Os novos heróis do Olimpo – Capítulo 5

Eric

Quando ainda era moleque Eric era muito maior e mais magro que seus colegas de infância. Por isso ganhou o apelido de magrão. Não que ele não gostasse. Ele gostava de ser chamado de magrão. O fazia lembrar-se daquele jogador de basquete, como era mesmo o nome dele, ah sim, Oscar. Um grande craque. Mas tinha vezes na vida dele que ele achava que ouvia errado e que seu apelido era “azarão”. Porque sempre que alguma coisa ia bem aparecia algum desastre à vista. Sempre.

A começar pela família de Eric muita coisa deu errado. A mãe dele foi atleta olímpica. Filha de um lar desfeito e sem parentes vivos ela perambulou pelo mundo até arrumar emprego como entregadora de cartas dos Correios. Descoberta enquanto ainda trabalhava para os correios, numa dessas competições organizadas pelos diretores da empresa, ganhou o mundo. Dali para uma meteórica carreira como corredora de longa distância foi realmente umas poucas passadas. Foi até classificada para as Olimpíadas de 2004. Ela correu e apesar de não ter sido bem sucedida não chegou a perder feio. Após os jogos resolveu ficar um pouco mais de tempo na Grécia. Correr por onde havia surgido o termo “maratona”. Conhecer o lugar onde a corrida ganhou status de jogos em homenagem aos deuses. E foi lá, nesta viagem, que ela conheceu seu pai.

Era um esportivo grego, que como ela, também trabalhava entregando correspondências. Corria a Europa inteira entregando pacotes para uma empresa chamada “Aktinon”, que era de algum parente. E era tudo, ou quase tudo o que sabia do pai.  Das buscas que fez pela tal empresa nunca achou nada e nem ao menos uma palavra sobre um corredor grego chamado Nicoxemos. Fato é que o relacionamento dos dois não durou. Nos últimos 16 anos de vida Eric viu o nunca viu o pai, mas recebeu pelo menos uma dúzia de cartas dele.

Após o relacionamento mal sucedido a sua mãe voltou para os correios. Foi mais ou menos na mesma época que Eric nasceu. Com três anos de idade sua mãe acabou perdendo a vida num assalto mal explicado. Sem parentes próximos, Eric se viu forçado a viver passando de orfanato em orfanato, de lares temporários em lares temporários e sempre que alguma coisa na sua vida começava a melhorar era como seu uma chuva de lixo estivesse prestes a cair. Foi entre essas tempestades de azar que ele viveu dos dez aos catorze anos no orfanato São Miguel, no interior do Rio de Janeiro. Era uma vida boa. Ou quase. O orfanato era pobre e carente de quase tudo, menos de amor e carinho. Quantas vezes, ao lado dos amigos de infortúnio, espantou a fome com chá de folhas de limão colhidas no limoeiro dos fundos da casa? Naqueles anos Eric sentiu-se amado por seu Nestor e dona Andréia, os administradores do lugar. Ele estudava numa escola próxima, jogava videogame com o supernintendo de seu Nestor e nos fins de semana saía com os amigos para paquerar as meninas nas matinês em volta da praça da cidade.

Foi numa dessas matinês que sua sorte mudou de novo. Recebera uma carta de seu pai, com um presente. O primeiro dele desde que se entendia por gente. A carta era breve e dizia que o presente, uma velha medalha dos jogos olímpicos de Atenas 2004, o ajudaria a encontrar a felicidade. Era uma medalha de ouro, pequena e com inscrições em grego. “Era a medalha que sua mãe deveria ter ganho e perdeu por minha causa”, dizia a carta.

Foi então que o azar começou a se tornar bizarrice. Um grupo de pessoas vestidas de terno e gravata começou a rondar o orfanato fazendo perguntas sobre garotos tatuados e medalhas. Numa fira noite de outono eles invadiram o orfanato. Eles tinham uma ordem de prisão para Eric. Seu Nestor negou-se a dizer onde o menino estava e por isso foi preso. Nunca mais se soube dele. Naquela mesma noite dona Andréia o levou à rodoviária e lhe deu algum dinheiro para que ele tentasse ir para o mais longe que pudesse. Não adiantava procurar as autoridades. Eric deveria fugir. E desde então Eric perambula no mundo. Bom, essa era a história curta que Eric pretendia contar ao aflito Oliver assim que pudessem parar. Enquanto Eric concentrava-se na estrada via o amigo afundado no tablet dele pesquisando alguma coisa que parecia muito importante – pelo menos mais importante do que morrer com um tiro ou coisa pior por alguns agentes da MiB caçadores de crianças tatuadas.

Não, não era a hora de contar sobre como Eric podia correr rápido. De como suas tatuagens ganhavam vida, impulsionando-o para frente como um foguete. Nem era a hora de dize que seu Nestor estava sumido sim, mas que foi dona Andréia que o denunciou aos tais homens de preto e que com a ajuda das suas asas ele conseguiu fugir. Não era hora de dizer sobre a sua agilidade sobre-humana e nem como a sua medalha brilhava, apontando todos os dias a direção a seguir. E nem como a medalha aqueceu-se forte perante o aperto de mão de Oliver. Talvez Oliver fosse a pessoa mencionada na carta de seu pai. “Um amigo inesperado vai achar você. Seja gentil e leal com ele, pois com ele segue a chave para a sua felicidade”.

Cada minuto que Eric ficava ao volante mais ele sentia o carro. Era como se a cada segundo que ele ficasse dirigindo mais ele conhecesse cada parte do veículo, como se ele se integrasse com a máquina, como se fossem um só. Ele se sentia o verdadeiro piloto de corridas. Alias, se alguma coisa podia se mover com rapidez Eric achava que poderia aprender a controla-la em poucos minutos. Foi assim com a moto que ele achou com chaves na ignição em Feira de Santana, ou com aquele Jet Ski em Bertioga, que ele tinha conseguido ligar com uma pancada no painel. Até agora não sabia como, mas suas mãos eram boas para abrir ou fazer funcionar as cosias. Era assim que ele consertava as coisas, ou dava partida nas coisas, sem saber. Era algo que simplesmente acontecia. Era quase mágico.

Por fim Eric ouviu o amigo dando-lhe coordenadas. “Ali na frente vai ter uma estrada de terra” ele dizia com uma desconcertante certeza. “Vamos pegá-la. Depois vire sempre á direita nas bifurcações que encontrar. Quando chegarmos à terceira, atravesse o rio mesmo que ele pareça cheio”.

“Seja leal com ele”, martelavam as palavras na cabeça de Eric. E tudo correu como Oliver falou: a estrada de terra, as bifurcações e até o rio. Cara, deu medo atravessar aquele riacho a 120 km por hora, voando água para todo lado, mas foi o que Eric fez. Por fim Oliver pediu que ele parasse o carro embaixo de uma frondosa jabuticabeira.

– Temos que conversar cara – disse Oliver em tom sério.

E Eric pensou que o pior ainda estava por vir.

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