Os novos heróis do Olimpo – Capítulo 12

Estratégia, do grego estrategia…

Oliver estava se sentindo verdadeiramente sem sorte. Primeiro perdera o tio, depois caíra de um avião. Depois tinha sido caçado, perseguido por monstros e demônios, fora drogado, sequestrado e agora estava para morrer nas mãos de um lobisomem bestial de, sei lá, uns três metros de altura mais ou menos. Havia pelo menos uma coisa que o confortava: não viveria o bastante para ver as coisas ficarem piores.

A situação no mini-coliseu era desesperadora, para dizer do mínimo. Além do rei dos lobis-monstros dezenas de outras versões “júniores” saiam do mesmo buraco no chão. Tomados de assalto pelo menos uma dezena de campistas tombou antes de poder se defender. Oliver estava usando sua espada. Ela tinha diminuído um pouco de tamanho, mas continuava ainda mortal e afiada. Eric lutava a poucos passos dele, um protegendo as costas do outro. Ambos já tinham sofrido alguns arranhões das feras, mas não era nada comparado a outros campistas estendidos no chão. Muitos deles não estavam apenas mortos. Estavam desfigurados. A chuva começou a cair das pesadas nuvens transformando a arena num lamaçal grudento de terra, suor e sangue.

Alguns grupos de campistas conseguiram armas – ou já estavam armados – e a luta corria feroz nas galerias. Os lanceiros do senhor Dezan estavam divididos em dois grupos, mas sem efeito prático algum. Uma jovem de cabelos vermelhos brandia uma enorme alabarda, garantindo que seus companheiros de chalé – todos com panos vermelhos amarrados em alguma parte do corpo – pudessem fugir.

Em poucos minutos de luta Oliver encontrou com jade, lutando pela vida com uma pequena adaga de bronze. Pouco mais que um abridor de cartas. Seu arco estava atado às suas costas e sua alijava pendia sem flechas. A situação os levou a se refugiar por trás de uma parede fina de madeira. Ao seu lado o seu fiel amigo, Eric, com um corte feio, mais ou menos estancado na altura da boca. Doía para falar. O que era bom. Ás vezes Eric falava demais. Com eles a jovem arqueira ofegava. Ao que parece seus poderes de mira infalível serviam apenas quando estava usando um arco.

– Temos de fugir e reagrupar. – disse ela com firmeza. Vamos fugir até os chalés e cada grupo pode ser armar e reorganizar…

– Nada difo – disse Eric com dificuldade – temofs que levar a luta até elefs.

Eric parou um pouco, bateu nos bolsos e sacou a última dose de ambrosia caseira. Era pouco demais para beber, mas ele espalhou um pouco nos lábios e boca esperando que o resultado fosse o esperado. E foi. Poucos segundos depois a sua boca estava apenas avermelhada. Mas o dente perdido não tinha crescido, como ele pensava. Oliver tinha que admitir que o dente banguela deixava Eric ainda mais engraçado.

– Eles estão na vantagem, mas este é o terreno de vocês. Vocês deveriam ter a dianteira. Esse lugar é uma arena. Deve ter dúzias de armas e armadilhas escondidas por aí. Pense alguma coisa.

– Eu tenho um plano – Oliver parecia falar sério – eu e você atacamos frontalmente. Direto no bicho, abrimos a guarda dele e nessa hora a versão mais feminina do Gavião Arqueiro aqui e seus amiguinhos do chalé número oito atacam com flechas de prata. Vocês têm flechas de prata em algum lugar, não têm?

Jade ficou confusa por um instante. O plano parecia fazer sentido. Sentido o bastante para ser tentado. Ela tinha flechas de prata sim, no depósito por baixo da arena. Sabia até mesmo onde pegar. Ela mesma poderia ir até lá. Mas como avisar seus amigos?

– Toma isso – Oliver entregou o fone bluetooth a ela. – ainda está conectado aos alto-falantes. Faça parecer que estamos em debandada. Vamos atacar.

Jade colocou o fone e pôs-se a correr na direção do depósito. Gritava os comandos em inglês, na esperança que os coisas-lobo não soubessem falar o idioma. Oliver vu que tinha feito a coisa certa: mal ela começou a gritar pelos alto-falantes a moral dos campistas melhorou. Era como ele pensava: estes estavam loucos para lutar, mas precisavam de um líder em que confiassem. Jade poderia ser a criatura mais metida que ele já tinha conhecido, mas com certeza ela exercia muita liderança positiva sobre seus colegas.

– Está pronto Eric?

– Irmão, eu me sinto como se fosse o Seya indo enfrentar o Aiolia de leão. Só que sem a deusa Atena do meu lado. – um relâmpago correu os céus e Eric calou – Ok, sem piadinhas por enquanto.

Os dois começaram a correr limpando a arena. A espada de Oliver e as adagas de Eric pareciam fazer tanto dano quanto prata fazia nos lobisomens dos filmes. Alguns explodiam quando eram transpassados, deixando para trás um pacote de cinzas que fedia a pelo de cachorro queimado. Ao final estavam os dois a uma dezena de metros do lobo mau.

O lobo agarrou um lanceiro e o jogou longe quando percebeu a presença dos dois. Ele bufou e arquejou, como se tomado de muita fúria. Ergueu sua enorme espada – quase do seu mesmo tamanho e ouviu dolorosamente em direção ao céu. De perto ele era muito mais feio e perigoso. Só agora os dois percebiam a imensa coleira de ferro que ele usava – ao que parece muito mais para proteção do que para restrição.

– Attack now! – explodiram aos alto-falantes.

Oliver apontou a espada e disparou uma de suas rajadas de energia. O monstro não teve qualquer dificuldade em refletir o ataque com sua espada. Eric e Oliver então correram na direção do lobo mau. Ele desferiu um golpe lateral contra os dois. Eric foi jogado longe, esmagado pelo golpe como uma mosca sendo atingida por um jornal enrolado. Mas a espada de Oliver suportou o peso do ataque. Os dois começaram a se digladiar. O monstro atacava com força, mas Oliver se defendia com elegância. Tudo que ele pensava era em não ser morto. Ele sabia que havia um limite de quanta habilidade sua espada poderia lhe emprestar, mas não queria descobrir esse limite – pelo menos não agora. Bloquear o último golpe fez seus jelhos fraquejarem. O limite estava perigosamente próximo. Finalmente ele ouviu um “Now!” entre os clinches de espada e saiu do meio. Uma flecha acertou o olho esquerdo do monstro. Ele largou a posição de luta, levando a imensa pata monstruosa em direção ao rosto. Oliver olhou de relance para trás e viu que a menina de alabarda estava correndo pelo flanco direito para atacar o monstro. O lobisomem golpeou com força, esquecendo-se de Oliver, arrancando parte da cabeça da alabarda da guerreira de cabelos vermelhos. Mas, apesar do golpe capaz de esmagar a frente de um caminhão, ela sorria. Então Oliver viu uma sombra passar pelo ombro dela, usando a guerreira ruiva como trampolim: era Eric. Ele se jogou em direção do monstro, no melhor estilo kamikaze, golpeando numa brecha entre a coleira e o pescoço da fera. O lobisomem urrou, o sangue escorrendo aos borbotões. Então sua expressão de fúria serenou. Oliver poderia jurar ter ouvido um “obrigado” antes da fera cair no chão e se dissolver num monte de cinzas de pelo de cachorro queimado, lama e sangue.

Assim que o monstro tombou o céu se abriu. A chuva cessou. Os gritos de alegria começaram com festa, para logo darem espaço aos lamentos pelos companheiros caídos. Logo a cavalaria chegou: Roberto, Dezan e duas dezenas de soldados armadurados. Foi preciso uns bons minutos de conversa e relatos para descreverem o que tinha acontecido. Por fim Dezan decretou que os feridos fossem levados à enfermaria. Os mortos foram velados numa cerimônia rápida, cremados em piras cerimoniais.

Era fato que ninguém queria jantar, mas haviam quatro heróis no acampamento: dois ainda não reclamados – Oliver e Eric e duas velhas conhecidas: Jade do chalé oito e Nathália do chalé número 5, de Ares. Sim, Oliver ficou sabendo mais tarde no jantar que a misteriosa ajuda que ele teve na luta foi da mais poderosa combatente de todo acampamento.  Claro, que comentando mais tarde com Oliver, Eric confidenciou que achou a menina muito bonita. Para alguém cujo pai foi assassinado por Kratos em todos os consoles domésticos de 2005.

A mesa dos dois sempre recebia algum tipo de visita. Gente que foi agradecer por ter sido salvo, gente que viu a luta e comentar e por outras que faziam pedidos. Por favor, que você seja filho do deus fulano/ deusa fulana. Depois de um tempo ficou chato.

Por fim, acenderam um enorme cálice de fogo do lado de fora do refeitório. Cada um dos campistas passou por ele, jogando alguma coisa dentro. Alguns jogavam poções de comida, outros fotos dos amigos queridos. Cada objeto jogado o fogo oscilava. As vezes ia alto no céu, como um poste, outras vezes murchava, como se fosse se apagar. Oliver e Eric observavam em silêncio. Roberto parou ao lado deles e comentou em tom solene.

– Meninos, vocês devem sacrificar algo importante para os pais de vocês. Deuses são geniosos. Quanto maior o sacrifício, maior o reconhecimento. Algo que seja de valor ou importante para vocês.

– Como o que? – perguntou Eric.

– Algo importante. Algo que mostre que você é digno de ser reconhecido.

– E se o deus não quiser me reconhecer?

– Eles são obrigados pelo Édito de Zeus. Mas Zeus os obriga apenas a reconhecer. O sacrifício é quem garante o “amor” e a atenção.

Eric foi antes de Oliver. Ele ainda estava com as roupas da batalha: Alpercatas de couro, calça jeans imunda e rasgada. A camiseta amarelada com os dizeres “fui à Filgaia e tudo que trouxe foi esta camiseta” ele pegou suas duas adagas e as jogou no fogo. “Temos muito papo para por em dia, velho”, ele pensou.

As chamas se elevaram. Dobraram-se no céu formando vários padrões de luz e cor. Pouco depois um silêncio sepulcral. As chamas começaram a voltar ao normal. Foi que todos perceberam a pessoa parada ali. Um senhor moreno e atlético, um tipo sorridente, que inspirava confiança. Mas ao contrário de quando Oliver o vira pela primeira vez, não estava vestido como um fazendeiro de Goiás. Não, dessa vez Mercuttio maia estava vestido com uma toga grega, um elmo com asas e sandálias de couro. Os filhos de Hermes foram os primeiros e a se ajoelharem perante a presença de seu Pai. Os outros foram se ajoelhando à medida que ele passava pelo salão. Ele sorriu para Oliver, estendeu a mão para Eric.

– Olá filho – disse o homem com voz embargada e olhos mareados – é bom poder te ver frente a frente. Venha, temos muito o que conversar. Os dois saíram em direção ao chalé de Hermes, conversando.

Oliver foi o próximo. Ele retirou da mochila uma foto do pai – a única que ele tinha e a soltou no fogo. A foto bailou pelo ar quente e caiu dento do cálice em chamas. O fogo não se mexeu. Nada aconteceu.

– Tente outra coisa! – gritou alguém.

O que poderia ser mais importante que a foto de seus pais? Oliver não tinha mais nada. O frank? Era útil, mas não era importante de verdade. Ele sacou sua espada. Ela estava mais linda e brilhante do que nunca. Ele apontou a espada para o cálice e depois gritou: quero minha mãe! Logo depois, para espanto de todos, e dele mesmo incluso, ele chutou o cálice. Ele caiu no chão, as chamas se apagando rapidamente, como o sopro de uma criança apagando uma vela de aniversário.

Tudo ficou escuro, exceto pelo manto brilhante de estrelas no céu. Foi quando uma delas começou a cair, aproximando-se cada vez mais até que tocou o chão. A imagem da mulher vestindo roupas de aviadora da segunda guerra mundial surpreendeu a todos. Ela tirou o capacete de aviador, deixando os longos cabelos lisos cascatearem pela jaqueta marrom. Ela abraçou Oliver com força. Depois olhou em volta e disse em tom solene:

– Eu sou Astréia, a deusa das estrelas. Filha de Zeus e Tamis. Senhora do céu e das estrelas – e de tudo o que elas representam. – Estou de volta!

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