Storyteller: um jogo de estereótipos… só eu não…

Ou Ser malkaviano não é desculpa para você agir como um retardado

Vampiro a máscara é ao mesmo tempo o mais fácil e o mais complicado jogo de RPG que eu já joguei na vida. É simples porque depois de entender a introdução (coisa de 10 minutos com Camarilla, clãs, poderes e tal) você monta o personagem sem esforço algum (pintando bolinhas!). O problema é que ao mesmo tempo em que se monta fácil o personagem, interpretá-lo de forma crível é um dos maiores desafios que eu já vi.

Num primeiro momento vampiro se parece um jogo de arquétipos bem definidos, como qualquer RPG. Tem os guerreiros (brujahs), os rangers (gangrel), os magos (tremeres), e os bardos (toreadores).

Parece realmente tudo muito simples. Você dá uma lida na descrição dos clãs e já vai formando as ideais na cabeça: brujah é o punk/skinhead revoltado, gangrel é o Wolverine do grupo, tremere é o mago cultista misterioso, ventrue é o líder do bando, nosferatus são os feiosos incompreendidos, toreador é o viadinho fresco, malkaviano é o maluco engraçadinho.

Só que as aparências enganam e muito aqui. Nem todo Ventrue é dominador, nem todo Tremere é cultista, nem todo Toreador é fresco e especialmente nenhum Maklvian é retardado. Claro que não vamos encontrar um nosferatu bonitinho, mas essa é a exceção à regra.

Não que seja impossível, mas interpretar um Malkavian não é para qualquer um. Comparo como interpretar um vilão. Se você não tiver cuidado, vai fazer uma coisa caricata e idiota. E o caricato e o idiota representam 99% dos casos que eu vi de gente tentando interpretar Malkavians ao longo desses 20 anos de jogo. Caricato nem é tanto o problema, mas quando é idiota, tende a colocar o jogo e a diversão dos outros a perder. As pessoas esquecem, com muita facilidade, que a loucura é uma forma distorcida de ver o mundo. Não deixa as pessoas mais tolas e sim mais perigosas. Pense por exemplo no vilão de Seven, os sete crimes capitais. Kevin Spacey dá uma cor toda especial ao vilão nos poucos minutos que ele está na tela. E o que dizer de Aníbal Lecter, o canibal da série o Silêncio dos Inocentes?

Em minha opinião, a melhor maneira de entender a loucura malkavian é lendo Berkeley. George Berkeley (12 de março de 1685 — Oxford, 14 de janeiro de 1753) foi um filósofo irlandês que postulou uma teoria sobre a realidade. Esta seria composta por três etapas: a realidade como ela é;a forma como os meus sentidos a captam e a maneira que minha mente a interpreta. Em pessoas normais a soma desses três itens resulta numa realidade mais ou menos comum a todos os seres humanos. A loucura é quando a soma desses itens resulta em algo diferente, bem diferente.

Obviamente nossas emoções têm um papel indispensável na construção da realidade. Uma frase pode ter um efeito completamente diferente se estamos felizes ou tristes, apaixonados ou desiludidos. Imagine que uma menina briga com a mãe por estar acima do peso e na escola, um professor vai falar com ela. Percendo que ela parece triste o professor começa com um termo carinhos como “fofinha”. Em circunstâncias normais o “fofinha” seria bem vindo, mas hoje ela soa como um insulto. A realidade é a mesma; o que muda é a nossa maneira de observá-la e interpretá-la.

Pense nos malkavinas como alguém entende a realidade de forma muito peculiar – única. Louca. Loucura é uma forma diferente der o mundo. Bem diferente. Fora do convencional. Perigosa até. Por exemplo, podem ser vozes dizendo para não confiar nos outros, uma obsessão por algo ou alguém, algo que você tem de realizar, não importa o que aconteça. Algo que domina a sua vida e que faz parte de você, isso é loucura. Não é agir feito um retardado.

Muita gente gosta do Batman. Não vejo nada mais louco do que o bat-verso. Todos os vilões do morcegão tem algum nível de psicopatia: seja a dualidade de Harvey Dent/Duas Caras, o complexo de inferioridade de Coblepot/Pingüim, ou mesmo a loucura escancara do Coringa. Esqueça a série infantil dos anos 60 e se concentre em releituras mais adultas como Batman: Arkhan City. Isso é loucura. Não existe nada de tolo neles. Por que o seu malkavian deveria ter?

Interpretar a loucura é algo desconfortável. É diferente. Mas compensa. Não é contar piadinhas fora de hora e sim fazer algo realmente perturbador. Pense num vampiro que tortura suas vítimas antes de matá-las, deixando pistas para a polícia. Isso é um malkavian. E não um palhaço idiota.

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4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. João Brasil
    jan 06, 2013 @ 00:56:31

    Muito bom posto…. interpretar é uma tarefa complicada, se levada à sério. Se formos ensar bem em Vampiro isso aontece com regularidade em todos os clãs. Os jogadores exageram no aspecto mais característico deles e passa a interpretá-lo como uma fantasia… As nuances é que dão tempero ao personagem sem acabar com suas raizes… mas poucos veem isso…

  2. Lobo
    jan 06, 2013 @ 01:19:03

    Lendo seu post lembrei dos momentos muito bons das sessões de Vampiro em 1995 a 98… Odiava Malkav, justamente por não saberem interpretar.
    Até que em 2003 mais ou menos, joguei com um amigo que interpretou um malkav com dupla personalidade… Foi pertubador, nossa aventura não foi muito pra frente pois eu era inimigo de uma das personalidades… Mas foi a aventura mais divertida que já joguei.
    Concordo 100% com o que você diz.
    Um abraço

  3. Ramon Franklyn Carvalho
    jan 07, 2013 @ 01:13:35

    Cara, pra mim, a visão do Hannibal Lecter é uma das melhores para fazer uma boe interpretação de um Malkavian.

  4. Serial101
    jan 07, 2013 @ 08:22:49

    Na verdade o texto não cumpre o que eu tinha em mente. Muita reclamação de como alguém deveria interpretar um malkaviano e saiu pouco do lugar comum para todos os outros clãs.

    Eu pessoalmente acho o clã inteiro completamente inútil. Pra mim loucura não deveria ser um “traço genético”, mas sim uma decisão do jogador (que tiver maturidade pra isso) escolher para seu proprio personagem. Normalmente quem joga de malkaviano quer só fazer um personagem engraçado, um alivio cômico ou simplesmente não tem interesse em nenhum clã de porrada,

    Isso é claro não invalida meu argumento, por que um malkaviano engraçadinho e sem noção do ridículo é uma interpretação ruim e um bruja que quer resolver tudo com os punhos não é?

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