seu bardo ouviu falar que Troll regenera todos os ataques, menos os causados por fogo. Ok, é uma prerrogativa razoável. Mas quantas informações conseguidas em bares e tavernas são realmente confiáveis? Neste texto eu discuto isso.

 

A descrição ferrou com a gente

Uma das saídas mais legais é deixar os jogadores confusos com as descrições das feras. Veja os exemplos abaixo:

Um grupo de goblins emerge do corredor à esquerda, brandindo espadas curtas e escudos de madeira, com sede de sangue.

Vocês param a beira da bifurcação. A imensa sala de pedra termina em dois largos corredores: um à direita e outro à esquerda. Do corredor a esquerda vocês escutam os sons desconexos como uma turba enlouquecida e selvagem. Seus passos ecoam nas pedras do corredor quando eles finalmente surgem para a luz: um bando odioso e selvagem de pequenas criaturas. Seus corpos pequenos e deformados são emoldurados por rostos com feições demoníacas e orelhas pontudas. Alguns sorriem pondo á mostra a língua áspera e a saliva grossa por entre os dentes afiados e sujos. Suas espadas e escudos em posição de luta demonstram que eles não pretendem se entregar sem uma luta mortal.

Óbvio que na segunda opção os jogadores podem recuar um pouco. Você não disse que se tratava de goblins. Aliás por que precisa ser gó-blin? Por que não pode ser diabo verde? Ou caçadores de cabeça? Ou Kopfjägers? Adoro o alemão para dar nomes legais a criaturas comuns…

Como assim um fungo fantasmagórico com resistência à magia?

Pôxa, no seu mundinho perfeito isso até que funfa, mas na minha mesa se eu pedir isso para os jogadores eles vão rir da minha cara. Eles não sabem separar o que é conhecimento de mesa de conhecimento de mundo real. O que fazer? – pergunta o rapaz de óculos escuros com a camiseta comemorativa do show do MotorHead aqui em Brasília.

Existem duas opções neste caso: a primeira é que você tenha uma conversa franca com seus jogadores e explique a eles que jogar dessa forma não é divertido. Seja firme nesta sua postura e premie os jogadores que toparem jogar assim.

A segunda, um pouco mais drástica apela para a regra de ouro. O mestre pode alterar qualquer regra para melhorar a qualidade do jogo. Os jogadores acham que sabem tudo sobre seus monstros? Modifique as suas estatísticas de jogo. Nada impede você de fazer isso. Por que Ciclopes não podem ter ataques paralisantes com o seu olho? Nada impede. Owlbears com 65pvs, CA 20 e atacando de longe com azagaias? Se for conveniente, sim.

Na verdade as criaturas modificadas (aka “turbinadas”) podem ser fontes de novas aventuras. “Hei, pelo que eu me lembre goblins não possuem tentáculos. Alguém ou alguma coisa implantou tentáculos de uma fera constritora neste goblin. Temos de impedir estas experiências macabras o quanto antes!”.

Claro, alguns advogados podem reclamar, mas você como mestre do jogo, não vai deixar que isso atrapalhe a diversão do grupo não é?

Outra segunda opção, e ainda um pouco mais radical, é usar criaturas totalmente novas e não variantes das já existentes. É um trabalho muito grande se quer saber e a chance de algo dar muito errado é grande demais para deixar de ser considerada. Criar todo um bestiário do nada é muito trabalho, mas pode ser feito.

 

Lembre-se Neo: tudo que ofereço é a verdade. Nada mais.

No fim das contas qualquer que seja o seu campo de ação, que seja uma ação bem pensada. Não é bacana e nem divertido tomar uma linha de atitudes e mudar logo depois. Seja lá o que você decidir, esteja pronto para ir até o fim. Esteja pronto para ouvir as lamúrias dos advogados de regras, as reclamações do cara que acabou de comprar os livros entre outros. Esteja pronto para analisar friamente as interpelações dos jogadores. O meu tipo que é caçador de vampiros me disse que vampiros morrem com estacas de madeira! E você deve retrucar: eram de madeira ou de ouro? Você ouviu isso a tanto tempo… como pode ter certeza?

No fim é tudo diversão. Divirta-se ou vá jogar outra coisa.

 

4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Valchrist
    abr 01, 2011 @ 19:44:35

    Excelentes dicas Betão!

    Tem um jogador na minha mesa que é exatamente o que você descreveu, e agora já sei como surpreendê-lo e fazer a mesa ter mais diversão!

  2. Arquimago
    abr 02, 2011 @ 10:48:15

    Dicas sempre valiosas.

  3. ellayne
    abr 04, 2011 @ 12:40:04

    Valeu Betão!

    Muito muito útil!

    nada como pedir e ser prontamente atendida! (sou sua fã!!!)

    já acrescentei o post ao rol dos meus favoritos.

  4. Alexandre
    abr 13, 2011 @ 15:42:18

    Excelente post! Parabéns!

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