Conversando com o D3

E a RPGCON, hein?

Eu relutei muito antes de escrever este texto. Por vários motivos, sendo que os mais importantes são os relacionados ao gerenciamento do meu tempo. De uns tempos para cá RPG deixou de ser uma prioridade aos meus interesses fora do ambiente de trabalho. Em outras palavras, tenho mais o que pensar e o que escrever do que sobre um simples hobbie, seus praticantes e uma meia dúzia de notícias sobre ele.

Outro motivo é que a única pessoa que eu queria que ouvisse meus comentários, ou que eu julguei que fosse interessado, é o Douglas D3 Ricardo. Conversamos na semana passada por telefone (sim, sou uma pessoa antiquada que prefere usar o telefone) por mais de uma hora e chegamos a algumas conclusões interessantes sobre o futuro do evento, do hobbie e o que o mundo novo representa para essa geração de futuros meia-idade. Se você está lendo até aqui é porque quer saber as nossas conclusões. Se não está interessado, caia fora. Não tenho tempo para você.

A primeira coisa que concluímos é o obvio: um evento deste porte é muito caro para ser feito e nenhuma empresa nacional tem cacife para bancar esse tipo de coisa. Custa muito caro e o retorno não é dos melhores, quando não dá, explicitamente, prejuízo. Passamos então a comparar um evento de RPG com um de anime. Por que? São dois eventos que lidam com a mídia pop e deveriam, em tese, ter públicos com mesma faixa etária e poder aquisitivo.

Os eventos de anime são absoltamente lotados: filas quilométricas, preços para além da estratosfera e, tirando o matsuri dance e os estandes, não têm nada para ver – a não ser os fantásticos cosplays. Os otakus gastam, com sorriso SD (super deformed) no rosto R$40,00 por um chaveiro vagabundo de sua série favorita. Camisetas, kits de montagem, peças de decoração, comidas típicas… está tudo lá.

Os eventos de RPG vêm perdendo público a cada ano. Eles vêm envelhecendo. O preço nem chega a ser caro e as atrações são basicamente as mesmas – embora eu não me arrisque a imaginar gente como o Felipe Shingo ou o Antônio Sá Neto dançando o Matsuri. O rpgista básico gasta pouco com o seu hobbie.

O que leva os dois públicos a serem tão diferentes? Acreditamos que seja a forma de consumo da mídia pop. Para gostar de um anime tudo o que você precisa é baixar um episódio ou mangá, sentar na frente do PC por meia hora e decidir se gosta ou não. Consumo rápido. E para um RPG? Você tem que ter um livro. Mesmo o RPG mais simples que eu conheço precisa de pelo menos 16 páginas de texto lidas para que se comece a jogar, mais dados e mais grupo de pessoas. Alguns mais sofisticados como D&D exigem centenas de páginas!

Outro ponto que destacamos é que não existe renovação no público de RPG. A galera que agita as listas de discussão, os grupos no face e que vão aos eventos são os mesmos de sempre. Você não vê crianças e adolescentes jogando. A galera que joga já passa dos 20-30 anos, com filho no colo e casa hipotecada. Quando eu olho os lançamentos do mercado de RPG hoje eu me pergunto onde é que estão os renovadores de público? Rpgs indies e interpretativos são bacanas, mas afetam a um público cada vez mais restrito. Nada tenho contra jogos como fiasco ou violentia, mas eu não vejo moleques de 10-12 anos (a idade que eu comecei a jogar) ansiosos para jogá-los.

E por matemática básica: se não há renovação do mercado, não existe público para lotar os eventos. E não adianta vir com o papinho que “a molecada de hoje não gosta de ler”. Cada livro de Harry Potter, Percy Jackson, Jogos Vorazes, Crepúsculo, Fallen, entre outros têm pelo menos 200-400 páginas. O meu primo mais novo aprendeu inglês basicamente sozinho com um dicionário Michaelis para poder ler o último livro de HP antes de  todo mundo. Por que não existem RPGs destes livros no Brasil? Não falo de uma adaptação meia-boca na revistinha ali na banca. Falo de um livro mesmo. Por que não tem? Este questionamento se resume a “por que não existem jogos introdutórios de RPG para a molecada no Brasil”?

Percebemos também que estamos desperdiçando público. Segundo João Marcos Yajima, os livros mais procurados na Moonshadows livraria são Vampiro: a máscara (2ª e 3ª edições) e o D&D (3ª edição). O D&D 4e está morto no Brasil, conforme me disse o D3.

Pessoas que curtem anime traduzem mangás e legendam animes “de graça” – ok alguns sites ganham por banda usada e propaganda. Mas o fato é que existe MUITO anime solto por aí, pronto para ser consumido, por causa do seu público. O SRD do d20 system está circulando no Brasil desde 2001. Com a tremenda falta que faz o livro do Jogador porque ninguém resolve fazer um SRD impresso por demanda?

Chegamos a conclusão que eventos grandes, de 10-15 mil pessoas está completamente fora de questão para o público atual. Uma possível solução para isso seriam os mini-eventos para 30-50 pessoas. Levar o RPG como proposta pedagógica de incentivo à leitura também foi ventilado.

A RPGcon deste ano não saiu. O d3 lavou as mãos em relação ao evento. Quem quiser, pode assumir. Ele meio que cansou ou está cansado. Vou no mesmo ritmo. Não tenho mais paciência para as picuinhas tão comuns em nosso mundinho. Era isso. Obrigado por ler.

16 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Daniel Paes Cuter
    out 02, 2012 @ 12:57:54

    ” Segundo João Marcos Yajima, os livros mais procurados na Moonshadows livraria são Vampiro: a máscara (2ª e 3ª edições) e o D&D (3ª edição). O D&D 4e está morto no Brasil, conforme me disse o D3.”

    Essa é informação é muito boa e só confirma o que eu esperava. Acredito que essa informação abranja os OGL também. E que também isso se reflita nos EUA com o Pathfinder, tanto que os livros do AD&D1 e do D&D3.5 foram reimpressos, essas escolhas não devem ter sido apenas aleatórias.

  2. Júlio Chiquetto
    out 02, 2012 @ 17:42:01

    É verdade isso que vc falou cara…o RPG está, em sua maior parte, restrito à um público mais adulto. O pessoal mais novo ou assiste anime, como vc comentou, ou vai para os WoWs e Skyrims da vida. São jogos muito legais, eu mesmo tbm gosto, mas o RPG de verdade, aquele de mesa, que vc joga com pessoas que se sentam ao seu lado, onde precisa de imaginação, leitura e tempo disponível, realmente não parece ter um apelo para a maioria dos adolescentes de hoje, como tinha anteriormente na “nossa época”. Eu nunca tinha parado pra pensar nisso…Abraço

  3. Henrique Martins
    out 03, 2012 @ 00:24:36

    O avanço tecnológico está matando o rpg? A cultura de massa está impedindo a expansão do hobby? É mais fácil jogar videogame ou assistir anime do que criar e participar de uma história narrativa? O mercado rpgístico está estagnado? Acredito que as respostas destas perguntas não resolvem a questão. Infelizmente as próprias condições do nosso hobby exigem muito dos seus praticantes: tempo, dinheiro, disposição, etc, tudo isso faz com que se torne cada vez mais difícil manter-se jogando e trazer novos jogadores. Sempre vi o rpg como um produto de nicho, tanto cultural, quanto econômico, e até mesmo social. Neste contexto, sempre será árduo qualquer tentativa de expansão do hobby.

  4. Nibelung
    out 03, 2012 @ 02:37:29

    Eu jogo parte da culpa na Devir, quando eles eliminaram a sexta-feira do EIRPG. Aquele era um dia dedicado especificamente para criar novos jogadores. Entendo o ponto de vista fiscal, mas pra mim, aquele ponto marcou como o primeiro passo onde uma empresa maior desistiu de criar um novo público consumidor.

    É muito fácil jogar a culpa em fatores que não dependem de você (como “as crianças não gostam de ler” ou “videogame é mais divertido para essa geração que não pensa”), e depois de uma certa idade, é muito difícil você atraiar crianças para o jogo sem parecer um possível pedófilo/traficante aos olhos dos pais. E verdade seja dita, nem todo mundo tem tempo ou paciência para ir numa escola local, conversar com o diretor, e pedir uma ou duas aulas para mestrar RPG.

    Não acho que foi uma coisa só que levou ao cenário do RPG de hoje. É uma fusão de diversos fatores, incluindo desde a picuinha entre autores nacionais, até a simples falta de dados multifacetados pra vender no mercado, e o acesso ampliado à internet e 4shared.

    Especificamente sobre a 4e, eu não acho que a Devir falhou em nenhum momento na propaganda desta edição em específico: Ela organizou D&D days, distribuiu brindes (mesmo quando os brindes da WotC foram barrados), manteve um site ativo com comunicação frequente, atualizou erratas na medida do possível, e manteve um preço justo nos livros. O que matou a 4e foi a propaganda negativa (como dizem, a primeira impressão é a que fica).

  5. metalgeisha
    out 03, 2012 @ 22:41:49

    É mais ou menos o que eu pensava, também. Achei legal você ter ligado pra conversar na moral com o cara ao invés de mimizar.
    O hobby também não andava muito no centro da minha vida não. Parei de blogar e tal, não jogo faz tempo, andava só lendo, mas eu ouvi tanta bosta depois do cancelamento (acho que foi pior que o cancelamento em si) que animei voltar.
    Acho também que o pessoal anda muito acomodado em casa. A facilidade de encontrar alguém pra jogar na internet ou fisicamente meio que tirou essa função dos eventos de encontrar jogadores. Agora é mais pra fazer uma social e ver o que tem de novo (pelo menos pra mim). Talvez isso queira dizer que os eventos tenham que ser reformulados… Ou simplesmente mudar de estratégia.
    Tento fazer minha parte iniciando gente nova, ou no mínimo tentando organizar alguma coisa. Independente de retorno ou dos problemas de sempre, acho que é melhor que sentar e ficar reclamando de crise do RPG sem levantar um dedo pra resolver o maior problema – a falta de renovação.

  6. sembiano
    out 03, 2012 @ 23:25:14

    Acho bem relativo quando se fala em morte da D&D 4e. No Brasil, pelo menos antes do anúncio do DnD Next. Bom, sou coordenador de um evento mensal aqui em São Paulo que acontece na Ludus Luderia todo terceiro domingo do mês, onde o público freqüente varia entre 35 – 70 pessoas. Acontece que antes da WotC divulgar o playtest da nova edição a maioria da procura disparado eram por mesas da 4e. De D&D. Atualmente pós playtest da nova edição realmente diminuiu o público de 4e., mas vale lembrar que recentemente a Devir lançou uma nova tiragem do livro do Jogador que estava esgotado e. Caixa Vermelha do Essentials que parece ter vendido bem,

    Outro ponto, nestes mesmos eventos percebemos sim que existe alguma renovação, vira e mexe aparecem meninos e meninas que nunca jogaram, mas fica claro que é uma renovação vem abaixo do que vi nos anos 90. Hoje, diferente do que vivi quando comecei a jogar, os jovens abaixo de 18 anos são minoria.

  7. Elisa
    out 04, 2012 @ 00:02:47

    Bem, depende muito do local. Aqui na Paraíba nos eventos que rolam, há uma preocupação em ter mesas especiais para iniciantes com temáticas diferenciadas. Muitas estilo anime ou baseadas em séries conhecidas, faz um bom sucesso e quem jogou e gostou no próximo encontro já aparece como mestre ou trazendo seus amigos. O negócio é que isso requer esforço, força de vontade e os resultados não são imediatos.

    Os jogos indies democratizam o acesso, na minha opinião. Você pode ir no site da Jambô e baixar 3D&T, ou no da Red Box e pegar a versão fastplay.

  8. Joao
    out 04, 2012 @ 04:54:34

    Seu mentiroso grosso !!! ;o)

  9. Douglas Tres Ricardo Guimaraes
    out 04, 2012 @ 11:06:09

    Valeu pela matéria, Valberto.
    Sembiano, para mim, o D&D 4e está morto daqui para a frente, devido ao D&D Next. A própria Maria do Carmo citou que os lançamentos no Brasil ficaram limitados à linha Essentials. Não vejo uma progressão de crescimento nesse cenário.

  10. Flávio
    out 04, 2012 @ 13:07:46

    Olha ainda temos RPGs introdutórios (inclusive alguns baseados em anime como o 3d&t e vários destes gratuitos na versão digital), temos ferramentas online para a jogatina (o nacional RRPG e o promissor Roll20), temos pessoas jogando até hoje com livros velhos, novos ou mesmo digitais. Não temos mais tantas crianças jogando, fato. O hobby amadureceu mas não está morto, o D&D 4E não ter decolado não matou o RPG, a falta de eventos grandes 100% sobre RPG não fazem todo esse estrago, pessoas trabalhando/fazendo faculdade ainda podem jogar de vez em quando.

    O problema é que aprendemos a ver as coisas sobre a ótica da internet, onde todo evento (ou a não realização do mesmo) toma grandes proporções, onde todo jogo imperfeito recebe críticas vorazer (RE 6 está aí, que não me deixa mentir) e onde todo artigo é levado muito a sério.

    Mas pasmem, nem todo mundo ainda tem acesso à rede no Brasil, nem todo jogador de RPG está em fóruns reclamando e algumas pessoas ainda se divertem com a imaginação.

  11. sembiano
    out 04, 2012 @ 21:20:22

    Oi D3, acho que de fato diminuiu o interesse principalmente para quem tem acesso ao inglês, mas morto….tudo depende para mim se a Devir vai ou não lançar o Essentials.

    Na verdade no que tange a D&D o Essentials é o mais importante a ser lançado em português, ainda mais se seguir a idéia da versão americana….muito barato! Eles fizeram com a Caixa Vermelha e se o Essentials realmente sair em conjunto da caixa vermelha, será na minha opinião o melhor conjunto introdutório ao RPG em português.

    Agora, depende da Devir apostar que ainda dá…….

  12. Cristiano Lagame
    out 05, 2012 @ 03:12:46

    Valberto, agora entendi porque perguntou se alguém tinha pdf de d20 SRD em português print friendly, pretende mandar imprimir sobre demanda?

    Concordo em parte com o artigo, mas discordo no seguinte.

    Não creio que o maior problema seja o público ter envelhecido. Se for o caso, existem ainda milhares de jogadores de RPG pelo Brasil, há público para eventos grande, World RPG Fest é um bom exemplo de sucesso.

    Concordo com o Wallace quando ele diz que sem grana, não tem como fazer nada. Sem grana, tiveram que buscar ajuda da comunidade, confiar que a comunidade iria arcar com os custos totais do evento foi um erro.
    Com isso faltou não só grana, mas também tempo para tentar arrumar essa grana com possíveis patrocinadores grandes, na verdade, acredito que antes de tudo, deveriam ter corrido atrás (se é que isso não foi feito) das grandes editoras.

    E a Devir e Moonshadows não tem culpa alguma deste evento não ter acontecido. Se eles não investiram, é que não receberam propostas, ou se receberam, não foi feito em tempo hábil para análise, porque tenho certeza que é interesse deles participar de eventos, pois é assim que as coisas funcionam para as empresas grandes, se elas não participam de eventos, são esquecidas com o tempo, ficam para trás.

    Ah, e quem consome mesmo RPG são os que não são moleques mais, são os que já trabalham e podem usar parte de seus rendimentos com seu hobbie predileto, não são os garotos de 12-16 anos.

  13. shingowatanabe
    out 06, 2012 @ 03:13:03

    Bom texto! É interessante sempre trazermos de volta a questão de renovar o publico, embora eu não concorde totalmente sobre não termos RPGs de entrada no mercado com o 3D&T aí.
    Concordo com vc na questão da concorrência com outros tipos de lazer.

    A minha única duvida é sobre o Matsuri. Não tenho idéia do que seja. :)

  14. valberto
    out 06, 2012 @ 11:37:53

    Vou me arrepender disso, mas eis uma amostra do matsuri dance:

  15. Chuck MaZaA
    out 07, 2012 @ 00:22:14

    “Mas o fato é que existe MUITO anime solto por aí, pronto para ser consumido, por causa do seu público.”
    Tá legal.
    Mas então por que raios a antiga revista Dragão Brasil era tão criticada, demonizada e tida como o Grande Mal do RPG quando justamente em seus Áureos tempos trazia adaptações de anime em suas páginas???
    Hoje em dia muita gente é autor/jogador/mestre graças ao primeiro contato que teve com aquela revista de RPG com o pikachu ou Dragon Ball na capa.
    Quanto a eventos, concordo que primeiro deve se fortalecer a cena local, daí quem sabe levar o pessoal mais assíduo e “de fé” em caravana pra Sampa (por exemplo) em um evento maiorzinho, não precisa ser 5, 10 mil pessoas. Se tiver que pagar aluguel do espaço, segurança, hospedagens e passagens de convidados vai ficar inviável, a não ser que se tenha apoio das Secretarias de Cultura/Educação. Acho que as Editoras (que deveriam ser as primeiras interessadas) têm condição de colocar o catálogo com 30% de desconto nos estandes, cupons de desconto como parte do ingresso e umas 50 mesas com Mestre, basta organizar com antecedência. O pessoal de Eventos de Anime que conheço conseguiu fazer eventos bem sucedidos, mas ainda assim sem nada de lucro por parte de organizadores, então acho que além de tudo tem que ser na base do Amor!

  16. valberto
    out 07, 2012 @ 11:56:19

    Você não deve ter entendidoa mensagem que eu quis passar. Não é aliar RPG e anime e sim comparar os dois tipos de eventos. leia de novo.

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