Um conto de San Felipa

Recuperado recentemente do meu HD, sobre um cenário para M&M que eu escrevi.

Desde que me entendo por gente eu quis ter superpoderes. Sempre quiser ser como os heróis dos livros de história. Voar, escalar paredes, derreter paredes com o toque das minhas mãos… Ah como eu queria ser herói. Omo eu queria ser diferente, como eu queria ser especial… E hoje eu sou e não sei se ainda quero.

Faz poucas semanas que descobri que tenho esses poderes. Aconteceu quando estava voltando para casa e ouvi uma explosão perto do porto. Depois fui coberto por uma nuvem de fumaça meio arroxeada. Acordei em casa. Não sei como fiz para chegar lá.

Bom, mas independente disso eu tenho alguns poderes agora. Vôo (um pouco mais rápido do que o meu correr, mas é um vôo), invisibilidade (na verdade lembra muito efeito de ficar transparente), resistência razoável (coisas como ser acertado por um ônibus a toda e sair andando… ok, mancando!), uma regeneração esquisita (ei, levei menos de duas horas para me recuperar totalmente da pancada do ônibus). Enfim, eu acho que agora tenho o que é preciso pra inventar um nome legal, uma roupa estranha e sair voando por aí resolvendo os problemas dos outros e saindo na capa do jornal.

Você acha que ser um herói é divertido? Que é um jogo? O herói é uma pessoa que fica a margem. O herói não faz mais parte do corpo da humanidade. O herói anda no fio da navalha entro o céu e o inferno porque não se importa com sentimentalismos ou fantasmas da opinião pública. O herói segue um padrão elevado de verdade e justiça.
Herói, é apenas um título deixado, em geral, para a posteridade.

E se eu for o único? Eu acho que não. Eu já vi coisas esquisitas nesta vida. Mas e se eu for? Como poderei ajudar os bilhões que precisam de mim? Impossível. Depois além de tudo, a ingratidão por não ter salvado esta ou aquela vida. Como decidir qual vida tem prioridade? Como decidir o que é mais importante?

Voar pelo mundo salvando doentes terminais poder ser muito bonito de se imaginar, mas nunca haveria tempo de salvar todos que morrem a cada SEGUNDO.

Mesmo que eu não pudesse salvar pessoas (eu acredito que seja minha maior maldição), o resto que eu faço poderia causar problemas. O que é mais importante? Ajudar a capturar bandidos? Traficantes? Espionar terroristas? Como fazer tudo? Impossível.

Mas, dia desses eu estava andando pela Washington Beach. Era fim de tarde e vi ao longe um cara que parecia estar dançando. Achei que ele estava louco e acabei me aproximando para ver. Ele pegava estrelas do mar que haviam encalhado na praia – e portanto faziam à festa das centenas de aves marinhas que se banqueteavam com elas – e as jogava de volta ao mar. “Por que você está fazendo isto?”, perguntei. “Você não vê?”, explicou o velho, que alegremente continuava a apanhar e jogar as estrelas ao mar, “A maré está vazando e o as aves estão se reunindo para o jantar… elas irão morrer se ficarem aqui na areia.” Espantei-me com a resposta e do velho e achei mesmo que ele estivesse louco. “Olha só coroa, existem milhares de estrelas-do-mar espalhadas pela praia. Você joga algumas poucas de volta ao oceano, mas a maioria vai se acabar de qualquer jeito. De que adianta tanto esforço, não vai fazer diferença?” O velho se abaixou e apanhou mais uma estrela na praia, sorriu para mim e disse: “Para esta aqui faz diferença….”, e jogou-a de volta ao mar. Naquele mesmo dia não consegui dormir.

Hoje, do alto dos prédios de Washington Beach eu vejo o velho catador de estrelas-do-mar. Vejo o seu trabalho, ao cada fim de cada tarde, quando o meu começa. Eu coloco a minha máscara e olho para os becos. Lá longe ouço um grito de mulher. Mergulho para noite escura, voando por sobre os letreiros de néon. A imprensa sensacionalista me chama de Estrela Negra, de Predador Noturno, de louco… Mas as pessoas que eu ajudo sabem como me chamar. Me chamam de herói.

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Youkai X
    jul 20, 2011 @ 02:11:28

    Gostei do conto. Reflete bem o tipo de confronto psicológico ao qual um herói deveria passar e ajuda a refletir mesmo sobre como seria a existência de heróis em um mundo plausível.

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