Os novos heróis do Olimpo – capítulo 10

A caminho de um lugar melhor

Eric abriu os olhos. Eumeu não estava mais em cima dele. Na verdade o que sobrara de Eumeu estava jogado a uma dezena de metros dali, perto da piscina. A espada de James Bond jazia um pouco mias longe, cravada com firmeza no tronco do que parecia ser uma grossa oliveira. Virando a cabeça para o lado Eric viu Oliver com a espada na mão “Astéron thráfsma!”, pensou Eric. Que coisa incrível. Logo atrás dele, Roberto se arrastava. A ambrosia já tinha devolvido a cor do seu rosto e as feridas do braço já tinham cicatrizado, deixando apenas o rombo no terno tweet.

– Bom trabalho garoto. – Roberto tossiu, guardando sua espada-caneta no bolso. Agora vamos sair daqui antes que Eumeu acorde.

Os três se dirigiram para a porta do elevador. Foi uma viagem de volta rápida e silenciosa. Por fim Roberto virou-se para Oliver e estendeu a mão.

– Prazer em te ver de novo Oliver – o seu sorriso era espontâneo, embora não combinasse nada com seu rosto. – da última vez que te vi você não passada de uma sacolinha de roupas agarrada no colo do seu tio. Vejo que você cresceu evirou um homem feito.

– Desculpe, mas não me lembro de você – Oliver parecia mesmo transtornado. – Você é o contato do meu tio, certo?

– O seu tio ainda usa os planos de contingência? Bom quando recebi um e-mail alguns dias atrás achei que fosse mais uma brincadeira dele. Ele é muito brincalhão, sabe?

Oliver não podia crer no tio como alguém brincalhão. Espirituoso vá lá, mas brincalhão não era um adjetivo que pudesse ser usado com ele. Roberto continuou explicando de forma amigável de onde se conheciam quando a porta o elevador abriu. O saguão do hotel Syros, no centro do Gama estava misteriosamente vazio. Sobre a mesa, escrito num misto de grego e português Oliver pode ler algo como “eu me demito”. Os três saíram pela porta da frente e Oliver espantou-se a ver o cavalo infernal.

– Cuidado – advertiu Eric, enquanto que kolássis olhava para ele como quem diz: encoste em mim de novo e eu vou mastigar a sua cara – o cavalinho aí não gosta de semideuses.

– Ok, a primeira coisa a fazer é levar vocês até o santuário. Daqui até lá são quase oitenta quilômetros. Eu os levaria na minha kolássis, mas ela deixou claro que não gosta de vocês – Roberto forçou mais um sorriso. Aparentemente era complicado para ele sorrir e ser gentil com os outros. – Vocês tem algum tipo de transporte?

Oliver assentiu. Ele pegou a moto da giges que estava no estacionamento do hotel e montou nela. Eric montou atrás. Eric pensou em protestar, já que ele era o motorista oficial da dupla, mas resolveu deixar para lá. Depois de levar um raio de energia no peito e de lutar nas praias da Grécia, andar de carona parecia uma boa ideia. A cabeça de Oliver girava a mil por hora.

Era complicado guiar e conversar ao mesmo tempo, por isso depois de algumas tentativas os dois amigos calaram-se. Atravessaram a estrada em direção a cidade vizinha de Santa Maria. Quase uma hora depois passaram por uma placa onde se lia “bem vindo ao Itapoã – terra de gente feliz”, mais quarenta minutos depois as motos pararam a beira de uma estrada de terra batida que serpenteava para além do asfalto.

Serpentear era o termo correto. Foram tantas voltas que num momento os meninos cansaram de contar. E sempre, depois de cada curva havia pelo menos mais dois – às vezes três – caminhos a seguir. Era como se estivessem seguindo por um labirinto. Várias vezes durante o trajeto Oliver e Eric sentiram dejavus e flutuações nas vistas. “É a névoa, não se preocupe”, acalmou Roberto numa das vezes. Depois de não sei quanto tempo eles deram de cara um uma imensa cerca branca que se arrastava para os dois lados até onde a vista pudesse alcançar. Do outro lado da carca grama verde bem cuidada e o que aprecia ser um clube campestre. Piscinas, chalés e diversas construções se espalhavam de forma não uniforme por todos os lados.

Tudo parecia atemporal: alguns chalés eram mais simples, de madeira e pedras enquanto que outros pareciam casas renascentistas e outros ainda pareciam ter saído do um desenho futurista. A medida que iam passando pelo que parecia uma estrada central, feita por um mosaico de pedras finamente encaixado, os meninos viam dezenas de outras crianças e adolescentes. Alguns cavalgando, outros pescando, outros treinando arco-e-flecha.  Roberto parou sua moto/égua infernal e desmontou. Os meninos fizeram o mesmo. Pela estrada, saindo de um enorme prédio principal, que na opinião de Eric parecia demais com a sede da corporação capsula de Dragon Ball, eles viram um pelotão de jovens. Todos vestiam armaduras de couro com elmos de bronze. Portavam escudos longos e lanças com a ponta feita de um material que lembrava bronze. De certa maneira era uma versão teen/kids de 300 de Esparta. Só que na frente, ao invés de Gerard Butler no papel do carismático Rei Leonidas, havia rapazote de uns 15 anos, magrelo, cabelos encaracolados, com algumas espinhas saltadas á pele e com uma rala barba que parecia pouco a vontade com a armadura que usava.

Eric instintivamente colocou as mãos por baixo da jaqueta, encontrando a segurança das suas adagas de confiança. Oliver deixou o braço direto estendido, como se sua espada feita de pedaços de estrela pudesse ser sacada a qualquer momento. Já Roberto deu dois passos para frente, puxou do bolso uma pequena agenda e uma caneta e começou a anotar.

O magrelo espinhento parou e os soldados continuaram, até fazer um semicírculo em volta dos três visitantes. Num estante os pequenos apontaram as lanças. Era possível ver a tensão no ar. Na verdade, alguém com uma faca afiada poderia até mesmo cortar uma fatia daquela pesada atmosfera. Longos segundos se passaram até que uma bola de futebol passou quicando no meio deles. Três meninos pequenos, vestindo camisetas pretas e amarelas, passaram correndo, agarraram a bola e voltaram pelo mesmo caminho de onde vieram. O magelo franziu a testa e solto um suspiro. Um dos lanceiros deixou escapar uma risadinha. Em poucos segundos a risadinha espalhou-se, como fogo por sobre mato seco e todo mundo estava gargalhando. Roberto começou a rir discretamente, mas depois explodiu em gargalhadas, junto com o gorducho que já estava arqueado sobre um dos joelhos, balançando a pança a cada risada. Só Oliver e Eric olhavam tudo sem saber o que fazer.

– Olha Mateus, se você continuar assim não vai conseguir manter a segurança aqui. Ainda confio na escolha do conselho, mas o chefe da casa de Afrodite para líder da segurança parece uma piada pronta – disse Roberto estendendo o braço, sendo prontamente abraçado pelo rapaz.

– Olha professor, quem não te conhece que te compre! Sei muito bem que foi o seu voto que me colocou aqui. Mas quem são os jovens visitantes?

– Semideuses. Não são filiados nem reconhecidos, nem estão em missão. O pai de um deles é grande amigo meu. Precisam de guarita e ajuda.

– Claro, claro… não temam pequenos. Eu sou Matheus Dezan, chefe de segurança do Santuário. Também sou o líder do chalé de Afrodite. Pelo visto nenhum de vocês é filho de Afrodite – Mateus esboçou uma careta – é, parece que continuo o único. É complicado – ele olhou para Roberto e sorriu – é como ser o irmão mais velho de 12 irmãs. Mas podem me chamar de sr. Dezan. Matheus é só para os amigos mais íntimos. Vamos entrar. Temos muito a conversar até a hora do jantar. O conselho saiu para ver algo no Oráculo e deve voltar só a noite, até lá conversamos.

A conversa foi no refeitório do lugar. Era enorme e parecia uma cantina de high school americano. Eric e Oliver contaram tudo o que sabiam, unto com Roberto. Após ouvir atentamente os dois Dezan começou a falar.

– Entendo. Mas eu ainda não sei o que dizer. Esta noite, na hora do jantar podemos fazer uma cerimônia de reclamação, onde, pelo édito do Senhor Z, todos os deuses vivos devem reclamar seus filhos. Como filhos dos deuses vocês são bem-vindos ao santuário. Hoje podem ficar nos alojamentos de hóspedes, mas depois de serem reclamados deverão ir a seus chalés.

– O que é ser reclamado? – perguntou Oliver.

– É o momento em que seu pai ou mãe deus aceita você como filho. Normalmente você deve fazer uma oferenda aos deuses. Ele lhe dará a sua bênção e conforme seja passará algum tempo com você. O meu pai é Hades – o senhor do inferno. Não pensem nele como dizem os livros de mitologia. Ele está mais para um ex-roqueiro de meia idade do que para um cara que controla o submundo com mão de ferro… embora ele faça isso mesmo. Ei Dezan, você lembra de quando fui reclamado?

– Mas é claro que eu não lembro. Eu não tenho idade para isso. Mas eu ouvi histórias. Sobre o senhor dos mortos andar sobre esta terra – Dezan contorceu-se como se tomado por um calafrio.

– Ele sentou-se bem aí onde você está sentado – disse casualmente Roberto.

O sr. Dezan saltou como se tivessem lhe espetado uma agulha nos fundilhos. Ele olhou em volta e começou a gargalhar.

– Certo – disse ele meio sem jeito – vou arranjar alguém para dar uma volta com os meninos. Para que possam conhecer nossas instalações.

Ele chamou um dos lanceiros e mandou que chamasse alguém. Poucos minutos depois ela chegou. Era uma moça clara, queimada pelo sol. Os cabelos eram longos e meio ondulados, amarrados numa pesada trança que fazia com que sua testa ficasse retesada e esticada. O nariz de batatinha ficava bem no meio do rosto arredondado – típico das meninas que estão passando pela puberdade em direção à juventude. Apesar disso sua compleição física era firme e o seu peso parecia ser bem distribuído pelo corpo atlético. Ela vestia a mesma camiseta preta e amarela dos meninos de mais cedo, mas usava shorts jeans na altura dos joelhos. Calçava um surrado par de tênis nike que um dia foram brancos. Nas costas trazia uma alijava com uma dezena de flechas e um arco de madeira. Na manga esquerda era possível ver um enorme desenho de um sol estilizado, com uma harpa em seu centro.

– Esta é Jade. Do chalé oito. Jade estes são Eric e Oliver. Novos recrutas. Mostre tudo a eles, mas nada muito perigoso. Eles não foram reclamados ainda. Traga-os de volta na hora do jantar.

Jade franziu o cenho. Estava claramente contrariada. Olhou os dois: um quatro-olhos nerd de computadores e um otaku pernas finas. Não pareciam grande coisa. Mas ordens são ordens.

– Vamos lá novatos. Tenho duas horas para mostrar tudo a vocês antes da grande noite.

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