Os novos heróis do Olimpo – um fanfic de Percy Jackson

Oliver

Se havia alguma coisa que Oliver odiava nesta vida eram quartos de hotel e aeroportos. Quartos de hotel tinham sempre a mesma cara, o mesmo cheiro, os mesmos sorrisos falsos na recepção. E aeroportos, bem, ele não sabia dizer por que, mas também os odiava. Achava que tinha algo a ver com o barulho, o movimento incessante de gente ido e vindo, as bagagens na esteira rolante, ou as longas horas esperando conexões.

E para seu desespero, quartos de hotel e aeroportos faziam parte da sua vida com muita frequencia. Aos 14 anos, o passaporte de Oliver já estava na sua terceira encarnação. Não que ele tivesse destruídos as outras duas, mas porque não havia mais espaço para carimbar! Tudo culpa de sua única família viva que conhecia, o tio Eduardo. O tio era professor universitário, pós-doutorado em alguma coisa. Quando estava em casa – ou no quarto de hotel – era um sujeito legal, espirituoso, mas sempre com alguns tiques nervosos. Era um tipo esquisito, acadêmico, que ganhava a vida dando cursos rápidos e palestras pelo mundo. Ele era amigo pessoal de gente como Bill Gates, Steve Jobs e já tinha até mesmo sido convidado para jantar na casa branca… O tio era mesmo uma figura, quando estava por perto.

Citar o nome do tio era ao mesmo tempo divertido e doloroso. O tio era irmão do pai de Oliver. Tomás de Albuquerque, o pai de Oliver, era professor de filosofia e ciências da computação (tudo a ver!) na Universidade de Illinois, em Chicago. Foi lá que ele conheceu Astrid, sua mãe, uma famosa jurista e astrônoma (tudo a ver de novo!). Bem, famosa é modo de dizer, uma vez que vasculhando a internet durante anos ele nunca encontrara mais informações do que seu tio havia lhe dado. Seu nascimento também era envolto em muito mistério: Astrid desaparecera numa noite de verão para não dar mais notícias. Um ano depois, seu pai morre num acidente de carro. E finalmente Oliver surgiu na recepção do quarto de hotel do recém doutorado Eduardo de Albuquerque. Oliver jamais vira uma foto da mãe, mas o tio jurou que quando completasse 16 anos, tudo seria revelado.

Oliver não era capaz de se lembrar de ter passado mais que seis meses numa única cidade. Só naquele ano, era o quarto país que visitavam. Se bem que o Brasil era meio que uma “base de operações mais ou menos fixa”. Com um roteiro como esse a educação tradicional era impossível. O tio contratava tutores, mas na maior parte do tempo, incentivava Oliver a buscar, ler e conhecer coisas que o interessavam. Com pouco mais de 1,60m e 50 quilos, cabelos curtos e castanhos, e quase nenhuma aptidão para os esportes, Oliver voltou-se para o mundo virtual. Ah, e como era bom nisso. Era como se os computadores o entendessem! Era capaz de aprender a usar qualquer programa de forma quase que intuitiva. Não só isso, era bom de eletrônica e programação também. Seu celular era uma mistura de i-phone chinês, com notebook, e mais meia dúzia de outras peças e programas.

E justamente naquela noite, Oliver estava a pouco mais de quatrocentos metros do Aeroporto Internacional de São Paulo. Sentado, aproveitando a rede wi-fi da lanchonete ele estava um pouco apreensivo. Uma das esquisitices do tio era seus mirabolantes “planos de contingência”. Ele tinha planos e protocolos para serem seguidos em virtualmente qualquer situação: desde ataques de zumbis, inundações em escalas globais, megaterremotos, a queda de um meteoro e até a terceira guerra mundial entre Canadá e Turquia. Muitos deles eram risíveis, mas outros, ele fazia questão de praticar. Aquele parecia ser um deles, mas estava ficando real demais. O tio estava dando aulas na USP e o deixara na Biblioteca do departamento de filosofia. Ele leu tudo o que quis sobre Empédocles – e até mesmo o que não quis – escaneou algumas páginas e nos últimos vinte minutos antes do almoço estava se divertindo com os quadros de humor de Marcelo Adnet. Foi quando a mensagem chegou no seu frank (abreviatura de fransknstein, o modo carinhoso como ele tratava seu celular-tablet-pc-torradeira -e-mais alguma coisa): “protocolo 122-1”.

Este protocolo dizia assim: “vá ao quarto de hotel e na recepção peça pela maleta que eu esqueci. Pegue a maleta e rume para o aeroporto. Compre uma passagem para Brasília, com o cartão de débitos que está na maleta. Lá, acesse seu e-mail e pegue o nome e o telefone do contato que vai te dar guarita. Saia da cidade imediatamente. Se eu não o encontrar no aeroporto, não espere por mim. Não confie em ninguém, especialmente a polícia e os homens de preto”.

Quem lesse o material estaria convencido da loucura do tio. Mas não Oliver. Ele sabia que era sério. Não era a primeira vez que o tio aprontava das suas. Nas primeiras vezes Oliver bem que achou engraçado: era como estar num filme de James Bond, mas com o passar dos tempos a “fuga rápida da cidade” começaram a chatear.

E dessa vez a situação era mais que real: a maleta estava lá, esperando por ele. Dentro dela haviam alguns documentos assinados de autorização de viagem de menores, algumas centenas de dólares, quatro mil reais em dinheiro, algumas moedas de e ouro da Grécia Antiga (como era  mesmo o nome? Dracma?) e seu passaporte. O problema é que não havia apenas um passaporte e sim vários. Todos com sua foto, mas de nacionalidades diferentes: a da Itália lhe conferia o nome de Bernardo Stelle, a francesa o chamava de Phillipe Etóiles e havia mesmo uma russa que o chamava de Andrei Zvezdy. Havia também uma foto, velha e marcada, onde ele reconheceu o tio e o pai ao lado de um avião a jato. Na aeronave lia-se o nome Dedallus Project. Sentada na cabine estava uma figura feminina, que só deus sabe como, ele reconheceu como sua mãe imediatamente. Havia também um canivete suíço.

Então, lá estava ele, decidindo-se entrar ou não no saguão principal e ir pegar seu voo. O check-in terminava em dez minutos. Ele empurrou uma porção de fritas frias e oleosas para entro da boca e chupou o último gole de coca pelo canudo. Nada do tio aparecer. Oliver jogou o capuz do casaco por cima da cabeça e colocou a maleta dentro da mochila. Era uma mochila de couro, um dos poucos objetos que herdara de seu pai. A mochila estava estranhamente leve e sem peso, apesar de estar com algumas mudas de roupa.

Por fim, tomou coragem e atravessou a rua, passando pelas portas automáticas que levavam ao saguão principal: sem saber ele estava embarcando na maior aventura de sua vida.

2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Davi Paiva
    maio 25, 2013 @ 19:57:08

    Gostei do texto. Mostrando que o mundo de PJ não se restringe só aos EUA. Fora que a fluência dele por si só é excelente. Fico no aguardo de mais capítulos!

  2. Manoela Castejon
    maio 31, 2013 @ 00:27:59

    Ficou muito bom, é de uma leitura muito envolvente.

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