Os novos heróis do Olimpo: capítulo 3

Caindo… na estrada

Dizem que quando você está às portas da morte, vê sua vida assar diante de seus olhos. Bem, se isso for verdade, pensou Oliver, a minha vida foi mesmo um saco porque não consegui ver e nem ouvir nada, a não ser o negrume da noite a 3km de altitude.

O pior era não saber para que lado estava caindo. Sabia que era para baixo, mas a sensação era agonizante. Não tinha muito tempo, sabia disso. Era como pular de um trampolim alto de olhos fechados. Você acha que demora mais para cair. Pensou em tudo o que vivera nas últimas horas e como tinha sido empolgante. Sentia o corpo cheio de vida, como se o mundo tivesse começado naquelas horas que antecederam a sua queda. Sentia-se estranhamente vivo. E que injustiça morrer dali a 20 segundos, esborrachado no chão de algum lugar entre o Goiás e o Distrito Federal.

Então ele bateu de bunda no chão. Não foi a pancada que esperava. Doía mais como “fui sentar e alguém puxou a cadeira” do que “fui jogado para fora de um avião comercial a 10 mil pés de altitude”. A escuridão clareou e ele percebeu que não estava não chão. Também não se parecia com o céu, a não ser que o céu se parecesse com o piso metálico de uma fábrica ou laboratório. Na frente dele uma mulher de longos cabelos cacheados estava enfiada num macacão industrial muito largo para ela. Ela passava os dedos sobre um tablet, como se estivesse procurando alguma coisa. Finalmente notou Oliver e comentou com uma voz metalizada, que Oliver reconheceu na hora: era a voz feminina do google translator.

– Quem é…

Oliver não teve tempo de terminar a pergunta. A mulher falou, sem mexer os lábios, direto na sua cabeça: quem eu sou não é importante. O que importa é que temos pouco tempo. Não, eu não sou sua mãe, embora tenha sido feita de um molde parecido com o dela. A verdade será revelada a seu tempo, mas a sua jornada deve continuar. Vejo que a astéro̱n thráf̱sma se adaptou bem a você. Bem até demais.

Só então Oliver teve tempo de olhar a mão que segurava o canivete suíço-mágico-sabre-de-luz. Nas costas da mão estava metade do desenho de uma estrela, como uma tatuagem incompleta. Na palma estava a outra metade. Girando rápido o punho o desenho se completava, como naqueles desenhos animados de uma página de caderno. Era um troço maneiro – de certa forma.

Temos pouco tempo, a voz do google translator chiou um pouco de estática. Em poucos segundos você vai estar no chão. A espada é uma dádiva e vai se manifestar quando você precisar. Ela parou um pouco, sua face de manequim sem expressão fitou-o por um segundo como se quisesse perscrutar seus sentimentos e então falou, com uma voz tão familiar que levou Oliver imediatamente às lágrimas: “Não se preocupe, vai dar tudo certo, eu te amo”. Era uma voz que ele conhecia, não sabia como, mas conhecia. Era a voz da sua mãe.

Oliver acordou. Estava deitado na grama. Ou algo que se parecia com grama. Era um tipo de mato mal cortado. Acima dele o céu noturno, tão salpicado de estrelas que mal se via o negrume da noite. Era uma visão tão linda que por alguns instantes ficou embevecido. Era como se o mundo, a queda do avião, a mensagem da mulher com voz de máquina não fossem nada. Ele ficou ali deitado, sentindo o cheiro de mato por algum tempo. Não soube precisar quanto. Podem ter sido só uns minutos, mas podem ter sido horas e horas. Por fim ele se levantou, como se tivesse dormido na melhor cama do mundo. A mochila estava firmemente afivelada ás suas costas. Ele pegou o frank, estava sem sinal de telefone e sem sinal de internet. Uma vaca passou perto, como se reclamando que Oliver estivesse em cima de seu café da manhã. Então Oliver viu o que parecia ser uma cerca e, mais adiante, brilhando como um rio de luz, o que parecia ser uma estrada. Ele pôs frank no bolso e começou a caminhar.

Estava numa estrada sim. Ao que parecia, uma BR. Era uma pista larga, com duas faixas de cada lado da estrada, separadas por um canteiro central. Estava movimentada e com o asfalto bem cuidado, com limite de velocidade passando dos 100 por hora. Atravessar estava fora de questão. Ele tinha duas opções: seguir na direção dos carros do seu lado da pista ou seguir em sentido contrário. Não tinha qualquer outra indicação. Resolveu andar na direção dos carros. Era um palpite tão bom quanto qualquer outro. O friozinho da noite já dava espaço para o calor do dia. Na estrada mesmo resolveu tirar o agasalho e ficar só de camiseta. Sentia-se um pouco nu sem o capuz para cobrir a cabeça. Andou por algumas horas, sendo acossado pelo passar dos carros, até achar uma placa furada à bala, escrito em tinta verde e branca: BR 060. Já sabia onde estava, pelo menos. Ainda não tinha ideia de onde estava exatamente mas sabia de duas coisas: uma – e mais óbvia – estava perdido; e duas – tão óbvia quanto – estava com fome.

Mais adiante viu uma caminhonete parada à beira da estrada. Era uma caminhonete f-1000, branca, de placas de Goiás. O capô estava levantado e um senhor de idade, pele bronzeada, magro, de porte quase atlético estava olhando para ele, limpando as mãos com um pedaço de pano. Era um tipo sorridente, que inspirava confiança, vestido de forma sóbria e simples: calças de tergal cor de creme, sapatos sociais um tanto gastos de cor marrom mais escura, combinando com o cinto de mesma cor. A camisa era de algodão, pano passado. Na altura do pescoço um crachá com o símbolo que Oliver reconheceu na hora: sesc. Mas era um crachá antigo que mostrava uma família de três pessoas na frente de um grande capacete com asas.

– Bom dia, andarilho! – ele saudou com um sorriso de vendedor de carros usados – que bela manhã para um problema nas velas de ignição, não é?

Oliver ficou meio sem jeito de responder. Não era bom com pessoas como era com máquinas.

– Bom dia, senhor.

– Me diga garoto, para onde você está indo? Por acaso não é desses menores abandonados que fugiu de casa é?

– Não senhor. Apenas perdi minha passagem. E resolvi andar para ver se pegava uma carona ou um transporte qualquer – Oliver não gostava de mentir e até certo ponto não estava: perdera mesmo a passagem de avião e agora estava em busca de outra passagem. E, além do mais, para que falar sobre demônios, espadas e quedas-livres?

– Bom, você parece ser um bom menino. Eu sei quando as pessoas estão mentindo para mim – o homem piscou o olho – o que me diz de uma carona até o Jerivá? Lá você pode tomar café, ou como é o caso, emendar o almoço. O melhor da cozinha goiana, em todo Goiás. Juro pela minha mãe mortinha!

Oliver estava seduzido pelo jeito “meio falso/meio honesto” do funcionário do SESC. Estava na cara que o sujeito tinha bom coração, mas também era patente que ele gostava de contar alguns “causos” de vez em quando. Resolveu aceitar. A viagem transcorreu em pouco mais de 20 minutos, pouco mais de 25 quilômetros. Mas parecia bem mais. O papo daquele homem era muito bom. No fim Oliver estava mais do que grato pela sua carona. Pararam na porta do Jerivá. Oliver desceu, mas o seu companheiro não fez menção para isso. Atendeu uma ligação num antiquado aparelho celular, desses tijolões, e se despediu rapidamente.

Mas antes de ir disse: Se precisar de alguma coisa e eu puder lhe servir basta apresentar este cartão na portaria de algum SESC. Já não sou mais tão influente quanto antes, mas ainda tem gente que me deve um ou dois favores. E falando em favores, não esqueça disso: quando você faz um favor a um desconhecido, está fazendo um bem ao universo. E o universo, assim como um Lannister, sempre paga suas dívidas. Era estranho um velhinho daqueles do interior citar Game of Thrones, mas Oliver não se importou. Talvez fosse hora mesmo de rever seus conceitos.

O homem saiu cantando pela estrada na sua f-1000. Oliver olhou o cartão: Mercuttio Maia – gerente administrativo sênior – SESC nacional.

O cheiro da comida chamou sua atenção mais ainda e ele foi na direção do restaurante. O dia estava começando de verdade.

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