Desafio RPG – Dia 09

O jogo com a cena mais triste

Escolher cenas tristes para jogos de RPG são coisas simples para mim, uma vez que tenho muitas poucas escolhas. Nestes trocentos anos de jogo poucas cenas realmente tristes aconteceram nas mesas que eu participei.

Mas houve uma que pretendo descrever aqui. Se não foi a mais triste, foi realmente a que me chamou mais atenção. Era uma campanha de AD&D. Era um grupo icônico: guerreiro, mago, ladino e clérigo. Eu era o clérigo, aliás, era a primeira vez que eu jogava sério de clérigo. Um dos jogadores, o Otávio, jogava de guerreiro. Estávamos em busca não sei do que quando nossas viagens nos levaram de volta à sua vila natal. Lá ele reencontrou seu amor de infância e teve uma rápida recaída. Foi quando o nosso inimigo recorrente nos atacou e a menina morreu.

Otávio (vou chamá-lo assim, já que não lembro do nome do personagem) não se conformou. Eu não tinha poderes para reviver a moça (estávamos por volta do nível 10) e ele ficou obcecado por isso. Tão obcecado que conseguiu invocar um outsider chamado Lorde Strauss (engraçado que eu lembro o nome deste NPC). O trato era: Strauss reviveria a moça como ela um dia antes de morrer e em troca Otávio se tornaria uma espécie de “paladino” à serviço de Strauss. Para provar que estava falando sério em servir Strauss, foi confiado à Otávio uma missão de matar um homem em outra cidade. Um antigo aventureiro, hoje capitão da guarda de outra cidade. Se sua amada tinha de viver, esse homem tinha de morrer.

A mesa fendeu naquela hora. Mesmo indo contra os ditames do meu deus, fiquei do lado de Otávio. Na época eu mesmo estava apaixonado por uma guria e fiquei pensando se fosse comigo. O ladino e o mago ficaram de fora. Eu topei enfrentar meus amigos de mesa para que Otávio fosse a cidade vizinha e trouxesse o coração. Foi uma batalha dura uma vez que eu não usei todos os meus poderes na luta. Aliás ninguém usou. O mago usou magias de restrição e o ladino tentou usar o SAP para me derrubar. Por minha vez lutei o quanto pude, mas fui derrotado. Mas lutei tempo o bastante para dar a Otávio o tempo que ele precisava.

Ele foi lá e matou o capitão, arrancou seu coração e invocou novamente Strauss. O trato foi confirmado. Strauss ressuscitou a menina e converteu nosso amigo numa espécie de paladino do mal (o equivalente hoje seria um deathknight do Warcraft). Mas tudo tinha seu preço. A menina foi ressuscitada com ela era no dia anterior. Antes de rever Otávio. Ela ficou assustada com a aparência dele, mas após ouvir a história ficou ao mesmo tempo comovida e revoltada com ela. O amor dos dois estava maculado e ela não poderia amá-lo fisicamente. Tanto pelo que ele fez como pelo que ele se tornou. Mas ela não poderia deixar de amá-lo por seu sacrifício. A descrição da cena entre Otávio e o mestre um segurando as mãos do outro e se separando, ela indo para um convento e ele amaldiçoado para sempre levou a mesa às lagrimas.

Continuamos nos aventurando juntos por um tempo até que a mesa se desfez. Mas jamais vou esquecer aquele domingo quente em Fortaleza.

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. ellayne
    maio 09, 2011 @ 09:50:07

    Também estou com lágrimas nos olhos. Nada como a paixão e a morte num mesmo episódio!

    a propósito, obrigada por comentar no meu humilde blog.

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