Mini-guia completo (ou quase) dos pais que jogam RPG

Pequeno Manual para mestres que são pais.

Esta era para ser uma postagem triplice, minha, do Fenrir e do Jaime, mas o texto do Jaime nunca chegou…

Fala o Valberto, o pai mais experiente.

Pois é… quando comecei a jogar RPG não existia sequer internet banda larga no Brasil e videocassete era novidade. Mas hoje, mais de 20 anos depois que comecei a jogar me vejo numa situação que nenhum jogo jamais me apresentou ou me preparou. Sou pai e jogo RPG. O que fazer com meu filho?

Bom, era uma noite insome de sexta quando bate um papo com o Jaime Daniel e o Fenrir e o assunto surgiu. Como lidar com filhos? O que fazer com as crianças? Que dicas podemos dar uns aos outros?

Bom como eu sou o mais experiente dos três (meu filho acabou de fazer 18 anos) acho que eu posso começar com algumas dicas do tipo faça & evite. Vamos começar.

A primeira coisa a saber é que você perdeu a sua esposa. Sério. Ela vai devotar, com razão, todas as energias ao rebento de vocês. Não adianta ter ciúmes. Alias, não dá tempo. Quando você percebe aquela criaturinha linda olhando fixo para você, você também se apaixona por ele.

Segundo: Mantenha seus RPGs longe do pivete até ele ter idade para saber que lugar da dados não são dentro da boca. Uma boa é jogar tudo no alto da estante e lacrar os dados, fichas, miniaturas e qualquer outra coisa que possa ser engolida, enfiada no nariz ou no ouvido longe das mãos curiosas da meninada.

Terceiro: Palavras valem prata, mas o silêncio de uma noite bem dormida vale ouro. Não marque jogos em casa a não ser que o pequeno durma muito pesadamente. Em noites de jogatina apele para os avós e tios do danadinho. Costuma resolver. Diga que é um tipo de “noite do casal”. Eles vão entender.

Outra coisa a ser entendida é que você não precisa parar de jogar porque tem filho. Você só precisa colocar seus hobbies no lugar certo, uma vez que agora você tem uma obrigação muito mais premente nas mãos. Que falte dinheiro para o livro novo, para a miniatura rara, para o dado exótico: não pode faltar o leite, nem a fralda, nem o médico dos pequenos.

Cedo ou tarde um dos seus filhos vai destruir alguma coisa da sua coleção. Não se irrite com ele. Explique o que aconteceu e converse com ele. Meu D&D 3E em inglês ainda está com as páginas marcadas de giz de cera com o desenho que o meu filho fez do grande herói que vai ajudar papai a matar o Dragão. Não tem palavras para ilustração tão linda.

Quarto: Quando chegar na idade por volta dos seis, sete anos, o seu bebê vai querer jogar. Nada de misturar o menino com o seu grupo de jogo. Faça aventuras curtinhas e bacanas com ele. Escute o que ele tem a dizer e se puder convide os coleguinhas dele para jogar (filhos de seus outros amigos que também jogam RPG e também são pais, talvez?). Use temas que ele gosta e faça-o sentir-se como se as ações dele fossem as mais importantes do mundo. Este é o momento de ouro onde você pode fisgá-lo para sempre. Traga sua/seu companheira/o para esta empreitada.

O Fenrir arrematou:

Continuando, ao contrário dos demais, acho que sou o pai mas novo, e com filho mais novo também.

RPG pra mim era xerox de livros e mais livros, que tinha orgulho de mostrar para meus amigos. Hoje, mais velho, muitos fios de cabelos brancos depois, o hobby para mim tomou ares de responabilidades.
Filho novo em casa é um dilema – mas um dilema que eu não me arrependo – e ele agora está começando a andar e a explorar. Meus livros de RPG estão ainda há quase um metro do chão, na estante, mas ele já está querendo subir para pegar. A borda do meu velho Vampiro Idade Das Trevas foi arrancada, e outros livros estão sofrendo. Hora de mandar todos para as alturas.
Criar um filho é mais uma responsabilidade que temos que aprender na garra, ninguém faz curso para ser pai, a coisa surge naturalmente, e com nossas experiências de muitas vidas vividas em nossa mente, planos e mais planos surgem perante nossos olhos.
Lógico que um filho não é um novo personagem que você vai moldar e interpretar, ele é um ser vivo que nem você, mas um ser vivo que vai seguir seu exemplo, vai lhe observar, e está lá para aprender com você.
Não faço julgo se meu filho não jogar RPG como o pai, quem sou eu para obrigar, mas sei que a curiosidade vai bater, e ele vai aprender comigo e com a mãe, que por sorte, joga também comigo.
É um perigo nossos “instrumentos de imaginação” ao alcance deles: dados, miniaturas, fichas (já perdi algumas). A dica do Betão vale muito: mantenha tudo longe do alcance. É lógico que ele, mesmo sem querer, está sendo bombardeado com informação da vida geek do pai: já bate no laptop imitando-me, tentar pegar os dados quando tem jogo aqui, e até já rolou seu primeiro 20 no d20! Tudo bem supervisionado, lógico, e a vista desse velho e orgulhoso pai.
O segredo é planejamento prévio de tempo: criar um filho requer um tempo que você já não tinha. Faculdade, trabalho, esposa, e no meu caso, blog e RPG faz com que nosso tempo fique enxuto por demais, e aí? Qual é a solução.
A resposta é planejamento. Agenda é o essencial. E conversar com todas as partes envolvidas também. Eu tenho um grupo que consegue seguir minha rotina de jogos, uma maravilhosa esposa que me ajuda, e que eu tenho que ajudar também senão ela não joga, e o planejamento disso tudo é essencial. Depois, o filhote tá crescendo, e depois, temos só que ver ele se criando, conhecendo, experimentando, e quiçá, fazendo sua própria campanha para o orgulhoso pai jogar, né?

9 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Rubens Mateus Padoveze
    ago 15, 2011 @ 16:10:54

    Não tenho filhos e acho que vai demorar um pouco ainda, mas não posso esquecer essas dicas nunca!

  2. Igor "Carcará"
    ago 15, 2011 @ 17:13:21

    Tudo bate com o meu pensamento em relação ao meu pivete, mas o que eu queria deixar aqui é meu testemunho de quando trabalhei na Terramédia / Devir. Na época, além de outros que haviam acontecido antes, estava em pauta o incidente em Guarapari, onde supostamente influenciados pelo RPG uns adolescentes mataram uma guria.

    Sempre apareciam alguns pais preocupados querendo saber que jogo é esse que seus filhos querem jogar e que “pessoas morreram jogando”. Após rezar o sermão sobre “o que é o RPG” e explicar que o jogo não mata ninguém, o que mata são seres imbecis, eu sempre finalizava com os dizeres: “agora que conversamos, o senhor me considera uma ameaça? Pois eu tenho o kit maloqueiro completo: brincos, piercings, tatuagens, cabelo comprido, barba, gosto de Mortal Kombat e GTA, ouço thrash metal, tomo a minha cervejinha nos fins de semana e jogo RPG. Se fomos levar ao pé da letra tudo que a mídia sensacionalista fala, então sou um perigo a sociedade!” e o resultado eram quase sempre gargalhadas (no mínimo risos contidos), e orientava o pai a ler os livros que seus filhos querem jogar.

    Como no mundo do cinema, existem filmes recomendados para maiores de 18 anos, filmes pesados, mas também filmes recomendados para toda a família. No RPG é a mesma coisa, e quando seus filhos começarem a jogar, é importantíssimo ajudar na questão onde para o jogo e começa a vida, conversando e orientando para não criar esses arrombados que fazem merda e acabam por queimar o filme de todos que jogam.

  3. Rick
    ago 15, 2011 @ 21:24:27

    Li o texto. Ficou um pouco sentimental demais.

  4. valberto
    ago 16, 2011 @ 02:16:45

    De boa, só entende sentimento de pai quem o é…

  5. Álvaro O Bardo
    ago 16, 2011 @ 10:00:23

    meus queridos o texto ficou ótimo parabéns dicas valiosas!!! Quando meu pirralho nascer não irei esquecer abraço e boa sorte!

  6. FFenrirX
    ago 19, 2011 @ 00:44:20

    Concordo com o Betão: só quem é pai sabe o sentimento que um filho exerce sobre ele.

  7. Igor "Carcará"
    ago 19, 2011 @ 10:34:09

    É verdade… O Beto me conhece a um tempão, sabe que não sou um cara de frescura, mas esses dias eu fui re-assistir um dos meus filmes preferidos, o Cemitério Maldito e não é que fiquei muito incomodado com a cena que o menininho morre atropelado pelo caminhão!

    Ser pai mexe com muitos dos nossos sentimentos, e não adianta tentar explicar porque não dá!

  8. Rick the Best
    set 07, 2011 @ 11:13:13

    Valberto continua sendo mais teórico do que prática no assunto.

  9. valberto
    set 07, 2011 @ 11:42:47

    De boa eu sou muito mais prático do que teórico. Justamente por ser prático é que o relato foi escrito com a minha experiência acumulada como pai e jogador de RPG. Uma pena que você, Rick66, não entenda isso. Quem sabe quando for pai e conseguir cativar seu filho ou filha o bastante para jogar com ele, venha a entender o que me motivou a escrever e por que eu o fiz. Até lá, boa vida.

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