Os novos heróis do Olimpo – Capítulo 8

Aulas aos sábados deveriam ser proibidas

Eric estava na frente da UnB, campus Gama. O prédio ficava realmente em frente da DF-480, como Oliver havia mencionado na noite anterior. Uma pista movimentada. Não foi difícil chegar lá. A moto emprestada da Giges Segurança fez todo o trabalho. E lá estava ele, o sol de sábado brilhando no céu sem nuvens do DF, olhando para o bilhete que recebera de Nausícaa tão logo acordou: “Recebi uma pista quente agora a pouco e não dá tempo de te acordar. Nos vemos no hotel, perto do meio dia. Não se preocupe, sei o que estou fazendo. Assinado Oliver”. O que poderia ser tão importante? Que pista seria essa? E mais importante, e o que deixou Eric realmente ressabiado: por que ele tinha a impressão que Nausícaa estava escondendo alguma coisa? Bom, seja lá como fosse agora Eric estava em missão solo para encontrar o tal professor-contato-misterioso-do-tio-do-Oliver.

Ele estacionou a moto num dos estacionamentos do lugar. Para um campus que parecia tão pequeno – Eric já tinha visto colégios maiores na vida – o estacionamento estava entupido de carros. Parece que cada aluno trouxe dois carros. E para piorar, parecia que o lugar estava em construção há anos. Tinha muito material de construção espalhado por aí, e algumas salas ainda fechadas por tapumes que de tão velhos estava desmanchando. Fiação exposta aqui e ali e dezenas de cadeiras ainda encerradas dento do plástico, completamente empoeiradas.

Ele passou pela portaria e logo viu uma menina com um colete de segurança vermelho. Instintivamente levou as mãos ao cabo da adaga, guardado no bolso de trás da calça jeans. Ao olhar mais de perto sentiu um grande alívio ao ver outra empresa de segurança que não a Giges. Caminhou então sem pressa até a moça e lhe perguntou onde ficava a sala de Mitologia Gregco-romana.

– Mitologia o que? – ela engasgou, como se não tivesse entendido a pergunta.

– Greco-romana – Eric repetiu, dando ênfase em cada sílaba – você sabe: mitos, deuses, fadas, essas coisas.

A moça empertigou-se como se Eric tivesse dito alguma coisa sobre a mãe dela trabalhar na profissão mais antiga do mundo.

– O sangue do Cordeio tem poder menino! Eu não sei nada disso não. Só existe um Deus e ele é nosso senhor Deus. Você deve ser dessas crianças da nova era que adoram o anti-cristo. Saia de perto de mim, cria do inimigo.

Eric não pensou duas vezes em atender os desejos da segurança. Ele já tinha visto fanáticos o bastante para perceber quando alguém tinha sofrido lavagem cerebral ou tinha um parafuso a menos. E no caso da simpática moça que o atendera poucos minutos atrás ela não tinha apenas alguns parafusos soltos: era uma caixa de ferramentas inteira que estava faltando! Então ele começou a missão de bater de porta em porta em busca de tal sala. A resposta era sempre a mesma: não sei, não conheço, nunca ouvi falar, com as variações de “tem certeza que é aqui?”, “você já tentou a moça da segurança lá no saguão?”, e o clássico “olha na sala 1, ou 2, ou 3 ou 4”.

A busca já estava ficando infrutífera. Queria que o amigo estivesse ali: com certeza a essa altura Oliver já teria passado os dedos no frank e já saberia como chegar na sala, com direito a GPS e voz de Homer Simpson.  Ele se sentou no que deveria ser uma fonte de centro de jardim de inverno, cercado de vasos sem plantas. Uma figura com feições de estátua grega, parcialmente coberta com plástico-bolha apontava para a escada do segundo andar do bloco A – escada que ele já tinha subido e descido umas dez vezes naquele dia. Foi que Eric percebeu um pequeno contorno por trás da escada. Uma porta corta-fogo, pintada da cor da parede. Por que não? Ele empurrou a porta e saiu num corredor estranhamente longo. Caminhou por ele, observando o seu piso de mármore polido e as colunas de estilo grego que sustentavam o teto. Aquilo em nada se parecia com o resto da arquitetura moderna do prédio. Até que ele saiu num pátio enorme coberto, com uma quadra no centro, ladeada por dezenas de salas de aula.

Eric avançou na direção da quadra e percebeu que o piso era feito com um mosaico de pedaços de azulejo e cerâmica de várias tonalidades diferentes. Eles formava vários desenhos no chão. Contavam uma história, com um grupo de jovens guerreiros lutando ao lado de deuses contra terríveis inimigos. Não era preciso ser diplomando em mitologia grega para saber que estava diante de uma representação da guerra dos deuses contra os gigantes e os titãs. Achou realmente engraçado que um dos gigantes parecia com Cássio, o cara que perdeu para Seya a armadura de Pégaso, no anime Cavaleiros do Zodíaco.

Ele parou bem na frente da representação do gigante, reuniu uma boa dose de saliva e cuspiu bem em cima do olho do gigante que parecia Cássio. Era como se estivesse cuspindo na cada de todos os “grandalhões” que lhe fizeram bullying por boa parte da vida, especialmente na escola.

– Você deveria ter mais respeito por Hipólito, semi-deus. Ele foi derrotado, mas está voltando. E quando o fizer todos de seu sói vão sofrer terrivelmente.

Eric virou a cabeça na direção da voz, que ainda ecoava pela grande quadra, com um sibilo de serpente. Era um homem feito, alto, corpulento. Careca e sem num pelo no rosto. Usava uma calça de couro escura, botas de cano alto de pele de cascavel e uma jaqueta sem mangas onde podia-se ler “Clube dos motoqueiros Víboras do Asfalto”. Na sua calça havia o que parecia ser um cinturão, feito de cobras vivas que ficavam circulando de um lado para o outro de sua cintura.

Mas isso não era o assustador. Não era aquilo que preocupava Eric naquele momento, e sim o monte de criaturas com cabeça de cobra naja que estavam ao lado dele. Eram repulsivas: uma mistura mal feita de homens e cobras, com olhos sem órbitas, presas pontudas como agulhas e nenhum pelo no corpo. Usavam roupas de motoqueiro também.

– Eu sou Arsenika. Filho de Medusa e vim aqui para destruir você! Fidiandros, acabem com ele.

Eric não sabia o que era pior: enfrentar um filho de um monstro mitológico e seus asseclas, saber que alguém teve filhos com a Medusa, ou que esse tal filho da Medusa falava como os monstros do seriado dos Power Rangers. Os monstrengos-cobra correram na sua direção, de forma desajeitada e desordenada como se não estivessem acostumados nem a lutar juntos e nem a correr. Eric sacou as adagas a tempo de atingir o mais afoito deles no abdômen. Ao invés de espirrar sangue, espirrou uma gosma verde de cheiro forte e nauseante. O segundo atacou e foi despachado com outro golpe, apenas para liberar mais gosma fedorenta. O ar esta irrespirável. Eric sentia ânsia de vômito e os seus olhos ardiam como se tivesse mergulhado a cabeça em spray de pimenta! Ele tentou correr, mas as pernas não obedeciam. Ele esforçou-se mais e a visão nublou. Ele acabou acertando um extintor de incêndio vermelho. A pancada soou como um sino de catedral sendo badalado. Arsenika gargalhou, com seus coisas-cobras reunindo-se à sua volta.

– Esta é o grande desafio dos deuses? Este é um dos quatro grandes da profecia? Ah, os deuses devem estar perdendo as forças. Você é patético, mortal. Eu não vou matar você imediatamente. Vou tê-lo como meu escravo e vê-lo rastejar pela sujeira do mundo antes de acabar com você. Vou mata-lo lentamente com o meu veneno!

– Quer fazer o favor de calar a boa? Estou tentando dar aulas aqui.

A voz ecoou poderosa e cavernosa pela quadra. Era de alguém que não apenas sabia comandar, mas também estava acostumado a ser obedecido. Arsenika e sues homens cobra viraram em direção da voz para encontrar um professor universitário com metade do corpo para fora de uma das salas. Não parecia grande coisa: era alto sem dúvida, mas magro e pálido como se evitasse propositalmente o sol. O seu cabelo era negro e espesso, com o rosto magro sendo emoldurado por uma barba longa e escura, sem bigodes. Os olhos estavam espremidos e eram de um verde tão forte que Eric teve de desviar o olhar. Estava enfiado num paletó cor de creme, antiquado e fora de moda, com protetores de tecido escuro no lugar dos cotovelos. Usava uma camisa branca, com uma gravata cinza com bolinhas, num antiquado nó “meio Windsor”. No paletó via-se alguns botons, mas todos bem antigos. Quando ele colocou o resto do corpo para fora da sala, fechando a porta atrás de si, até mesmo Eric achou que estava tendo visões. Suas calças eram cor de creme, combinando com o paletó, morriam em cima de sapatos sociais marrons claros. Ele puxou do bolso o que pareciam uma caderneta e uma caneta.

– Volte para sua aula, panaca ou eu e minha gangue vamos arrebentar com você. O meu papo é com esse punkesinho aqui. Cai fora se não vai levar o seu.

 O professor não pareceu se incomodar e caminhou desafiador em direção a Arsenika e seus coisas-cobras. Arsenika gesticulou com a cabeça e quatro de seus comandados correu na direção do professor. Então Eric viu o que parecia um flash de luz arroxeada e ouviu como nos filmes quando alguma coisa era cortada. Quatro coisas-cobra estavam caídas no chão e na mão onde estava a caneta do professor estava agora uma espada feita de ferro escuro. A espada era bela, mas assustadora. A sua guarda era feita de ouro, adornada com uma cabeça de bode, cujos chifres se prolongavam para as laterais. Fora a guarda que era dourada e brilhante, a espada era de ferro escuro, tão denso e ébano, que até mesmo a luz parecia evitar toca-la.

A nuvem de gosma foi na direção do professor. Ele levou a mão à boca para se proteger, mas já era tarde. Foi engolido pela nuvem de gás verde. Arsenika e os dois coisas-cobras começaram a rir. Então a nuvem foi sumindo, como se estivesse sendo sugada. Quando ela sumiu por completo, Eric viu o professor cercado por 4 zumbis, todos usando roupas de soldados. O da frente, com roupa de cangaceiro e com um enorme rombo na lateral da cabeça estava todo inchado, como se fosse um balão. Ele olhou para cima e cuspiu o gás que subiu inofensivamente em direção ao teto. Outros dois zumbis, vestidos de soldados da segunda guerra mundial, correram na direção dos coisas-cobras restantes. A quarta e última era uma versão feminina de zumbi e estava vestida como uma punk. Ela enfiou a mão dentro do peito e sacou duas costelas, que passou a empunhar como se fossem adagas. Depois disso ela correu loucamente na direção de Arsenika.

A batalha foi fenomenal. Melhor que entroncação de MMA. Arsenika lutava bem, mas a zumbi punk lutava melhor. Se houvessem mais delas, a série The Walking Dead não teria saído do primeiro episódio! Ela chutou Arsenika que bateu na parede comum saco de roupas sujas sendo jogado. Ela o levantou e grampeou as mãos do górgona na parede, usando suas costelas como estacas. Arsenika urrava e gritava, tanto de dor como de ódio.

– Maldito semi-deus! Saiba que minha mãe não vai tolerar essa desfeita! Eu vou voltar, vou caçar você e toda a sua família. – Arsenika espumava de raiva a cada palavra, mas foi preciso apenas um olhar do professor, que estava vindo em sua direção com a espada na mão, para que ele engasgasse com a própria saliva.

– Primeira coisa: boca. A sua tem muitos dentes. – o professor falou em tom casual, mas a resposta da zumbi foi imediata: com dois socos bem dados Arsenika cuspiu metade dos dentes – Segunda coisa: ameaças. Eu não tolero ameaças. – a zumbi chutou o saco de Arsenika com tanta força que Eric jurou ter ouvido alguma coisa quebrar. Ao que parece a zumbi punk era a mais inteligente de seu bando e estava mesmo disposta a agradar o seu mestre. – Terceira coisa: diga a seu mestre, seja ele ou ela quem for, que ninguém se mete nas minhas aulas. Fui claro, górgona?

-Sim… – a voz de Arsenika sibilou novamente, mas dessa vez um chiado e dor e medo.

O professor piscou e a zumbi arrancou as costelas das mãos de Arsenika, recolocando-as em seu corpo. Ela e os outros zumbis andaram na direção um do outro até que se juntaram, formando a caderneta que o professor segurava minutos atrás. O professor virou-se para Eric e começou a caminhar na sua direção. Ela tinha agora um sorriso largo e acolhedor, com os braços abertos, numa clara expressão de paz e boas vindas.

Eric levantou-se com esforço e viu Arsenika correndo na direção do professor, uma adaga em punho. Ele tentou avisar, mas ainda estava engasgado. Mas ele não precisou. Antes que Arsenika chegasse perto o bastante para usar a adaga o chão se abriu diante dele e dezenas de braços esqueletos surgiram do chão, agarrando-o e puxando-o para baixo. Ele gritou em desespero enquanto o solo fechava-se como se nunca tivesse sido aberto.

– Não se preocupe “herói”. Esse não vai incomodar mais. Bem, devo supor que você é filho dos deuses e está numa missão. O que eu, um pobre professor posso fazer por você? Mas claro! Onde está minha educação? Sou Roberto, filho de Hades. Por favor, beba isso antes. Não tenha medo. É ambrosia. Minha esposa que faz. É uma delícia. Vai ajudar você a sumir com os efeitos do gás.

Eric bebeu e sentiu o corpo queimar. Um gole sua cabeça parou de doer, a garganta e os olhos pararam de arder. Mesmo o cansaço da luta havia sumido completamente.

– Então? – o professor parecia solícito.

– Bom, não sei de missão nenhuma – Eric começou, devolvendo a garrafinha ao professor. – mas se você for o professor de mitologia greco-romana, temos algo a falar.

Roberto concordou, acenando com a cabeça: – Sim, eu sou o professor, mas temo que hoje eu lecione apenas para os espíritos dos mortos que não sabem encontrar o caminho para o descanso eterno. Eu os ensino como chegar aos Campos Elísios e em outros casos eu caço os fujões do Tártaro. É um trabalho em tempo integral, que a minha esposa odeia.

 – Ok. Eu sou amigo de Oliver Albuquerque. Estamos aqui, ou melhor, eu estou aqui por que o tio dele mandou a gente procurar você caso as coisas ficassem estranhas… e nos últimos dias elas ficaram mesmo.

– Eu conheço o pequeno Oliver e seu tio. A família dele é minha amiga de muitos anos. Se estão em problemas o meu dever é ajudar. Conte-me tudo.

Eric contou o que sabia, do seu ponto de vista: o encontro com Oliver no Jerivá, a fuga dos homens de preto, a viagem para Brasília… o professor o interrompia de tempos em tempos a fim de esclarecer detalhes.

– Quer dizer que vocês não então em missão pelo Santuário? Nem sequer foram reclamados? – Perguntou o professor incrédulo.

– Cara, eu nem sei o que é o santuário e muito menos o que é ser reclamado. Mas o lance é que ontem nos hospedamos num hotel e o Oliver sumiu. Ele deixou um bilhete, mas eu não levo fé nisso.

– Em que hotel vocês estão?

– O Syros, no centro.

Roberto empalideceu – se é que ficar mais pálido fosse possível. Ele assobiou e logo depois Eric ouviu o trotar de um cavalo. Era um enorme garanhão negro, com cascos em chamas. No lugar os olhos e narinas, existiam buracos vazios e vermelhos, que ardiam como ferro em brasa. A crina parecia ser feita de fumaça.

Roberto montou no que mais parecia um pesadelo equino saído do inferno e estendeu a mão para Eric:

– Vamos logo! Se tudo o que você disse é verdade e seu amigo está no Syros temos de nos apressar antes que ele morra ou coisa pior.

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