A política nos cenários medievais.

Saindo um pouco do recesso, eu pretendo apresentar hoje algumas dicas de como movimentar a sua campanha medieval sem que você tenha de colocar nenhuma regra nova na sua mesa de jogo. Todas as dicas aqui são oriundas da teoria filosófica de alguns filósofos, por isso, se você não entender alguma referência, fique à vontade para perguntar.

A primeira coisa a se pensar é na política. Não esqueça da política. Quando Aristóteles disse que o homem era um animal político ele não poderia estar fazendo uma assertiva mais correta. Só nos tornamos homens quando estamos em contanto com outros homens. É o contato com a humanidade que faz de nós seres humanos. E todo contato com outro homem é um contato político. É daí que nasce a cultura, as interações, os ritos e a busca pelo poder. Sendo assim é de se esperar que intrigas na corte e lutas pelo poder podem ser de grande ajuda para a construção da história que norteará a ação dos jogadores. Não apenas na corte, mas em qualquer lugar.

Imagine, por exemplo, que dois conselheiros do rei buscam os favores do seu patrono. Quanto mais eles se mostrarem úteis ao rei com conselhos validos, informações e presentes, mais poder eles vão ter perante os ouvidos reais. Chega ao conhecimento dos dois que um antigo sítio arqueológico abandonado pode conter um tesouro valiosíssimo – qualquer coisa que dá muito status e que seja difícil de conseguir, mesmo para um rei. Grupos enviados para resgatar o item, ou para se apoderar dele podem ser fonte de várias idas e vindas pelo mapa da sua campanha. Tudo em nome do poder.

Aliás, o poder é para poucos, já dizia Maquiavel. E por isso mesmo o bom príncipe deve garantir modos para chegar e manter-se no poder. Quando você pensa assim, desvanece-se de sua mente o conceito idealístico de governo como uma coisa ética e boa.

A idéia do rei bonzinho e ético caí por terra, com uma piscadela do mundo real. Mantenha sua palavra apenas quando a promessa lhe favorecer, mantenha seus amigos perto e seus inimigos mais perto ainda, faça o que for preciso para conseguir o que você quer. Os fins justificam os meios. E isso não se aplica apenas aos reis e príncipes: o que você faria para conseguir e manter o poder? O que os seus personagens fariam para tal?

Tente responder a pergunta: qual a diferença entre o traidor da pátria e o herói revolucionário? O herói venceu e o traidor perdeu. A versão de quem venceu vira a verdade que vai encher os livros de história.

Pense um pouco: quanto valeria a informação de que o atual herdeiro do trono é na verdade um bastardo de outro homem que não o rei? Uma informação como esta pode fazer a diferença entre a riqueza e a pobreza, a vida e a morte, a paz e a guerra entre estados e nações. Saber é poder, como diz um certo Francis Bacon. Quanto mais você conhece, mais poder você tem. Chega um momento em que o conhecimento é mais valioso que o ouro. O que você faria se descobrisse que a religião pela qual você lutou a vida inteira é baseada numa mentira e que o deus benevolente que emprestou seus poderes a você por meio da fé não passa de um demônio das profundezas, que secretamente esta devorando a alma do mundo, um pedaço de cada vez?

O poder não se manifesta, como você já deve ter percebido, apenas de cima para baixo. Ele não vem apenas de quem tem mais poder na sociedade para quem tem menos. O poder emana do povo, como dizia Rousseau. Se é assim por que nos submetemos a reis e tiranos? Comodidade? Tradição? A democracia surgiu na Grécia por volta de 580 antes de Cristo. Se situarmos a idade média de fantasia no jogo vale a pena perguntar porque não existe nenhuma tentativa democrática real, se já se passaram entre 500 e mil anos? E se houver, como vamos lidar com isso? Saber é poder, mas o poder dividido está nas mãos de todos, com maior ou menor grau, nas relações interpessoais. Leia “vigiar e punir” de Michel Foucault e perceba como a sociedade se fia em valores bem pouco sólidos para se manter como está. “O preço da paz é a eterna vigilância”. A frase é atribuída ao almirante Tamandaré, no período da guerra do Paraguai, é uma das provas que o saber ainda é a maior moeda de troca na política.

E os poderes são tantos… sim, poderes. Poderes como os que propôs Norberto Bobbio: o ideológico, o político e o econômico. O carisma do sumo-sacerdote, a riqueza a força do rei e o poder do mercador são estes exemplos. O rei tem o poder legítimo do uso da força, mas sem ouro seu exercito não marchará; o comerciante tem o ouro, mas não os meios legítimos de empregar a força – então ele se vale de meios escusos. Mas de que vale todo o ouro do mundo quando é a sua vida que está em jogo? Como convencer, com base no ouro, que alguém se sacrifique por você? Você não pode, não com ouro. Mas tente a fé e veja pessoas desejando a morte para agradar algum deus. Uma idéia é mais forte que o aço que ela forjou.

Este assunto não se esgota aqui, mas acho que é um começo. Que tal movimentar um pouco a sua campanha com motivações verdadeiras entre seus vilões (vilões mesmo ou pessoas cuja versão dos fatos não viu a luz do dia?) para além do simples “sou mal porque quero, bwabwabwabwabwa…”.

Voltamos logo.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Rubens Mateus Padoveze
    jun 27, 2011 @ 11:08:06

    Bem interessante, gostei mesmo das palavras finais, mas o texto todo e muito bom, é preciso pensar mais nisso e menos nas masmorras…

  2. Álvaro o Bardo
    jun 27, 2011 @ 17:26:27

    Muito bom esse artigo se não o melhor com toda a certeza um dos melhores em relação ao assunto estou esperando a continuação

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