Os novos heróis do Olimpo – Capítulo 4

Boa companhia para o almoço é coisa rara esses dias

Oliver avançou em direção a porta do Jerivá. O cheiro de comida parecia que o estava levando pelo nariz, como naqueles desenhos animados. Ele chegou perto da porta e ouviu um funcionário ralhando com um garoto. A cena chamou sua atenção imediatamente.

– Ô moleque! Aqui não é albergue para sem teto não. Cai fora antes que eu perca a paciência com você! – o funcionário esbravejava e gesticulava. – Não sabe ler não? Não aceitamos vagabundos aqui!

Na frente dele, no chão, encostado numa pilastra estava um garoto de uns quinze anos. Ele estava sentado com as pernas cruzadas, com um boné “hang loose” emborcado, onde se podiam ver algumas moedas e uma nota de dois reais bem amassada. O garoto tinha uns quinze ou dezesseis anos, era magro e atlético e deveria ter perto de 1,70m. Tinha cabelos descoloridos, um pouco compridos, como se tivesse feito um cabelo da moda alguns meses atrás e esquecido de cuidar. Vestia uma bermuda cor de caqui, bem folgada e gasta. Uma camiseta que uma dia foi branca ostentava um escudo com a sigla “RCPD”. O mesmo escudo estava estampado no ombro esquerdo da blusa, onde se lia em letras estilo militar a sigla “S.T.A.R.S.”. Para completar tudo o garoto estava com óculos escuros, estilo Jonh Lenon, e fones de ouvido enormes, com o desenho de uma esfera dourada salpicada de estrelas brancas. E mais: o garoto ignorava completamente o funcionário da loja – o que o deixava cada vez mais vermelho e irritado.

Alguma coisa mexeu com Oliver naquele instante. Talvez fosse o frescor da boa ação do seu Mercuttio ainda repercutindo na sua cabeça. Ele sentiu que precisava fazer algo.

– Ei champs! É aí que você está? Caramba, você me convida para almoçar, chega mais cedo e fica fazendo pose de mendigo. Não dá, né? Vamos entrar!

Oliver se esforçou para ser convincente e falar com naturalidade, mas tinha certeza que tinha gaguejado em algum ponto. Estendeu a mão para o desconhecido no chão esperando não ficar no vazio. Longos segundos se passaram antes que o garoto levantasse a cabeça e desse um pequeno sorriso. Oliver piscou e os dois apertaram as mãos.

– Espera um pouco! – disse o funcionário – Esse esmoléu tá rondado a lanchonete faz dois dias. Não vou deixar nem ele e nem você entrarem na loja. Tá na cara que você é outro esmoléu, só que mais bem vestido. Se não mostrar a grana não entra e ainda chamo a polícia.

Oliver odiava gente assim. E parecia que tinha um verdadeiro imã para encontrar esse tipinho que gosta de humilhar quem não tem nada. Foi do mesmo jeito com o atendente da Subway em Connecticut e com aquele rapaz da Haché, na Fulham Road, em Londres. Sem pensar ele enfiou a bolsa na mochila e sacou um maço de notas de cinquenta reais. Arrancou uma do bolo e disse com a voz firme: – Tá vendo essa grana? Tá boa para você? Agora eu vou dar esses cinquenta de gorjeta para o primeiro que me atender bem lá dentro e saiba de uma coisa cara… não vai ser para você.

O funcionário ficou sem ação. Oliver e seu companheiro entraram no restaurante, pegando as comandas com uma menina que só não sorriu mais forte porque não tinha como alargar mais a boca.

Os dois foram em silencio até o self service. E tinha de tudo. Vários tipos de arroz e feijão, vários cortes de carne, com cheiro e temperos irresistíveis. No final da rampa de panelas e bandejas ainda tinha um churrasco recém tirado do fogo. Oliver nunca fora de comer muito, mas dessa vez ele resolveu abrir uma exceção. Seu amigo também não deixava por menos. Comiam como se não houvesse amanhã.

Depois do primeiro prato os dois começaram a falar. O convidado foi o primeiro.

– Poxa cara, não sei como agradecer.

Oliver não sabia o que dizer. Não estava acostumado a ser o “herói”. Normalmente seu tio fazia esse papel de protetor dos outros. Não admitia nenhum tipo de injustiça. Chegava a ser chato às vezes.

– Deixa para lá. O meu nome é Oliver. Estou indo para Brasília e acabei perdendo a minha condução.

– Prazer em conhecer Oliver. O meu nome é Eric. Mas se você está indo para Brasília está do lado errado da estrada. Neste sentido está seguindo para Anápolis. É um bom lugar para visitar, mas com certeza não é Brasília.

Oliver fez uma cara de desamparado e puxou o frank do bolso. Sem linha e sem internet ainda. Ele sorriu como se pedisse desculpas:

– Parece que o meu guia quebrou. Já faz algum tempo que está sem sinal de internet e linha.

– Posso dar uma olhada?

Um pouco a contragosto Oliver entregou o frank a Eric. Não gostava dos outros fuçando o seu celular-tablet-torradeira. Eric o segurou com firmeza e forçou a tampa traseira até ela abrir. Tirou o chip da operadora, a bateria e deu uma boa soprada. Depois colocou os dois de volta com cuidado e tampou tudo com um click. Depois ligou frank e o colocou sobre a mesa. Em poucos segundos ele começou a apitar e vibrar como se tivesse ganhado vida. Eram dezenas de atualizações acumuladas de toda manhã.

Antes que Oliver pudesse perguntar como ele tinha feito isso Eric se adiantou:

– Funciona com os velhos cartuchos de supernintendo que eu costumava jogar no or … hã… na casa do meu tio Miguel.

– Você jogou mesmo num supernintendo? – Oliver parecia mesmo espantado. – com controles e tudo mais?

– Sim – concordou Eric, tomado de repente por certo orgulho.

– Eu só joguei por emuladores!

Os dois começaram a falar de jogos e a hora foi passando entre um novo prato e outro. Estavam realmente saciados e já tinham dado boas risadas juntos. Eram agora amigos.

– Sabe Oliver, tenho que te perguntar uma coisa. Como sabia que eu era um cara legal? Eu poderia ser um bandido. Por que você decidiu me ajudar?

Oliver sorveu um resto de limonada suíça do seu copo americano e comentou:

– Ninguém que usa camisa da Raccon City Police Department pode ser um cara ruim. Ainda mais se fizer parte do grupo S.T.A.R.S.!

Os dois começaram a rir de novo, até o ar faltar. Só então Eric comentou a tatuagem de Oliver.

– É recente, cara?

– Bastante… eu acho.

– Gostei da ideia de movimento que você fez nela. Achei bacana. Agora olha isso aqui! – Eric colocou o pé direito sobre a mesa e abaixou a meia até deixar a mostra uma asa estilizada desenhada no seu tornozelo. O traço era fino e firme. Estilizada e atemporal.

– Parece que somos irmãos de tinta. Mas olhe bem. Parece que são do mesmo artista. Onde você fez a sua, Eric?

– Eu não sei. Desde que me entendo por gente eu as tenho. No outro pé tem outra igualzinha. E a sua?

Oliver sentiu o estômago revirar. Como explicar ao amigo a luta com o demônio, a explosão do canivete suíço mágico e todo o resto? Ele ia achar que ele estava louco ou pior, que não queria contar alguma coisa. Mas antes que pudesse ensaiar uma resposta Eric deu um arroto alto e forte.

– É… parece que o porco deu sinal de vida. Acho melhor ir até o “cavalheiros” antes que as coisas piorem. Quando eu voltar a gente continua de onde parou. – e lá foi ele com passos rápidos até os banheiros, que ficavam do outro lado do restaurante, perto da portaria.

Oliver resolveu dar uma fuçada no frank para ver notícias e saber do que estava acontecendo no mundo.  As buscas sobre o tio deram em notícias velhas. A busca sobre ele revelou a manchete do jornal da noite sobre o estranho acidente aéreo que matou um deputado de ataque cardíaco, mas nenhuma palavra sobre ele ou sobre o demônio. Dava até mesmo para ver uma filmagem da despressurização do avião, mas Oliver não teve tempo. Sentiu sombras sobre ele. Seu sangue gelou e sua garganta secou. Era um homem de preto.

– O senhor é uma pessoa difícil de encontrar. – ele abriu o paletó mostrando um coldre interno e uma pistola automática – Vamos fazer isso sem alarde, ok? O senhor se levanta e me acompanha até a saída, nice and easy.

Oliver estava paralisado. Sua mão formigava e a tatuagem começava a esquentar. As palavras surgiram na sua mente “astéron thrá…” quando ouviu um grande baque e o agente caiu de joelhos levando as mãos à nuca. Atrás dele Eric segurava um caldeirão de feijoada, feito de ferro fundido.

-Vamos embora cara. O nosso almoço foi cancelado inesperadamente!

Antes de sair correndo Eric deu mais uma panelada na cabeça do agente, cobrindo-a em seguida com a panela de ferro. Oliver correu para a porta de saída, onde alguns funcionários faziam uma espécie de cordão de isolamento. No meio deles, segurando um pedaço de pau estava o atendente de mais cedo, com um sorrisinho vingativo no rosto. Não dava para ir por ali. Então Eric enfiou a mão na mochila de Oliver e puxou o maço de notas de 50 reais, jogando tudo para cima. Começou a chover onças para todos os lados.

– Aê galera, quem quer “denhêro”? A-hai!

A confusão foi instantânea. Dezenas de pessoas se estapeando para pegar as notas do chão. Bagunça o bastante para se esgueirar pelos cantos e sair do restaurante.

Ganharam o estacionamento. Viram um carro preto com um outro homem de preto lendo jornal. De repete ele larga o jornal e sai em direção ao restaurante.

– É a nossa chance! – disse Eric correndo em direção ao carro. – Você não vem?

Oliver não tinha muita escolha. Entrou no carro pela porta aberta e percebeu que nenhum dos dois tinha chave.

– Ah, você fala disso? – disse Eric mostrando o molho de chaves na mão. – Eu achei que teríamos mais chances de sair daqui se o dono do carro não pudesse dar a partida.

O carro ligou e saiu pulando pela estrada… obviamente Eric não tinha muita certeza do que estava fazendo…

– Você sabe dirigir isso cara? – Oliver perguntou preocupado.

– Não, mas eu joguei muito GTA!

O carro foi pegando velocidade e sumindo da vista pela estrada bem pavimentada.

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