Jogar sem perícias

Um problema antigo

Uma das coisas mais chatas, em minha opinião, dentro da montagem de fichas de personagens é a distribuição de pontos de perícia. Dependendo da classe que você escolhe dentro do D&D 3.X isso pode ser um problema de abundância (ladinos) ou um problema de falta absoluta (guerreiros). Não que seja um problema montar um ladino de nível 1 com 44 pontos de perícia (Int 15), mas quando você resolve fazer um ladino nível 8, mesmo que seja um maldito NPC, os 121 pontos de perícia são coisas demais.

Desde então eu venho pensando formas de reduzir o impacto das perícias na mecânica do jogo sem diminuir a sua importância. Entre as inúmeras tentativas mecânicas que eu já fiz posso listar usar uma lista menor de perícias, perícias com modificadores fixos por nível de classe e de outra classe, mas nada parecia resolver o caso.

Até que enfim eu me deparei com uma modificação que parece resolver o meu problema. Abolir as listas e os pontos de perícias. Como é que é?

Sem perícias, mas com muito metagame.

O que é uma perícia? É alguma coisa específica que o personagem sabe ou aprendeu a fazer. Ele pode não ser muito bom no que faz, ser bom, excelente, mediano… mas é algo que o separa dos outros caras.

A idéia proposta é que cada classe de personagem tenha um atributo alfa. Esse atributo alfa é o mais importante para membros daquela classe. Guerreiros usam a força, magos a inteligência, clérigos a sabedoria, ladinos e a destreza e por aí vai. Ao invés de escrever e distribuir pontos para todas as perícias que o meu ladino de nível 1 com 44 pontos de perícia possui eu simplesmente digo que ele tem um modificador geral de perícias igual a +1. Eu testo as perícias com 1d20 + mod. de Habilidade + nível. Assim, um ladino pode tentar Heráldica com 1d20 + 3 (+2 da int. +1 no nível). Nas perícias baseadas no modificador alfa o ladino ganha um bônus de +4 extra. Assim o mesmo ladino com Destreza 15 usaria Acrobacia com 1d20 + 7 (+2 da int. +1 no nível + 4 extra).

E como saber se o personagem sabe ou não usar esta ou aquela perícia? Aí é que entra uma contra-partida para a história do personagem. O jogador deve fornecer um resumo da história do personagem em até 10 linhas. A partir dela o mestre vai dizer se o personagem tem a perícia ou não, ou se pode testar a perícia com algum bônus ou redutor adicional.

Se não vejamos um exemplo:

Dag é um guerreiro ágil e forte, que confia que todos os problemas podem ser resolvidos na ponta de uma espada. Sua mãe morreu durante seu parto. Ele cresceu em uma área temperada, com invernos rigorosos, a meio caminho do norte. Ele foi criado por seu pai em uma cidade chamada Talenta não muito longe de uma floresta real, onde a entrada de não-nobres era proibida. Sua família é de classe média, dilacerada, entretanto, por brigas internas. Ainda assim, muito respeitada pela comunidade. Em sua infância, Dag foi raptado por um bando de Orcs e mais tarde resgatado por Satin, o ruivo e seu mando de aventureiros. Logo depois Dag se tornou um aprendiz de Russ, um caçador de recompensas do bando de Satin, que lhe ensinou todos os fundamentos da profissão. Fora sua irmã, que é maga, não tem amigos próximos.

Digamos que Dag, guerreiro de 2° nível, precisa escalar um muro de pedras com rapidez, a fim de despistar uma patrulha Orc: ele testa 1d20 +8 (+2 da for. +2 no nível + 4 extra). Lá de cima ele vê o bando que o caçava e tenta reconhecer o mais perigoso: 1d20 +2 (+0 da int. +2 no nível). Ele percebe um mago entre os batedores Orcs.

E por aí vai.

Problemas à vista

Não é preciso ser um gênio para perceber que esta extirpação de perícias pode criar uma série de problemas na mesa. O maior deles é que os jogadores devem confiar no mestre do jogo. Este, por outro lado, deve ter um senhor jogo de cintura para inferir a partir da história do personagem o que ele sabe ou não sabe fazer.

Além da confiança mútua entre mestre e jogador é preciso que exista muito bom senso na história. Dag é um excelente rastreador e caçador mas como nada na história dele indica muito contato social ele deve ser ruim nisso. Digamos que ele poderia até mesmo receber um redutor de -1 a -4, de acordo com a circunstância.

5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Pablo
    abr 26, 2011 @ 23:50:45

    Eu também sempre me deparo com esse tipo de coisa (excesso de pontos de perícia), mais ainda no sistema daemon, tem como você betaão escrever um artigo do mesmo genero voltado para o sistema daemon?
    Atualmente tenho reescrito o sistema daemon para jogar aventuras mais heróicas (fantasia medieval), porém não gosto do porralhão de pericias e pontos desta que o sistema apresenta e ainda não pensei em como resolver o caso…
    Sugestões?

    PS: Melhor sistema d pericia seria o de 3det se não dependesse tudo de Habilidade!

  2. Igor "Carcará"
    abr 27, 2011 @ 18:38:00

    Por isso que eu gosto do antigo Storyteller. Não é porque o personagem não tem uma determinada habilidade que ele não pode fazer uma tarefa, ele ainda pode fazer os testes com os atributos principais, ainda que com uma dificuldade maior ou penalidade nos dados. Mas o que o Beto falou tá certo, se nada indica que o personagem possa ao tentar uma ação, ela não deve ser feita… ou ter um resultado desastroso. Nas carteiras de trabalho tem uma frase que eu tenho como mantra, tanto para a minha vida quanto para quando estou mestrando: “se você não é eletricista, não faça serviços de eletricidade”…

  3. o Clérigo
    abr 29, 2011 @ 01:39:47

    Eu achei muito interessante, e até lembrei de uma tabela que tinha no Livro do Jogador do AD&D, página 75, a tabela dos Talentos Secundários, em que o jogador rolava aleatoriamente ou escolhia um grupo pré-definido de perícias que seu personagem sabia.

  4. Tiago César Oliveira
    abr 29, 2011 @ 19:10:51

    Excelente metodologia. Passarei a aplicá-la!

    O trabalho do mestre pode ser facilitado um pouco: escolha um número X de perícias por classe (por exemplo, 4 para guerreiro) e faça seu jogador escolher 4 perícias em que seu personagem é bom, nada mais. A cada nível ganho o jogador poderia escolher uma nova perícia, mas ela contaria com o bônus de nível proporcional ao nível em que foi escolhida… Claro que seria preciso respeitar as regras de perícias. Por exemplo, um guerreiro que escolhesse desarmar armadilhas deveria receber apenas +2 de bônus + metade do nível.

    São coisinhas que complicam, mas pelo menos não é preciso se ater à análise do background, o que pode inclusive gerar problemas (advogados de regras enfiando mil e uma perícias no background ou jogadores desatentos sendo prejudicados).

  5. Tiago César Oliveira
    abr 29, 2011 @ 19:12:11

    A vantagem do seu método é que fica fácil para o mestre controlar os valores de perícias dos PCs. Basta montar uma boa planilha.

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